O rinoceronte e a metamorfose coletiva

Por Juliano Pedro Siqueira


Eugène Ionesco. Foto: Micheline Pelletier


O período do pós-guerra despertaria profundos temores em um mundo que acabara de ser desfigurado pela destruição em massa. Acompanhado do horror, da incerteza e da descrença na razão, emergiu-se uma série de questionamentos existenciais e morais, tendo como pano de fundo a literatura, a filosofia, a arte, a psicanálise e o teatro, que buscaram os fundamentos que levassem a entender o homem a partir de seus símbolos, fanatismos e contradições.
 
Correntes como o existencialismo, que a exemplo, explorou conceitos como angústia, em Sartre, tempo, em Heidegger, suicídio, em Camus; e do teatro do absurdo, com Samuel Beckett, Arthur Adamov e Eugène Ionesco; além, claro, dos estudos antropológicos de Sigmund Freud, promoveriam um grande debate intelectual no ocidente, submetendo à dúvida o progresso moral, racional e existencial do homem.
 
Com o advento de movimentos filosóficos de cunho materialista e relativista, defender-se-ia a supremacia da razão como superação do fenômeno religioso e metafísico, substituindo-os por novas perspectivas materiais e morais, apostando no triunfo dialético e histórico do homem. Diante das agruras daqueles tempos sombrios, que prevaleciam inúmeras incertezas, reverberaram correntes ideológicas de natureza coletivista, anunciando uma espécie de messianismo político, sustentado por discursos de ódio, sob a premissa da redenção humana. O totalitarismo ergueu-se como arauto profético, moldando a concepção de mundo, atribuindo poderes ilimitados a tiranos que orquestrariam um verdadeiro massacre humano em face aos ideais de estirpe extremista.
 
A literatura desenvolveria um papel fundamental como chave de leitura e esforço interpretativo sobre aquele cenário dantesco e vil. E o teatro seria uma poderosa ferramenta que descortinaria profundas reflexões sobre o drama humano e a ideia de absurdo, contrapondo-se às pretensões do homem em se estabelecer no mundo de forma segura. No conjunto de peças emblemáticas, que caracterizavam nos palcos a absurdidade da vida expressa, tivemos Esperando Godot, (1952) de Samuel Beckett, Longa jornada noite adentro (1956) de Eugene O’Neill e Guernica (1961) de Fernando Arrabal.
 
É neste contexto em que o absurdo se constitui a matéria-prima da reflexão existencial do homem, que surge a voz em forma de protesto do romeno Eugène Ionesco (1909-1994), e dentre outras importantes peças, está o seu trabalho de maior envergadura e objeto de interesse desta análise, O rinoceronte (1960). Trata-se de uma peça dividida em três atos, que discorre sobre um fenômeno bizarro, antinatural e anômalo, que mudaria completamente a rotina dos habitantes de uma pacata cidade francesa.
 
Humanos, com suas vidas banais, entregues às paixões e dados a trabalhos exaustivos e pouco promissores, transformam-se, um a um, em rinocerontes; feras selvagens, com corpos rígidos, enrugados e pesados. Diante de tediosos e despretensiosos diálogos, cercado por ambientes simplórios e temperaturas sufocantes, as personagens veem-se coagidas, ora pelo horror e surpresa, ora por tamanha indiferença, por monstruosas metamorfoses do que parece ser uma avassaladora e inevitável epidemia.
 
Não apenas as guerras, as epidemias também foram gatilhos que deflagraram profundas crises existenciais no ocidente, mudando radicalmente a visão do homem sobre o futuro, que lhe parecia ser cada vez mais incerto. Catástrofes epidemiológicas como a Peste Negra (ou bubônica), no século XIV, dizimaram boa parte da população europeia da época, ou a cólera, entre os anos de 1846-1860, trouxe grande desgraça aos países europeus, também ceifando milhares de vidas, inclusive de importantes personalidades, como o filósofo alemão Hegel, em 1831.
 
Nesses casos, novamente a literatura, com seu espírito nobre e inventivo, seria decisiva e soberana em meio ao caos; despertando entrega visceral e robusta em autores embriagados de inspiração trágica, cujas mãos deram vida a monumentais obras que se consagraram atemporalmente, promovendo verdadeira revolução no palco, desvelando desta feita, a crueza do homem e sua saga maldita diante das contingências da vida.
 
É inspirado na epidemia de cólera e na deflagração da Grande Guerra que Ionesco investe sua sensibilidade dramática para dar vida às personagens que cumprem a miserável missão de sofrerem o terror da metamorfose que os deformam em criaturas inumanas e desprovidas de quaisquer virtudes. O rinoceronte, este animal forte, indomável e tomado de um instinto agressivo que lhe é próprio, encarna a monstruosidade, como espécie de cólera maldita, a ponto de assumir novos corpos, com cabeças tomadas por uma coroa de chifres, porém, vazias de conteúdos críticos ou o mínimo de discernimento capaz de medir as consequências dos atos; entregando-se, como um grande rebanho, a comportamentos uniformes, repetitivos e servis. O corpo animal atrofiando o senso crítico humano!
 
O início da peça é marcado pelo encontro de um grupo de pessoas (dentre eles dois amigos) numa mercearia, que logo após vociferarem algumas palavras em meio ao café, é presenciado dois rinocerontes correndo pelas vias da cidade, o que já causa certa estranheza aos presentes, menos em Bérenge. A única personagem cética da trama, que não se deixaria contaminar com a bestialidade dos rinocerontes, haja vista ser avessa às convenções sociais, ébria, desleixada, indiferente, lânguida e solitária. É veementemente confrontada pelo excêntrico e civilizado Jean, que vive repreendendo-a por sua impostura. Jean incorpora o discurso do politicamente correto, acredita no progresso humano, nas instituições e na força imanente da natureza. Orgulha-se por cumprir religiosamente os deveres que lhe era posto. Vê-se ferido em seu orgulho pelo fato do amigo Bérenger ser-lhe o oposto: não leva tanto a sério a vida e os ideais sociais, como forma de realização pessoal ou ascensão profissional.
 
Outras personagens se agrupam, tecendo tediosos diálogos, como o lógico, o Senhor idoso, o merceeiro (a), a dona de casa, Daisy, o patrão, Dudard, Botard e Madame Boeuf. Cada qual contribui com opiniões a respeito do fenômeno estranho e incomum, debatendo desde a origem, superioridade ou inferioridade dos rinocerontes até a finalidade moral dos fatos ocorridos. Elas não poderiam prever que tão logo seriam as vítimas da metamorfose, assumindo deste modo, a forma abjeta de temíveis criaturas.
 
É notório o trabalho cirúrgico de Ionesco ao explorar as contradições presentes em narrativas que exaltavam a supremacia racial, étnica e ideológica. Ainda que num primeiro momento tais narrativas preconceituosas e segregadoras causem assombro e pavor a quem ouve, aos poucos despertam fascínio e encantamento, a ponto de a esmagadora maioria das personagens entregarem-se àquilo que seria o mais novo estado de animalidade.
 
O coletivismo e os dogmas políticos tendem a despertar sentimentos recalcados em pessoas quando unidas por uma causa comum, ganhando força e autonomia para extravasarem e praticarem atos ignóbeis. É a força do coletivo dando vasão aos instintos destrutivos e de dominação do outro. Grupos que se valem de teorias extremistas, pautadas na crença da superioridade genética, ideológica e social. Tema explorado por Freud, em seu polêmico texto de 1921, Psicologia das massas e análise do eu, que aborda justamente o motivo que leva pessoas se reunirem para praticarem violências diversas, a fim de subjugar seu semelhante, como também, a fanática necessidade de serem representadas por algum tipo de líder.



É possível que os rinocerontes representem os múltiplos grupos discriminatórios, separatistas, xenofóbicos, adeptos da eugenia e da violência institucionalizada. Uma vez contaminados e metamorfoseados, disseminam o terror, despertando a admiração de séquitos, que após ganharem a força numérica necessária, prosseguem aprimorando seus discursos massificados. Nem mesmo as personagens aparentemente convictas e de opiniões sólidas, resistiriam a força da transformação dessas criaturas medonhas. Na escalada de sucessivas metamorfoses coletivas, o lógico, os amigos, os funcionários de uma repartição jurídica, o cônjuge e até mesmo o inflexível Jean, são arrastados a adotarem corpos herméticos, incapazes de pensar, reunindo-se apenas com o único objetivo: causar terror e destruição.
 
A metamorfose como sintoma diante da absurdidade da vida já desenvolvera, muito antes de Ionesco, personagens frutos da intolerância e esquizofrenia social, como Gregor Samsa, em A metamorfose, novela de Franz Kafka. Após despertar de sonhos intranquilos, Samsa se encontra enclausurado no corpo estranho de um grande inseto, vendo sua vida ser desfigurada, desumanizada, causando repulsa aos que estão no seu entorno; e mesmo diante de uma realidade atroz, muitos tentam enquadrá-lo em estereótipos sociais, explicitando a indiferença de um mundo fadado ao fanatismo pelo progresso.
 
O processo histórico de massa, carrega em sua gênese suas metamorfoses coletivas. O ambiente que fora pensado e ensaiado a peça O rinoceronte, reforça o fracasso das políticas totalitárias, que contradisseram toda uma expectativa de evolução moral, que pudesse ser atribuída ao homem contemporâneo. O mundo assistiria estarrecido a brutalidade que contradiria à razão, resultado de um delírio em forma de sonho coletivo. O próprio Bérenger, o homem que ingere álcool para não sentir medo, acaba tomado de forte alucinação ao sentir seu corpo se rasgar ao meio, percebendo os sintomas que antecedem a metamorfose em rinoceronte. Enquanto sente-se decepcionado ao ver seu amigo Jean e demais conhecidos seguirem o mesmo fim trágico dos rinocerontes, chega a desejar ser um deles, mas não consegue. Bérenger possui uma natureza incólume aos encantos dos rinocerontes. “ Ele não tinha vocação para ser um rinoceronte”, diz a personagem de Dudard. Sua alma não é um celeiro fértil para que o vírus tomasse suas entranhas, rebaixando-o a um animal cascudo e bestial.
 
A cegueira coletiva costuma perseverar contra os mais resilientes, pois, estes, demonstram grande inclinação em executarem múltiplas ordens. Daisy, uma das últimas personagens, ao lado de Bérenger, exemplifica o quanto a metamorfose consegue possuir até mesmo os mais nobres de espírito, que lutam bravamente contra a doença de massa, do controle de grupo. Ao final da peça, a amada de Bérenger, depois de desbravar contra a terrível epidemia, por fim, sucumbe e se junta ao grupo das bestas selvagens.
 
Ionesco concedeu uma entrevista em 1994, pouco antes de seu falecimento, relacionando a peça à sua infância e ao conturbado contexto político que vivera na Romênia. Contexto que apontava para a disseminação do antissemitismo e dos partidos socialistas. Mas que em dado momento de lucidez, teria identificado uma contradição na perda da essência dos movimentos de esquerda, tornando-se, desta feita, numa direita do horror. E seria a denúncia contra o horror, que o dramaturgo romeno protestaria.
 
Identificamos teorias absurdas nos discursos das personagens, por exemplo, se os rinocerontes africanos seriam melhores ou piores que os asiáticos. Tais posicionamentos refletem as denúncias e a revolta de Ionesco, sobretudo de um mundo que se dividia; inflamado por narrativas de ódio, defendendo a superioridade de uma etnia sobre a outra, a partir de estereótipos e posicionamentos políticos contrários aos dos opressores. O resultado foi a cadeia de monstruosidades que invadiria a Europa, num derramamento de sangue sem precedentes.
 
O repertório dramático de Ionesco propunha uma incondicional resistência aos encantos do fanatismo político, dispensando a rígida lógica sendo o bastante o uso do bom senso moral para detectar as armadilhas por trás dos famigerados discursos. Não em vão, ele desenvolve em Bérenger a figura do anti-herói, sujeito completamente oposto aos clichês de um intelectual de cátedra. No seu mundo indiferente, ele observa as metamorfoses da vida com absurda indiferença, blindando-se contra às paixões políticas, o engano da falácia coletivista e da ideia de um mundo superior estabelecido sobre a terra. Dado momento do diálogo, Bérenger e Jean discorrem sobre a moral ponto crucial da peça , e este contrapõe a moral tradicional, desenvolvendo uma reflexão nada convencional sobre o tema:
 
“Jean Eu lhe digo que não é tão mau assim! Afinal, os rinocerontes são criaturas como nós, têm direito à vida, tal como nós!
 
Bérenger Com a condição de que não destruam a nossa. Você já pensou na diferença de mentalidade?
 
Jean (indo e vindo do quarto, entrando no banheiro e saindo.) Você acha que a nossa é preferível?
 
Bérenger Mesmo assim, temos uma moral ao nosso modo, que eu acho incompatível com a desses animais.
 
Jean (Idem.) Moral! Lá vem a moral! Estou farto de moral! É linda a moral! É preciso ir além da moral!
 
Bérenguer E o que você põe no lugar dela?
 
Jeano A natureza!
 
Bérenger A natureza?
 
Jean A natureza tem as suas leis. A moral é antinatural.
 
Bérenger Se estou compreendendo bem, você quer trocar a lei moral pela lei da selva.”
 
É recorrente percebermos como a moral é colocada em xeque quando novos modelos de comportamentos surgem com seus disfarces ideológicos. A moral e qualquer arguição de ordem transcendental tendem a ser ridicularizadas e substituídas por uma lei humanista ou até mesmo da selva, como defendia Jean. O homem rompendo com qualquer vestígio metafísico, estabelecendo alianças de morte com criaturas bestiais, pautadas em crenças da superioridade étnica e racial. A moral do mais forte, fazendo prevalecer sua vontade através dos instrumentos de controle e destruição. Era em repúdio a esta moral da selva que Ionesco denunciava em sua peça; uma forma legítima e de alto alcance, cuja voz retumbante ainda ecoa como poderosa resistência, desconstruindo ideologias extremistas, que ainda insistem em penetrar no âmago do homem, com o intuito de anular sua singularidade de pensamento e autonomia ética.

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