Mickey 17: excêntrico, multipolar e sobrecarregado

Por Alonso Díaz de La Vega




Em uma circunstância extraordinária, me senti forçado a assistir a Mickey 17 (2025) uma segunda vez para escrever sobre o filme. Minha primeira impressão não foi de uma película incompreensível ou difícil, mas apenas sobrecarregada e, portanto, confusa. Ao longo de quase 140 minutos, pelo menos 30 são dedicados a explicar um mundo que depois desaparece da tela: Mickey Barnes (Robert Pattinson), um “dispensável” — como são chamados em 2054 os trabalhadores de alto risco dispostos a serem clonados com a memória intacta — nos conta nesta meia hora os muitos detalhes de sua vida, suas decisões e seu contexto. Na verdade, o título do filme aparece em vinte minutos depois de ouvirmos como Mickey e seu amigo Timo (Steven Yeun) se envolvem com um agiota que empresta pelo prazer de cortar com uma serra os que não lhe pagam; como o fracasso deles com uma loja de macarrão os obriga a fugir para o espaço, e como Mickey, que não possui habilidades nem muita inteligência, é forçado a aceitar o trabalho de ser um dispensável. Por causa de seu status, seus colegas o maltratam — mesmo que mais tarde o copiem, embora sua imortalidade seja ilusória: seus clones subsequentes pensam que ainda são ele porque adquirem suas memórias, mas cada um tem uma personalidade diferente — e o expõem à radiação espacial ou a um vírus que maliciosamente corrói seu corpo. Tudo isso deve ser uma punição, insiste o protagonista, por dissecar um sapo na escola primária e causar a morte de sua mãe.
 
Mickey é um representante do proletariado internacional em sua jornada para colonizar o espaço, o que não promete um mundo muito melhor: o comandante da missão, Kenneth Marshall (Mark Ruffalo), é um político fracassado que atrai fanáticos vestidos de vermelho (especialmente um boné dessa cor), graças a uma plataforma política de pureza étnica e sexo sem fim quando eles assumem o planeta congelado de Niflheim. Esse nome, aliás, vem da mitologia nórdica, tão influente para o nazismo e sua visão de mundo. É claro que Bong Joon-ho continua seu ataque ao mundo contemporâneo: se antes ele se concentrava no intervencionismo estadunidense e na vida da ditatorial Coreia do Sul (O hospedeiro, 2006), na crueldade da indústria pecuária e suas mutações para fins de exploração (Okja, 2017) e nas ambiguidades morais da luta de classes (Parasita, 2019), agora foi a vez do neofascismo e o seu futuro interestelar.
 
A vida em Niflheim se torna difícil quando os humanos descobrem uma civilização de tatuzinhos espaciais gigantes que salvam Mickey 17 de morrer congelado, mas Marshall, um monstro, os considera um inimigo indígena a ser exterminado. Enquanto todos acreditam que ele está morto, Mickey 18 nasce, e aqui vêm mais dez minutos sobre a proibição de clones coexistirem com seus originais. Bong parece estar retornando ao ritmo de seus filmes coreanos, produções em que se enfatiza mais a caricatura e a desordem narrativa do que a exploração temática. Por exemplo, O hospedeiro parece que estende as complicações na busca pelos protagonistas para criar mais cenas e mais temas que não recebem muita profundidade; Bong não diz muito sobre o movimento estudantil contra a ditadura sul-coreana, apenas faz alusão a isso por meio de um personagem que joga coquetéis molotov em um monstro que acaba derrotado por uma arma do governo. Se tudo no filme tem um valor simbólico, entende-se que ele é o oposto da orientação socialista de Bong, já que as instituições funcionam e o corpo estudantil serve apenas como uma distração.
 
Bong se estende tanto em Mickey 17 que não temos muita certeza qual é o seu assunto: a ilusão da imortalidade, a ética de reproduzir um ser humano para explorá-lo, o futuro intergaláctico do neofascismo, a colonização de pessoas não humanas como uma expressão do nosso mal, a imoralidade capitalista da usura, a inexistência da amizade, a culpa de um amor inocente ou eterno. Porque Mickey, sem conseguir explicar, é amado pelas garotas mais bonitas da nave: sua namorada, Nasha (Naomi Ackie), e uma colega dela na equipe de segurança, Kai (Anamaria Vartolomei), que ao ver dois Mickeys sugere a Nasha que eles “cortem” um, em troca de guardarem o segredo. Bong não é apenas um disparatado com os temas, mas também com os tons, que variam da sátira à comédia maluca e culminam em um desfecho de ação/ aventura. O diretor sul-coreano atua como uma espécie de Philip K. Dick mais excêntrico e multipolar, cuja personalidade é afetada não pelos desconfortos de sua consciência, mas por uma simples incapacidade de se conter. Mickey 17 — que também aborda brevemente o assunto das drogas no espaço — é um parente carnavalesco de Os três estigmas de Palmer Eldritch.
 
O desenfreio tem seus resultados interessantes, se nos concentrarmos em Robert Pattinson, que retorna ao espaço sete anos depois de High Life (2018), de Claire Denis, outro filme disperso, mas melhor resolvido graças a uma montagem elíptica, não tão interessada em narrar ou em dar conclusões, ao contrário de Bong, mas em explorar viagens interestelares e privação erótica do sensorial. Pattinson é aqui dois personagens, Mickey tranquilo e Mickey picante — como Nasha os descreve — e oferece duas caricaturas memoráveis, cada um com sua própria dicção e tom de voz; cada um também tem uma postura diferente (ética e dorsal) e muitas vezes dão a impressão de serem interpretados por atores diferentes; no entanto, outros personagens são, às vezes, mecanismos narrativos dispensáveis, como Kai, que desaparece ao longo do ato final, ou Timo, que serve apenas para gerar excessiva tensão.
 
É uma pena que Mickey 17 nem sequer seja um filme interessante em suas deficiências; ou seja, não abriga problemas filosóficos ou estéticos ligados à produção contemporânea — e foi isso que mais me desconcertou quando o vi pela primeira vez: é apenas o resultado de um imaginário tão descontrolado que, embora ouse ser diferente como ninguém em Hollywood, desorienta sem pretender a tanto. Talvez a falha mais interessante de Bong seja sua representação da crueldade, tão limitada em seu tempo de enquadramento que nem sequer fornece material suficiente para um texto completo.
 
Com base no exposto acima, teríamos que adicionar Ruffalo e Toni Collette — que interpreta Ylfa, a esposa manipuladora de Marshall — entre os membros mais interessantes do elenco. Ambos os atores entendem perfeitamente o tom exigido por Bong e exageram seus gestos de forma grotesca. Seduzem ao supor que é sua habilidade diplomática que prevalece, mas seu carisma é tão microscópico que demonstra seu imenso poder material: se não fosse pelo fato de controlarem os meios econômicos e políticos em sua pequena réplica da sociedade, provavelmente muito poucos os obedeceriam. Então, há uma conexão entre poder e erotismo que pode atingir raízes mais profundas, mas permanece, como tudo o mais, na superfície. Ruffalo e Collette, por meio de seu trabalho, são os que conseguem sugerir a força como uma consumação do desejo humano, um prazer que surge da tortura de outros, mas são as imagens explícitas de dor que produzem uma ambiguidade intolerável para um filme antifascista.
 
Quando humanos capturam um par de percevejos espaciais gigantes em fase larval, Marshall ordena que um seja morto e o outro seja conservado. A morte da primeira é devastadora para o público porque sabemos da bondade de sua espécie e que ela é apenas um bebê. Bong não precisa sublinhar a indolência do neofascismo, o que fica bastante claro graças ao elenco; no entanto, ele nos mostra como o pequeno é despedaçado pelas balas dos humanos. Mais tarde, seu irmão é mutilado por Ylfa em uma imagem chocante devido à surpresa com que atravessa a tela, e então é pendurado em um gancho sob ameaça de ser jogado em um poço de fogo líquido. Bong filmaria um bebê humano sendo baleado até virar polpa? Certamente que não, e aí a gente se pergunta como o diretor consegue promover tolerância e respeito pelas criaturas que ele permite que sejam torturadas por meio de imagens. As intenções de Bong são boas, é claro, mas suas decisões sofrem do mesmo excesso do resto do filme, e algo pior: a hipocrisia da qual ele acusa seus vilões quando Ylfa se corrige usando a palavra mankind, que imediatamente substitui por humanity. Ambas se traduzem como “humanidade”, mas uma enfatiza os homens; o neofascismo do mundo fora das telas inclui mulheres cisgênero apenas para justificar sua transfobia. Bong é sádico com os alienígenas para ensinar as mesmas pessoas as quais ele mostra destruindo-as.
 
Apesar de tudo, ao vê-lo pela segunda vez, Mickey 17 ficou mais claramente entendido como uma brincadeira. Bong nunca foi um filósofo-cineasta, mas sim um formalista comprometido cujo principal interesse é o enredo. Para ele, contar histórias é um brinquedo, um artefato, com o qual experimenta, contraindo-o e esticando-o, como a cauda de um alienígena prestes a se transformar em molho. Talvez, dada a seriedade do que ele representa em seus filmes, Bong pudesse ser mais sério. Ele já havia feito isso antes, sem descuidar do humor e de seus excessos, naquele que é possivelmente seu maior filme, Memórias de um assassino 2003); é só uma questão de se administrar melhor. Os percevejos gigantes no espaço agradeceriam. 


* Este texto é a tradução livre de “Mickey 17: excéntrica, multipolar y sobrecargada”, publicado aqui, em Gatopardo.

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