Manuela Porto e suas histórias revivem
Por Marcelo Jungle

“E se tivesse nascido morto? Oh! Que sorte, que sorte
tamanha! Não se atrevia a perguntar isso, mesmo que tivesse a quem.” Essa é a
pergunta essencial do conto “Um filho mais”, de Manuela Porto, incluído na
inédita coletânea Histórias familiares e outras histórias (2025). Lançada
pela destemida editora PONTOEDITA, o livro reúne toda a obra literária desta
hoje desconhecida autora portuguesa. Estão compilados os livros de contos Um
filho mais e outras histórias e Doze histórias sem sentido, mais a
novela Uma ingénua: a história de Beatriz, publicados entre 1945 e 1952.
Manuela viveu grande parte de sua vida durante o mais longo regime autoritário
da Europa ocidental, iniciado em 1926 e que só foi definitivamente encerrado em
1974. Esse período abarca o conhecido salazarismo, referente a António de
Oliveira Salazar, figura central do regime, oficialmente chamado de Estado
Novo.
O título poderia ser somente Histórias Caseiras,
porque é esse sentimento que se tem ao lê-las. No conto antes referido, a
miséria enfrenta a maternidade e o casamento, temas cruciais destas histórias.
Nele, ante a juventude derrotada, a morte é a única saída. Somos levados a
antecipar um evento trágico envolvendo a criança recém-nascida ou a mãe. Isso
ocorre antes mesmo que ela deixe a maternidade, a qual não tem condição de
pagar. Porto consegue tornar envolvente qualquer assunto relativo ao modo de
viver de gente normal. Diz e mostra. Sem esplendores literários ou ápices
inesperados, as descrições da difícil tarefa de apenas viver são as que mais
incitam no leitor o desejo de habitar aquele instante perdido no tempo:
“Pode gritar-se apenas porque nos dói. Pode gritar-se
exatamente porque aquilo que foi, foi, e de todo o sempre era irremediável.
Pode gritar-se apenas porque o punhal que nos cravaram na carne desceu, por
nossa culpa, até muito fundo, e não pudemos, nem quisemos que de nós o
arrancassem jamais...”
Este é o último parágrafo do conto “Uma história igual a
muitas” (um título que fala por si), que assim inicia:
“Hoje que ele já não existe e que eu própria, embora não
seja uma velha, tenho a cabeça coberta de cabelos brancos e toda a antiga
frescura perdida, hoje que, desaparecido ele, tudo quanto passou, passou
irremediavelmente e de vez, posso vir contar esta história, embora se trate de
uma narrativa que não deve interessar a ninguém.
Se nem eu mesma sei por que venho falar em tal!
Alguém afirmou 'recordar é viver'. Entretanto, não é isso
com certeza o que me leva hoje a escrever.”
Por vezes o personagem se pega olhando num espelho com
surpresa. Em outras, como neste conto, o espelho transforma-se no ato de
escrever. A compreensão e a compaixão são procuradas em palavras e lembranças.
Isso se manifesta tanto na emoção de olhar para si quanto na capacidade de suas
mentes serem transportadas para mundos e épocas passadas. Amores que se tornam
memórias sem nunca terem se realizado. O inesperado que vira realidade através
da descrição literária, sempre assentada numa aspereza. Uma desilusão de uma
menina numa tarde qualquer, ao perceber o semblante de sua adorada professora
de piano, revela o primeiro grande medo de sua vida e reforça seu amor pela
mãe.
Tudo é muito simples. Um olhar profundo, porém próximo.
Aquilo que sentimos, mas não pensamos, ou procuramos esconder de nós mesmos. O
intento é alcançar o corriqueiro, não apenas no pensamento, mas na própria
forma de dizer. Beira a ingenuidade em algumas passagens, como:
“São sempre muito simples as explicações das coisas. Só a
nossa imaginação as complica. Dir-se-ia que a vida tal qual nos é não basta,
por mais positivos que estimemos ser.”
Sabemos que não. Mas queremos acreditar que sim. O desejo de reparação e atenção faz com que concordemos com tal credulidade pueril. No processo de identificação literária nos tornamos menos sós em relação ao que não estamos dispostos a revelar. De fato, a vida cedo nos ensina que compartilhar emoções pode ser ineficaz e doloroso. E é isso que nos prende à literatura de Manuela Porto, imersa em círculos que não costumamos adentrar voluntariamente.
A segunda parte da coleção continua com filhos solitários, mães em desgraça, pobreza, distanciamento, maridos indiferentes; traições e violências; suicídios e desejos de morte. A felicidade reside em detalhes, e as alegrias, em pequenos momentos líricos genuínos. Conclui-se que, ao contrário do título, essas histórias possuem pleno significado e propósitos bem definidos. Talvez o que não faça sentido seja estarmos destinados a protagonizá-las. Desse modo, emerge a oculta ideia de insurgência, impulsionada pelo claro inconformismo com os destinos traçados.
Contra esse determinismo é que as palavras lutam, na
forma como os regimes autoritários permitem. Seus significados estão na entrega
e não na leitura formal.
No conto “O café do cais” tão precisas são as descrições
ambientais, que sentimos o cheiro da maresia se aproximando e do interior do
café, os dois elementos do título. Funciona como imersão num ambiente que irá
exibir uma nova camada de leitura, como a enigmática presença do atendente de
balcão, que aparenta ser um personagem do passado, que não se encaixa naquele
ambiente. Contudo, a narradora, uma intrusa, o analisa com a máxima atenção
motivada pelo seu mutismo. Quem é a outra mulher? Será a mesma pessoa? Uma vida
dentro da outra? É para isso que o encontro atencioso e em silêncio acontece?
Qual é a frustração do furioso atendente? E o anjo loiro que veio de longe?
Fico a me perguntar se serão todos fantasmas, a representar nosso destino.
Outra questão bastante sensível é o suicídio, tratado de
forma direta e única em “Maria,” que termina com o protesto da desafortunada
suicida:
Sabemos que não. Mas queremos acreditar que sim. O desejo de reparação e atenção faz com que concordemos com tal credulidade pueril. No processo de identificação literária nos tornamos menos sós em relação ao que não estamos dispostos a revelar. De fato, a vida cedo nos ensina que compartilhar emoções pode ser ineficaz e doloroso. E é isso que nos prende à literatura de Manuela Porto, imersa em círculos que não costumamos adentrar voluntariamente.
A segunda parte da coleção continua com filhos solitários, mães em desgraça, pobreza, distanciamento, maridos indiferentes; traições e violências; suicídios e desejos de morte. A felicidade reside em detalhes, e as alegrias, em pequenos momentos líricos genuínos. Conclui-se que, ao contrário do título, essas histórias possuem pleno significado e propósitos bem definidos. Talvez o que não faça sentido seja estarmos destinados a protagonizá-las. Desse modo, emerge a oculta ideia de insurgência, impulsionada pelo claro inconformismo com os destinos traçados.
“Que estão a dizer-me? Por que insistem em perguntar? Não veem, não compreendem que me é impossível responder? Para que me atormentam? Não entendem que, se me decidisse a falar seria apenas para lhes dizer brutalmente, cruelmente, impiedosamente que não se arranca à morte uma criatura que conseguiu — sabe Deus à custa de quantos tormentos! — arranjar forças para dar o grande salto para arremessá-la de novo a uma vida que ela deveria amar e que não arrancava de si sem uma grande, grande razão...?”

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Histórias familiares e outras histórias
Manuela Porto
Pontoedita, 2025
320p.
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