Boletim Letras 360º #633

Halldór Laxness



LANÇAMENTOS
 
Publicado em 1957, dois anos após Halldór Laxness receber o prêmio Nobel de literatura, livro conduz o leitor até as paisagens islandesas e os pequenos detalhes da vida cotidiana nas ruas de Reykjavík no início do século XX.
 
Em Os peixes também sabem cantar acompanhamos a vida de Álfgrímur, um menino órfão criado pelos avós adotivos em um casebre humilde nos arredores da então futura capital da Islândia. Sua narrativa sinuosa se apoia na memória coletiva, nos mitos e nos valores compartilhados para descrever a construção de identidade, tanto individual como nacional. A obra é, ao mesmo tempo, um romance de formação do jovem Álfgrímur e da nação islandesa. De um lado temos uma sociedade em transição na pequena ilha do Atlântico Norte que à época oscilava entre as amarras coloniais e a busca por autenticidade; do outro, um protagonista moldado pela sabedoria tradicional islandesa, mas que se vê atraído pelo brilho ilusório da fama representada por Garðar Hólm, um cantor lírico de fama internacional. Sua jornada reflete a busca por equilíbrio entre passado e futuro, entre autenticidade e validação externa, e entre tradição e modernidade, os mesmos dilemas enfrentados pela nação islandesa de então. Com seu lirismo e sua narrativa envolvente, Halldór Laxness nos leva em uma viagem por épocas e culturas distintas. Apesar das distâncias — temporal, geográfica, cultural —, o tema da busca por identidade abre espaço para sentimentos de pertencimento e saudade, o que traz universalidade à obra e a aproxima do leitor. Tradução de Francesca Cricelli e Luciano Dutra; publicação da editora Zain. Você pode comprar o livro aqui.
 
Caixa editada pela Nova Fronteira reúne toda a contística de Rubem Fonseca mais dois inéditos.
 
Direto, brutal, genial. Para comemorar o centenário de um dos maiores escritores do Brasil, a Nova Fronteira lança este box em que você encontrará reunidos, pela primeira vez, todos os contos de Rubem Fonseca, e ainda dois inéditos, resgatados por sua filha. Descubra — ou revisite — a prosa afiada e cinematográfica do autor que expõe sem pudores a violência, a desigualdade e as feras que habitam o mundo urbano. Fonseca não mede palavras, não suaviza choques, não faz concessões. Seus personagens vivem no limite, suas histórias curtas são duras e fatais. Do primeiro conto ao último, cada página é um soco, cada cena é um corte preciso, cada frase, uma assinatura inconfundível. Esta edição definitiva traz, além dos textos revisados pelo próprio autor, prefácios de especialistas e um breve e magistral ensaio de Silviano Santiago. Um tributo essencial a um mestre que reinventou o conto brasileiro. Você pode comprar o livro aqui.
 
Dando continuidade à coleção de contos de Andrei Platônov (1899 – 1951), o segundo volume da trilogia editada pela Ars et Vita apresenta mais oito contos do escritor russo.
 
São textos escritos entre a década de 1930 e 1940: “Úlia”, “O amor pela pátria”, “Mamãe também”, “Puk-puk”, “A pequena isbá da vovó”, “No juízo de Deus”, “A tempestade de julho” e “A flor desconhecida”. Cada um dos contos é acompanhado por ilustrações da artista visual mineira Anna Cunha. Seja através de cenas cotidianas da vida camponesa na Rússia da primeira metade do século XX, do olhar fascinado de uma pioneira para uma flor desconhecida ou das viagens de um pardal em meio ao inverno russo, Andrei Platônov reafirma o seu lugar único na história da literatura russa, através de histórias que abordam as relações entre pais e filhos, o amor, a orfandade e o destino humano. A edição traz apresentação e tradução de Maria Vragova. Você pode comprar o livro aqui.
 
A Editora Unesp amplia sua coleção de obras marcantes da literatura com mais dois títulos.
 
1. Em Israel Potter, Herman Melville nos transporta à América colonial, revelando a vida extraordinária de um homem comum em meio à Revolução Americana. Através dos olhos de Israel Potter, testemunhamos a guerra, a intriga política e a luta pela liberdade. Em meio a encontros com figuras como Benjamin Franklin e Ethan Allen e aventuras com piratas e soldados, a obra nos convida a uma imersão em um dos períodos decisivos da história norte-americana. A tradução é de Bruno Gambarotto. Você pode comprar o livro aqui.
 
2. Lamiel, jovem camponesa de espírito rebelde, desafia as convenções sociais em busca de liberdade e poder. Sua trajetória, crítica contundente à hipocrisia da sociedade e à exploração da mulher, compõe um retrato mordaz da França do século XIX. A crítica à burguesia, a busca pela liberdade individual e a exploração da sexualidade feminina são elementos que tornam a obra surpreendentemente contemporânea. Lamiel, de Stendhal tem tradução de Jorge Coli. Você pode comprar o livro aqui.
 
A prosa de Alejandra Pizarnik amplia a presença da obra da poeta argentina entre os leitores brasileiros.
 
Prosa completa reúne uma diversidade de escritos — desde artigos e ensaios até entrevistas, peças teatrais, resenhas de escritores de sua estima, relatos e textos de humor — proporcionando uma nova perspectiva sobre sua obra, até então conhecida quase exclusivamente pela produção poética. Muitos destes textos são permeados pelos mesmos motivos e figuras recorrentes em seus versos: a sedução e a nostalgia impossíveis, a tentação do silêncio, a escrita como espaço cerimonial onde se exaltam a vida, a liberdade e a morte, a infância, os espelhos e o duplo ameaçador. No entanto, apesar da evidente coerência entre sua prosa e obra poética, descobrimos nestas páginas uma Alejandra surpreendentemente livre e ilimitada, dona de um humor peculiar que poucos poderiam imaginar. Organizado e publicado postumamente, este volume com tradução de Nina Rizzi e Paloma Vidal consolida a prosa da autora, tornando acessíveis textos que antes estavam dispersos em revistas ou permaneciam como manuscritos inéditos. A obra é considerada leitura complementar indispensável para os admiradores de sua poesia. Publicação das Edições Relicário. Você pode comprar o livro aqui.
 
Poderoso desde a primeira frase, Leme é um inventário de monstruosidades.
 
Com mão segura, texto cativante e atenta aos detalhes, exibindo franqueza e engenho literário, Madalena Sá Fernandes conta a história de uma menina que cresce à sombra de um padrasto violento, irascível e cheio de contradições. Paulo, o novo companheiro de sua mãe, chega quando a protagonista contava apenas seis anos de idade. A princípio, parecia alguém que cuidava dela, presenteando-a com livros e tratando de seus pequenos acidentes infantis. Aos poucos, contudo, esse homem começa a dar sinais de uma brutalidade jamais vista — metódico ao extremo, explodia por causa de pequenos deslizes, era violento e ofensivo, convertia aquilo que deveria ser um lar familiar na sucursal de um inferno construído pelo medo e pelo ressentimento. Romance de estreia que rapidamente se tornou um sucesso de público e crítica em Portugal, além de ser saudado por organizações que combatem a violência doméstica, Leme é o exercício — profundamente humano e literário — de uma denúncia atordoante sem no entanto perder de vista aquelas zonas de sombra que habitam todos nós, oscilantes entre o amor e o horror, a aceitação e a repulsa. Logo no começo da história, ela escreve: “Era um filho da puta. Um filho da puta que lembramos em lágrimas”. Sensação semelhante será experimentada por qualquer leitor deste romance. Graças à humanidade da arte de Madalena Sá Fernandes, essa história profundamente triste, que parece conduzir a um beco sem saída, nos leva à reconstrução luminosa de uma vida que, a despeito do passado doloroso, insiste em celebrar cada fresta de claridade. Porque não se sai ileso depois da leitura de Leme. Publicação da editora Todavia. Você pode comprar o livro aqui.
 
Uma celebração da resistência e da vulnerabilidade humana, onde cada personagem movimenta sua própria carga de vida ― memórias, desejos e perdas ―, enfrentando os desafios impostos pelo tempo, pela sociedade e por suas escolhas.
 
A ternura dos laços humanos e a fragilidade de um poeta que, diante da morte, resolveu escrever. Ao combinar lirismo, crítica social e um olhar pungente sobre as relações humanas, Carga viva conta a história do advogado Carlos Alberto ao descobrir sua condição terminal e embarcar em uma fuga simbólica e literal com seu amante, Félix, para o litoral paulista. Em Ubatuba, a convivência em uma casa de praia entre as montanhas e o mar revela não apenas as tensões da saúde debilitada de Carlos, vítima de uma doença devastadora e ainda envolta em desconhecimento e preconceito, mas também as nuances de uma relação marcada pela fragilidade do pouco tempo de vida e pelo desejo de se viver em plenitude. Quem resgata essa história anos depois é uma pesquisadora acadêmica grávida, com o auxílio de sua irmã mais nova, paradoxalmente presente e distante. Abordando temas universais e profundamente humanos, este romance entrelaça narrativas pessoais com a complexidade do contexto histórico e político dos anos 1980 e o tempo presente. A obra expõe preconceitos, desigualdades e a luta pela manifestação da própria identidade, ao mesmo tempo que examina contrastes culturais e dilemas éticos por meio de sua rica gama de personagens. O ambiente litorâneo serve como arena de conflitos e a beleza da paisagem camufla tensões latentes, refletindo as dinâmicas emocionais e sociais que moldam a vida de todos, ontem e hoje. Com uma linguagem sensível e reflexiva, Ana Rüsche constrói uma narrativa que se alterna entre momentos de leveza e de profundidade visceral. Carga viva é um livro que pulsa com intensidade e oferece ao leitor uma experiência tão vibrante e colorida quanto introspectiva. Publicação da editora Rocco. Você pode comprar o livro aqui.
 
Hugo César entrega uma narrativa afiada, que transita entre a autoficção e o romance de formação, expondo as contradições da juventude, a busca por pertencimento e a eterna sensação de estar interpretando um papel.
 
O que significa ser um impostor? Fingimos para os outros ou para nós mesmos? Em O impostor cotidiano, com humor ácido e uma escrita envolvente, Hugo César captura a inquietação de quem se vê deslocado, seja em um intercâmbio internacional ou dentro da própria rotina. O protagonista, Rhugo, se debate entre a nostalgia e a realidade, tentando encontrar sentido naquilo que já passou. Entre memórias distorcidas e reflexões mordazes, o livro nos leva a questionar nossas próprias versões da história.
Publicado pelo selo Literatura Br, a estreia de Hugo César na ficção tem orelha assinada pelo premiado escritor e pesquisador Jacques Fux e posfácio de Ana Cecília Carvalho, professora aposentada da UFMG e imortal da Academia Mineira de Letras. Você pode comprar o livro aqui.
 
Ngũgĩ wa Thiong'o, o pensador.
 
Nas primeiras páginas deste livro, Ngũgĩ wa Thiong'o esclarece: é o último que pretende escrever em inglês ― língua na qual vinha produzindo até então. É uma decisão política. Se, durante os séculos XVIII e XIX, a Europa roubava da África para abastecer casas e museus, no século XX ela se apropria da sua intelectualidade, pois os autores africanos, mesmo com a independência dos seus países, seguem escrevendo no idioma do colonizador. Descolonizando a mente é, assim, um manifesto de um dos maiores nomes da literatura africana a favor de uma produção acessível a toda a população, não apenas à letrada, e um incentivo para se pensar sobre língua e identidade, apagamentos e estruturas de poder. Tradução de Hilton Lima; publicação da editora Dublinense. Você pode comprar o livro aqui.
 
REEDIÇÕES
 
Escrito em 1907, romance de Jack London que oferece uma visão profética da insurreição da classe operária norte-americana, prevendo conflitos e confrontos que ecoam na história subsequente ganha reedição.
 
O tacão de ferro também é marcadamente inspirado na experiência do autor, e revela fortes traços autobiográficos, como as personagens principais, Ernest e Avis Everhard, que representam, respectivamente, Jack London e sua esposa Charmian. Apresenta, porém, um aspecto da vida de Jack London, talvez menos conhecido do leitor brasileiro: o de militante político. Este é um romance que transcende os gêneros literários tradicionais, justapondo ficção científica, polêmica social e romance. A habilidade estilística de London constrói uma narrativa em tempos múltiplos. O conteúdo do manuscrito é visto pelo editor fictício, que faz suas observações de rodapé apoiado na perspectiva do tempo futuro, como fato histórico. Do ponto de vista da época em que foi publicado, o livro é um exercício de antecipação histórica e um relato profético. Hoje, reconhecemos no livro de Jack London uma profecia que realizou, ao menos em parte, historicamente. A edição relançada pela Boitempo Editorial, conta com tradução de Afonso Teixeira Filho, especialista em literatura inglesa e russa, e com prefácio de Anatole France, publicado originalmente na edição francesa de 1932. Apresenta ainda um posfácio de Leon Trotsky, escrito em 16 de outubro de 1937 e publicado originalmente na revista New International de abril de 1945. Você pode comprar o livro aqui.

Neste trabalho monumental, Raymundo Faoro destrincha o funcionamento da sociedade brasileira durante o Segundo Reinado a partir da obra de Machado de Assis.
 
Quase duas décadas depois da publicação de sua obra-prima, Os donos do poder, Raymundo Faoro aprofunda sua tese sobre o patrimonialismo brasileiro em Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. Este livro combina análise política e crítica literária para oferecer um estudo refinado de nossa sociedade oitocentista a partir dos personagens presentes em romances, crônicas e contos de Machado de Assis. Ao observar como operam as engrenagens sociais brasileiras através deste rico objeto de estudo, Faoro a um só tempo reforça seu papel como um dos mais importantes intérpretes do país e deixa seu legado na história da recepção crítica da obra machadiana. Esta edição inclui posfácio de Sidney Chalhoub. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
 
RAPIDINHAS
 
Uma nova casa editorial para Pepetela. Depois da LeYa, a obra do escritor iniciou uma trajetória de publicação pela Kapulana, editora com um catálogo majoritariamente marcado pela literatura africana. Nesta semana, a Rua do Sabão anunciou que passará a cuidar da obra do autor de Mayombe no Brasil.
 
O novo romance de Micheliny Verunschk. A Companhia das Letras adiantou a divulgação de Depois do trovão, livro que inicia pré-venda em junho. Neste romance, a autora de O som do rugido da onça, que projetou seu nome entre os principais nomes da prosa brasileira contemporânea, regressa ao passado, agora aos séculos XVII e XVIII para revistar o episódio da Guerra dos Bárbaros.
 
Mais de Chrysanthème. O projeto editorial que cuida da Coleção Reserva Literária com publicações de obras raras da literatura brasileira e arrojada edição apresenta Uma paixão. Publicado inicialmente como folhetim no ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo, o livro acompanha uma jovem e o dilema entre o desejo e a moralidade ao se apaixonar pelo cunhado.

DICAS DE LEITURA
 
Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras.
 
1. As perfeições, de Vincenzo Latronico (Trad. Bruna Paroni, Todavia, 112p.) O registro descarnado e bem-humorado que revisita os dilemas de uma geração tragada pela vida esvaziada, repetitiva e sem grandes possibilidades da era virtual. Você pode comprar o livro aqui
 
2. Santo de casa, de Stefano Volp (Record, 192p.) Três irmãos atravessam o velório do patriarca enquanto são reveladas as múltiplas contradições do defunto, o respeitado homem de família e o responsável pelas marcas de violência e opressão familiar. Você pode comprar o livro aqui
 
3. Liturgia do ocaso, de Francisco J. C. Dantas (Sator, 220p.) Um jornalista aguarda, na sala de espera do reitor Severiano Colaço, a oportunidade de entrevistá-lo enquanto passa em revista a partir dos retalhos de conversa entreouvida o passado em que se embatem o novo e o velho, os desmandos atuais e ética perdida. Você pode comprar o livro aqui
 
BAÚ DE LETRAS
 
Em 2023 traduzimos este texto como um perfil de Halldór Laxaness. A recente publicação destacada neste boletim é ensaia uma reintrodução da sua obra entre os leitores brasileiros.

E por falar em resgates, voltemos ao bravo trabalho da Ars et Vita de traduzir direto do original a obra de Andrei Platônov — projeto que começou pelo livro Tchevengur, resenhado para o Letras por Marcelo Jungle. Leia aqui.

 
DUAS PALAVRINHAS
 
Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente.
 
— De Tutameia, João Guimarães Rosa.


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* Todas as informações sobre lançamentos de livros aqui divulgadas são as oferecidas pelas editoras na abertura das pré-vendas e o conteúdo, portanto, de responsabilidade das referidas casas.
 
 

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