A cidade das mulheres, de Christine de Pizan

Por Eduardo Galeno
 
 
Esses testaram o Horizonte —
E desapareceram
Pássaros antes de cumprir
A Latitude.
 
Nossa Retrospectiva Deles
Prazer pousado,
Nossa Antecipação
— Dúvida — Dado —
 
(Emily Dickinson)



Christine de Pizan recebe a dama da Justiça. Iluminura do manuscrito A cidade das mulheres, de Genebra.
 
Frequentemente, as histórias sobre as mulheres são submetidas à intenção de corroborar genealogias do pensamento feminino. A cidade das mulheres (La cité des dames) confirma a tese. Desde o século XV, o livro vem sendo um marco para se notar a contribuição fora do cânone, ou seja, um plano que trace o pioneirismo de figuras não tão reconhecidas pela historiografia das letras. Christine de Pizan, assim como eu faço a partir do texto — tecendo sobre ela —, é uma historiadora da mulher. Bem, mas como? A partir do princípio de arqueologia de seus feitos, sejam fictícios ou reais. Aliás, sejamos claros: a maior característica da produção da veneziana assenta na exploração da ficção. Logo, ela tem um mundo repleto de ligações fronteiriças, avaliando, medindo, determinando pontos que poucas vezes vimos estar em movimento. A primeira impressão que passou foi a de ser tremendamente resiliente nos termos, nos nomes e nas expressões. Christine é aguda: ela trata dos assuntos sem obscuridade, mas com uma força de estilo exemplar. A palavra é moldada na pena. Enquanto necessariamente constituída no bolsão teológico cristão, ela plana, como nuvem, na entrada das grandes imaginações da época. Christine parece mesmo carregar dois ícones consigo, embora não tenha lido um: o Boccaccio do De mulieribus claris e More de Utopia. No inglês, a construção de um local “relativizável”; no mestre dos contos, a intuição do gênero literário (“ilustrismo”, aka biografia de ilustres). Então fica fácil para nós, leitores, ter diante do texto um certo “anti-escolaticismo” (a presença da aura patrística preterida à de Aquino), cuja função, no entanto, não entra como outra senão na de levar a mulher ao centro da discussão sobre o divino e os órgãos públicos da sociedade de corte.
 
Ela, a mulher, foi formada à imagem de Deus. Christine insere a discussão e chama a responsabilidade da própria hermenêutica bíblica, além de inteirar os argumentos com a chamada “herança pagã” (gregos e romanos), quer enfatizando, quer indagando. Deve se ter em vista que a elucidação, o estudo e a potência de Pizan vêm da florescência intelectual do círculo italiano que fez Dante, por exemplo, e que seria ensaio do que viria a ser o Renascimento. No melhor dos mundos, a sua “revolta” é retida no ambulatório específico do ‘deslocamento do traumatismo’. Não se trata, pois, de uma transgressão, quer dizer, Christine de Pizan não é uma mocinha com raiva, e sim figura elaborativa (e aqui entra seu pacto com a arte). Por esse motivo e razão que ela trabalha tanto com a memória: a memória consegue colaborar novamente com o já dito e, além do mais, planeja a repetição como consequência do negativo. Somente nesse sentido podemos suportar e considerar o seu ataque ao ódio masculino. A dialética fica sendo a arma que tem, isto é, é pelas proposições dos diálogos que ela se sujeita ao dispositivo de scriptor(a), fomentada pelos tropos retóricos e a eloquência tão comum àquelas escolas. Qualquer juízo de valor que fuja disso comete um desvio gritante, desrespeitando o que realmente a escritora foi.
 
O conhecimento que moldou a autora está relacionado com a paixão do intelecto, promovido institucionalmente pela língua vernácula francesa, em que se pese ainda a influência do latim. O motor planejava a forma civil, da res publica compartilhada. Isso que vai ressoar no âmbito pedagógico: o comum é buscado através dos conselhos educativos para e com as partes femininas. Falando tecnicamente, há insistentes conduções no discurso pizaniano dada a frutífera estratégia que obsidia a estrutura alegórica do livro. A razão pode ser encontrada na Retórica aristotélica, no capítulo V, onde se tem a atitude ética do bem supremo, da virtude, protagonistas de elos moralizantes. A harmonia, cara ao imaginário ático, reflete a ponta verboideológica do condicionamento do Estado (aí entendido como entremeio do rei e do papa). Nesse momento, a porta da descrição se abre e ela retém os aspectos, os modos e as nuances que são necessárias à construção da cidade. Cidade, diz Brunetto comentando Cícero, “é uma reunião de pessoas agrupadas para viver de modo racional”. O que está em jogo aqui? Logicamente, o espaço a ser habitado precisava mais de um fim do que de muros. O essencial é que as pessoas que ocupem a bolha tenham o mesmo destino em pensamento e as mesmas práticas em corpo.
 
Gosto de pensar um dinamismo ali, mesmo eu achando que a narrativa é fechada. Primeiro pelo simples fato de ser uma alegoria, não enigma, o feitio das três mulheres apresentadas à Christine: a Razão, a Retidão e a Justiça. Três metáforas que produzem completamente a hierarquia de sentido. Para defender a esfera dos ataques da misoginia, as três ajudam na proteção. Indo do íntimo ao extenso, o livro percorre, de cada vez, um laudo, um sintoma. Naturalmente, ela se vê nos ícones que as damas vão citando ao longo do tecido dialógico: o centro está em toda parte. Por conseguinte, a mnemosis requer, nas vias desse empreendimento, a autoestima da personagem, de modo que os recursos montados sejam anafóricos por substituição (basicamente, todos os nomes próprios elencados estão no pronome “ela”). Talvez possamos tirar daí um forte indício de invenção de comunidade. A morfologia, se vista no literal, preconiza o micro e o macrocosmo. Por essa razão, há uma intensificação do particular no social. Tentativa, como está dando a entender, de resgatar a unidade do gênero feminino, dando, claro, células de imunidade no recipiente da escrita. Em outros termos, A cidade das mulheres foi feita para servir tanto de armadura quanto de lança. Diante da dor de ser tratada como o segundo sexo, a mulher, se não igual em direitos (sequer existiam naqueles tempos), era ontologicamente o espelho do homem (se me é permitido fazer analogia, no Banquete, de Platão, Aristofánes diz que existia um terceiro sexo disposto numa unificação andrógina; é essa a imagem, penso eu, procurada por Christine). A diferença dos sexos pôde ampliar o seu horizonte de investigação, mesmo que nunca, politicamente, tenha sido discutida na hora do dia. Empreitada gigantesca.



Continuando: as três virtudes emendam uma na outra um trabalho de restauração da mulher. Igual quando esculpimos, a barreira fica se deixamos ou não passar a imitação total do objeto. Quero problematizar o quão efetivo poderá ser a diretriz das alegorias e, consequentemente, as correspondências que elas engendraram ao escopo imanente que a oratória exigia. Elas, pelo menos no início da discussão, apercebem ignorância da parte interlocutora, de jeito que fossem, de verdade, apresentadoras do destino maior, que foi a construção da cidade, na dianteira de uma alma. Sem pretender trazer um exemplo distante, mas o diálogo desenvolvido se assemelha violentamente ao romance de educação. A linha histórica entre os dois, diria, soa no elemento de fabricação da consciência da personagem, que, lida a circunstância do contexto (cultura cristã), efetua, à iluminação de santo Agostinho, a ascensão de seus antigos desacertos e tolices à plenitude do ser. Essa adesão discursiva preserva a composição legal, ou seja, tenciona a poética ao nível da disponibilidade do presente pelos costumes e hábitos, tendo a outra mão no compósito judiciário (o artifício do passado, cuja empresa recai nas observações que possui diante das marcas deixadas pelo heroísmo das grandes e suas respectivas importâncias). O cuidado que Christine tem para não ir longe demais aciona aquilo que era postulado na prudentia, tarefa na qual fazia a separação do joio do trigo, do bom do mau.
 
A dama Razão dá as bases e o alicerce das importâncias, das causas e das justificações por que Christine deve construir a cidade. Entre as três, ela retém a fonte da sabedoria, compreendendo a verdade das coisas tal como é, enervando a sapiência e exaurindo a discursividade sem logos dos homens que escreveram sobre o sexo feminino, guiando e produzindo uma diretriz. A segunda dama, a Retidão, exalta a bondade acima da perversidade, demonstra a benfeitoria divina e persegue a proteção dos pobres e inocentes, convocando, assim, a régua para delimitar exatamente os espaços citadinos, a integridade das suas habitações e habitantes. Por último, teremos, com o sinal do lírio de Trindade na sua mão direita, a dama da justiça. A Justiça não tem senão o papel de fazer funcionar a lei, dando acabamento ao teto das casas e prédios, em consonância com a invulnerabilidade da fachada da cidade. Ela, certeza, adapta o que a Razão e a Retidão escolheram. A grosso modo, os atos das três ficam orgânicos. Conforme a função do literato na promotoria da família real francesa, é para ser olhado, também, que para as letras eram permitidas senão a gerência da lógica medieval. Nossa autora foi, inclusive, criadora de escritos sobre a guerra (outra interessante coincidência foi ter sido contemporânea de Joana d’Arc) e, sem vergonha alguma, canta loas à expansão imperial da rainha Semíramis.
 
Ela se comportava facciosa. Ovídio, em A arte de amar, insinua a paixão ardente e a loucura na mulher. No começo do tratado, há a resposta das damas através da inferência do sensualismo pagão do poeta latino, aquele que teve num dos círculos do inferno de Dante. A “ruptura” se deu propriamente nos costumes, na visão católica de como se portar e se regrar na vida pública/ privada. Mais: Christine joga com a significância moral: na totalidade, o livro é objeto destinado a desviar o imoralismo colado no caráter feminino. Não existe qualquer resquício de liberdade, autonomia do eu, imagens encobertas de safismo. Muito pelo contrário. O escopo, se podemos resumir, está em justamente separar a fileira da falsidade do que é autêntico, em subsumir a mulher no homem (e vice-versa). Em muitas passagens, isso é óbvio. Quando — citado n’A cidade das mulheres —, naquele conto do Decameron, Filomena fala sobre a necrofilia de Elisabete, ele acaba por provar a fidelidade mnemônica no amor da mulher, que, para muitos autores, era tido inexistente. Elisabete morre de amor, morre de tristeza por um amor impossível. Há recurso ético mais satisfatório? Na barra da transferência, o cristianismo envolveu, por muito tempo, o sacrifício, o pacto de sangue. Não podemos, jamais, ver e entender certas conjecturas com nossos preconceitos modernos e liberais.
 
Sabemos que restaurar um furto, inserir diante de si uma revisão, reconectar conceitos, enfim, modelar um projeto de inclusão, tudo isso não é nada simples. Agora me vem à cabeça um ensaio de Montaigne, datado do século XVI, onde escreve sobre três boas mulheres (livro 2, capítulo XXXV): em forma, a caracterização de Pizan reside ligeiramente igual à que ele introduz. No entanto, a qualidade — simbolicamente falando —, après le déluge, é um tanto diferente. É essa pequena distinção, trazida no bojo tratadístico, que coloca os autores em lugares afastados um do outro. Enquanto em um o tema é puxado como qualquer coisa, naquela a centralidade é nítida.
 
Abreviação e suposição: a sua capacidade heurística está em gerar cômodos suasórios. Ressalto que as novidades possíveis só possuem valor de verdade se revelado o relacionamento entre inventio e dispositio. Ela busca os argumentos num topos: informa na redundância. Certo que não há psicologia nem antropologia, restou o efeito de discutir por dentro. O peso léxico renova e excede os vínculos. A substância do signo sobrevive pelo revés tanto dos estímulos pré-significantes quanto da ideologia. Por conta das motivações existentes nesse ínterim, a tese da leitura firma a quebra de expectativa e redimensiona o lugar antes impregnado de outros fitos. O resultado é surgir, na assunção dos polos diacrônico e sincrônico, determinada vazão. Partindo de outros princípios, mas respeitando a divisão poético-retórica do Quatrocentos, diríamos que todas as mulheres representadas pelos autores “espiam”. No ensaio de Anne Carson, nomeado “Candura”, ela dita o ritmo de preenchimento que os olhos femininos, frente a cepa sexista, acabam por aparar. O olho feminino é polissemiótico: há uma dúzia de canais que espreitam a coisa. O kantismo, com o eu numênico, ou o Absoluto hegeliano, na hora que a consciência percebe a si mesma, partilha esse evento crucial: Safo, Medeia, Paulina, Ester e as outras referenciadas por Christine ao longo da narrativa nos olham, seja lá como (o importante é aqui: não aprendemos o motivo), num gesto particular e preciso, observando o lado de fora. Oportunidade de dizer: revelam suficientemente suas grandezas. E aí Pizan também entra na roda. A escritora segue o esquema de injetar em cima da clausura, de se desenredar dali, de mostrar que é capaz. Belo e complexo cargo, o mais prazeroso é pensar que sua fuga não foi experimentada pessoalmente (ela própria, é provável, nem tenha querido). Se não posso dar por convencida a instância que sugere a convergência entre autoria e artifício, posso regular, ao menos, a cooperação entre os dois. É notável perceber a constatação linguística que o livro tem em relação a não só o que passou, mas ao que pôde vir. Afinal, fazer ficção é mentir (deslocar temporalmente).
 
Penso no quanto, sob o universo medieval, as minúcias religiosas imbricavam nas semiológicas (culturais, poéticas, psicanalíticas). O ideal de mulher é a figuração, assim sendo, de Juno: maternal, protetora, aquém da indivisibilidade sexual. Há uma referência a ela lá. Lá, a sua façanha é sentida e respeitada. Femininamente fissura, a literatura segue sendo um juggernaut. Intransponível.


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A cidade das mulheres
Christine de Pizan
Jorge Henrique Bastos (Trad.)
Editora 34, 2024
304 p.

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