A obra literária de Simone de Beauvoir
Por Ana María Moix
Simone de Beauvoir, 1957. Foto: Jack Nisberg / Roger-Viollet. |
Deixando de
lado os livros dedicados ao ensaio político, ao ensaio feminista e os volumes
que recolhem sua peculiar experiência como viajante atenta e incansável, a obra
literária de Simone de Beauvoir (1908-1986) se inscreve em dois gêneros – as memórias
e o romance – que na nossa opinião são inseparáveis uma vez que são obras que
se completam e mesmo constituem um só universo se não linguístico, ideológico,
anedótico e humano.
“Escrever
sempre foi a grande preocupação de minha vida”, repetiu Simone de Beauvoir em várias
ocasiões. Ao concluir seus estudos, enquanto preparava notas e dizia começar a
escrever, anotou em seu diário: “Minha vida seria uma bela história que se
tornaria verdadeira à proporção que a contasse a mim mesma.” E, de fato, não
fez outra coisa mais que narrar a si própria e narrar sua vida e seu
pensamento: de um modo objetivo, dirigindo-se ao leitor aberta e sinceramente,
em suas memórias, e manipulando-as com os recursos próprios da ficção em seus
romances. Mas, apesar dessa tentativa de disfarçar a realidade vivida e as
personagens que passaram por ela, não existe em quase toda obra narrativa de
Simone de Beauvoir um tema, uma situação, uma preocupação, uma ideia, uma
personagem importante etc. e os quais não encontramos uma cópia exata em suas
memórias.
Daí que, ao falar da obra literária de Simone de Beauvoir, é
inevitável falar sobre sua vida. Na verdade, sua literatura e sua vida são inseparáveis.
Por isso, não consideramos oportuno recusar-se a essa relação, como fizeram alguns críticos em
seu tempo, argumentando que tal fusão se devia à falta de imaginação criativa, mas
nos inclinamos a considerar que o paralelismo entre vida e obra é produto
lógico da concepção de literatura adotada por Simone de Beauvoir: “É preciso
falar sobre o fracasso, o escândalo, a morte, não para despertar os leitores
mas, ao contrário, para tentar salvá-los do desilusão [...] Uma desgraça que
encontra as palavras para ser dita já não é uma exclusão radical. A linguagem
nos reintegra à comunidade humana.” Essa função da linguagem – e portanto da
palavra – implica uma concepção de literatura muito determinada e discutida,
que os teóricos dos últimos vinte anos deixaram por terra, mas que foi
essencial nas literaturas europeias durante os anos que se seguiram à segunda
guerra mundial. Uma concepção de literatura como meio de reintegrar-se à comunidade
humana comportava uma valorização das ações humanas e da realidade às quais o
pensamento e a palavra do escritor não podiam, em absoluto, resultar alheios e
que conduzia, diretamente, à militância da realidade, ao compromisso ético,
moral e intelectual.
Em seu
histórico livro O segundo sexo,
Simone de Beauvoir escreveu: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” – a frase se converteu em síntese de toda a literatura feminista posterior. Do mesmo
modo, e parafraseando nossa autora, “não se nasce escritor, torna-se escritor”.
E, em seus livros de memórias, a escritora se explica como vai se tornando
escritora e como vai gestando os livros que escreve. Além dessa questão
essencial, suas memórias constituem um documento excepcional sobre uma época,
sobre algumas pessoas, sobre uma geração lendária e sobre as relações que estas
pessoas, sobretudo as da autora, estabeleciam com o mundo. Trata-se de um documento
extraordinário destinado, acreditamos, a ser lido, durante muito mais tempo do que
suspeitamos, pelos praticantes da sociologia e da literatura e, por sua vez, é
uma obra literária de grande magnitude verbal com uma dinâmica essencialmente narrativa
que admite uma leitura romanesca. Ou talvez fosse mais exato dizer que a exige
pelo fato de narrar histórias, situações e anedotas a partir de ideias, e por
conseguir outorgar às personagens reais, que atravessam o relato, a força
própria que caracteriza as personagens das grandes obras de ficção. O talento
narrativo de Simone de Beauvoir consegue, em suas memórias, literaturizar a realidade por meio da
linguagem. Por sua vez, os romances realizam uma operação contrária, e talvez seja
esta a causa pela qual elementos argumentativos, personagens e ideias não
consigam desligar-se por completo da realidade ficcional da qual a linguagem toma
emprestada. Daí, nossa preferência por sua obra memorialística.
O ciclo de
memórias de Simone de Beauvoir compreende Memórias
de uma moça bem-comportada (1958), A
força da idade (1960), A força das
coisas (1963) e Tudo dito e feito
(1972); caberia aqui acrescentar A cerimônia
do adeus, livro publicado depois da morte de Jean-Paul Sartre, em 1981.
O primeiro
título compreende do nascimento da autora em Paris no ano de 1908 até 1929,
data quando concluiu seus estudos em Filosofia, conheceu Sartre e se dispõe a
ir para o interior para ser professora. Nesse primeiro momento de suas memórias,
Simone de Beauvoir retrata de maneira esplêndida sua infância e adolescência,
analisa como profundidade quase fria o mundo familiar, burguês e as experiências
afetivas e intelectuais vividas até aos vinte anos. Os pais, Georges e Françoise
de Beauvoir, de cômoda situação financeira – que será perdida – pertenciam a
famílias de formação e vocação burguesa tradicional, e, por conseguinte, suas
duas filhas estavam destinadas à mesma condição. Até aos dez ou doze anos,
Simone estava mais ou menos ligada a esse destino e gozava de uma infância
inteiramente feliz. A mãe, católica fervorosa, educou a filha para a religião, enquanto
o pai, apaixonado pela literatura e pelo teatro, incentivava-lhe à formação intelectual.
Isso dentro uma ordem. Isto é, estimulava-a seu interesse pelos livros e pelo teatro,
mas só permitia que ela lesse os títulos que considerava adequados à sua idade,
situação que enfurecia a adolescente Simone.
Primeira da
turma, no colégio Désir, era admirada de todos e da família. Ela sentia-se,
assim, satisfeita com a imagem que os adultos tinham dela e da imagem que ela
tinha de seus mais velhos, apesar da insatisfação que lhe rondava desde seus
primeiros anos: negava-se ser tratada como uma menina e considerava que esse
tratamento limitava sua liberdade. E, talvez para demonstrar que era uma pessoa
adulta, talvez devido à curiosidade natural das crianças de seu entorno, começa
a observar e a estudar o mundo que lhe cerca. Escreve: “Só me davam livros
infantis escolhidos com circunspeção; admitiam as mesmas verdades e os mesmos
valores propostos por meus pais e minhas professoras. Os bons eram
recompensados, punidos os maus. Somente a pessoas ridículas e estúpidas
aconteciam desventuras.”
A observação
dos adultos a induz pensar que nem o mundo nem o ser humano são tão perfeitos e
maravilhosos como lhe induzem a acreditar e por isso sente-se cansada de tudo. São
os anos da primeira guerra europeia e os posteriores ao conflito. O fanatismo
dos franceses e o nacionalismo furibundo de seu pai a aterram. A falta de
liberdade imposta pela mãe, controlando o quanto lê e o que pensa, cria-lhe um
sentimento de rebeldia que jamais abandonará. As injustiças que observa ao
seu redor (pobreza, miséria, guerra, mentira, submissão das pessoas aos
autoritarismos e absurdos impostos pela sociedade etc.) levam-na a deixar de
acreditar em Deus, situação que oculta da mãe criando um sentimento de culpa
que contorna as relações familiares e arrastará por anos. Começa a se revoltar
contra os costumes e os valores burgueses que predominam seu entorno e, no
final de uma adolescência tumultuada e torturante, acaba saindo pelas noites às
escondidas dos pais para beber e se embriagar pelos bares de Montparnasse num
comportamento de típica adolescente interessada em conhecer o mundo que lhe
escondem.
Este sentimento de recusa pelo universo regulamentado por normas estabelecidas
se acentuou bastante com a história de Zaza, uma colega do colégio Désir, pela
qual Simone de Beauvoir sente uma adoração que perdurará ao longo de sua vida.
A família de Zaza, ainda mais aburguesada, rica, religiosa que a sua, é a fonte
da rebeldia adolescente e juvenil de Simone. Juntas, Zaza e ela, planejam um
futuro de estudos, viagens, amigos em comum, leituras... A mãe de Zaza, que
conhece o ateísmo de Simone e seu pai, faz o que pode para impedir a amizade
das duas, para tentar com que a filha deixe de estudar e, sobretudo, para
convencê-la de que o que ela deve fazer na vida é conseguir um bom marido.
Mais tarde, quando Simone de Beauvoir já tiver terminado a faculdade e conhecido
Sartre, Herbau e outros amigos da Sorbonne, Zaza se apaixona por um deles,
Pradelle. A mãe dela impede as relações por considerar que o amigo de Sartre não
é um bom partido para sua filha e Zaza morre de uma febre inexplicável pelos
médicos. Simone de Beauvoir vive a tragédia como um crime cometido pela hipocrisia
e fanatismo da burguesia.
Simone de Beauvoir
tentou escrever a história de Zaza em várias ocasiões, mas, segundo suas
próprias palavras, nunca conseguiu se sair bem nas tentativas. Em A
força da idade, o segundo volume de suas memórias, conta que já morando em
Rouen, onde ministra aulas, escreve um primeiro romance que conta a história da
amiga. Depois disso escreve as novelas de Quando
o espiritual domina, que ela e Sartre dão por publicáveis, mas são recusadas por
Gallimard, seu editor. Este livro não apareceu até 1979 e é formado por cinco
textos que, lidos depois das memórias, encontraremos as experiências mais definitivas
vividas até então aos vinte anos, pela autora. Na primeira novela descreve como
uma amiga sua se reduziu sob o peso do misticismo e das intrigas do Instituto Saint-Marie
enquanto uma sensualidade reprimida a atormentava sordidamente. A segunda versa
sobre a personalidade de uma moça que conheceu em Marselha: Renée encarna a
relação que, nos jogos infantis da própria autora, existia entre o masoquismo e
a piedade. E a este tema acrescenta a história de uma tia sua, muito religiosa,
que à noite se deixava ser açoitada pelo marido. Ainda nesta novela satiriza os
grupos sociais aos quais pertenceu em seus tempos de estudante utilizando um
tom irônico, falsamente objetivo, com o qual imitava a John Dos Passos. A figura
feminina da terceira novela é uma professora do colégio onde Simone exercia a docência,
que falsifica sua personalidade para melhor sua imagem ante duas alunas que
a admiram e que a conduzem ao desastre. A quarta é a inevitável história de Zaza –
que quase quarenta anos mais tarde ainda ressuscitará em As belas imagens, que será seu último romance. E a quinta novela é
uma sátira de sua própria juventude, da infância em Désir e das vivências
experimentadas na base de sua crise religiosa.
A força da idade está dividia em duas
partes. A primeira abarca de 1929 a 1939, década durante a qual a escritora ministra
aulas de Filosofia em colégios de Tours, Marselha e Rouen, enquanto Sartre cumpre
a mesma profissão em Le Havre. São os primeiros tempos de uma relação que durará
mais de cinquenta anos. Apesar de se dedicar ao magistério em diferentes cidades,
os dois se encontram toda semana. Viajam continuamente de Tours a Le Havre, ou
de Le Havre a Marselha, e passam os dias livres em Paris, onde se encontram com
o grupo de amigos de Sartre, o grupo ao qual Simone de Beauvoir logo se integra
e do qual formam parte, entre outros, Raymond Aron, então socialista, Nizan, já
militante do Partido Comunista francês, Colette Audry, trotskista, Pierre Paignez,
Bost, Camille, ex-amante de Sartre, atriz, pintora e dramaturga, Charles
Dullin, o famoso diretor de teatro. Também é esta um época de leituras apaixonantes que
marcam, de um modo ou de outro, a narrativa de Simone de Beauvoir. Além das
leituras filosóficas que levam Sartre à fenomenologia, leem autores ingleses e
estadunidenses como John Dos Passos, Faulkner, Hemingway, Whitman, Blake,
Yeats, Sean O’Casey, Virginia Woolf, Henry James, Dreiser, Sherwood Anderson,
Sinclair Lewis, Dashiel Hammet... Tanto Simone como Sartre encontram na grande
corrente do romance realista estadunidense uma nova maneira de narrar mediante
o uso do diálogo e a vontade, por parte do autor, de saber menos coisas e
pensar menos que as personagens a partir do ponto de vista das quais se conta a
história. Tudo quanto chega dos Estados Unidos (obras dos autores citados,
cinema, jazz, romance policial, música...) deslumbra a escritora ainda que não
deixem de existir suas suspeitas de que os Estados Unidos não é o paraíso que a
Europa acreditar ser.
É preciso
levar em consideração também que, durante esses anos, Simone de Beauvoir e
Sartre vivem ainda de costas para a política. conscientes de suas origens burguesas,
consideram-se intelectuais que afrontam sua própria classe, espécie de intelectuais
rebeldes, anárquicos, que buscam o absoluto do Belo, da Arte e da Vida, assim
mesmo, com maiúsculas. Colocam a literatura e a filosofia no alto do pedestal,
como um meio de conseguir criar um homem novo, mas completamente à margem dos
assuntos políticos. É preciso assinalar, para se ter uma ideia de como pensavam
então, que no ano de 1936, quando a Frente Popular ganhou as eleições, celebraram
sinceramente, mas nenhum dos dois havia ido às seções eleitorais para votar. Na
verdade, só começaram a se interessar pela política no estopim da Guerra Civil
Espanhola. Haviam viajado pela Espanha, ficado maravilhados com o país, e se
indignaram porque o governo francês, socialista, não enviava armamento aos
republicanos espanhóis enquanto Alemanha e Itália mandavam abundantes reforços em
ajuda aos exércitos franquistas. Corre o ano de 1936 e a ameaça da expansão do
nazismo atemoriza grande parte dos amigos de Simone de Beauvoir e a esquerda
francesa. Mas, a escritora não acredita que a guerra seja possível tampouco que
o nazismo seja um perigo real. É Sartre quem se alarma e começa a pensar que
tem vivido de costas para a realidade e que é absolutamente necessário adotar
alguma posição pragmática. Mas já é tarde. Virá a guerra (que Sartre passa no
front e num campo de concentração e Simone de Beauvoir em Paris, como explica a
segunda parte de A força da idade),
que obrigará os dois a mudarem, radicalmente, o conceito que tinham da
literatura, da arte e do papel do intelectual.
Mas, antes
de adentrarmos nessa questão, voltemos à primeira parte de A força da idade. Vivendo em Rouen, Simone de Beauvoir conhece uma
mulher que se tornará uma das protagonistas de seu primeiro romance publicado, A convidada. Ao iniciar sua relação com
Sartre, os dois, ele e Simone, estabelecem o que chamam “contrato” e se propõe a cumpri-lo durante dois anos e,
transcorridos esse período, renovam visando sempre o mesmo tempo. Não se casarão,
nem terão filhos, já que nenhum dos dois necessita completar-se com a imagem
de uma reencarnação que os represente na terra. Viverão separados, com intenção
de não malograr sua relação submetendo-a à mediocridade que caracteriza a união
dos casamentos burgueses; cada qual será livre para manter relações com outras
pessoas mas de maneira que essas relações não destruam, em nenhum sentido, seu
contrato de união. Terceiras, e mesmo quartas pessoas, existiram ao longo da
vida do casal e estas aceitavam o pacto durante um tempo mais ou menos longo: nestas últimas, as
que tardavam em comprovar que o contrato entre Simone e Sartre era, na verdade,
indestrutível.
A primeira
terceira pessoa da história foi Olga, a mulher que Simone conheceu em Rouen. Depois
dela, veio Lise, de características muito similares como a situação que haviam
criado: mulher jovem, incompreendida pela família, inteligente, sem saber o que
fazer na vida mas dotada de uma grande sensibilidade e com acentuado interesse pelo
conhecimento e possuidora de uma clara vocação rebelde contra os valores
burgueses. Íntima de Simone, que a protege, leva-a para Paris; a relação entre
as duas finda por se estender a Sartre. O “pacto” de liberdades mantém-se, mas
a situação se torna cada vez mais neurótica. A trama de A convidada, em que Simone de Beauvoir exagera, dentro do mundo e das
regras da ficção, os sentimentos e controvérsias deste primeiro triângulo
sentimental narrado em suas memórias. Nem Olga era, na realidade (pelo menos na
realidade de A força da idade), tão
complexa, nem mal-intencionada como a Xavière de A convidada, nem Simone de Beauvoir, Françoise no romance, levou
seus zelos até o extremo de trair Xavière e, finalmente, matá-la.
Aparece
neste romance um tema muito recorrente na obra de Simone de Beauvoir e do existencialismo:
trata-se da problemática gerada pelo Outro como possuidor da imagem de si mesmo
e, portanto, como testemunho eterno das ações que cometemos e da interpretação
deste Outro como o capaz de alterar, com seu olhar, nossa consciência e nossa
identidade. Para destruir esta imagem, criada na consciência do Outro, só há uma
solução: a morte do Outro. No romance, Pierre, o protagonista masculino, quem a
escritora converte em diretor de teatro, é uma mistura evidente de Sartre (a
escritora põe na boca de Pierre frases de Sartre que se tornaram famosas) e de
Dullin, o diretor de teatro amigo dos dois. Pelo que a técnica narrativa demonstra,
Simone de Beauvoir coloca em prática os recursos antes citados ao falar dos
autores estadunidenses: o escritor não sabe o que se passa no romance, mas o protagonista
a partir de um ponto de vista desenvolve a narração e o diálogo tem uma
importância essencial.
A força das coisas, o terceiro volume
das memórias de Simone de Beauvoir, começa com o fim da Segunda Guerra Mundial
e finda com o desenlace da questão
argelina enfrentada pela esquerda francesa com o governo. Antes de terminar a
guerra, Sartre luta na resistência como membro do grupo Socialismo e Liberdade.
Depois do conflito, apesar do desprezo que o Partido Comunista Francês manifestava
contra os intelectuais de origem burguesa, Sartre decide que, a fim de seguir
uma linha de ação política contrária ao poder dominante, não existe outra saída
que a de apoiar as propostas comunistas. Dentro desta linha de ação política e
intelectual que tanto Sartre como Simone de Beauvoir não mais abandonarão ao
longo de toda sua vida entra a criação de uma revista que teve uma importância
capital para os intelectuais de esquerda de toda Europa durante mais de vinte
anos: Temps moderns. O primeiro conselho
editorial esteve formado por Raymond Aron, Leiris, Merleau-Ponty, Albert
Olliviers, Paulhan, Sartre e Simone de Beauvoir. Camus, que frequentava o grupo
e que colaborou com a revista, não fez parte do conselho editorial porque suas
funções como diretor do diário Combat
o impediram.
Depois da
guerra, Simone de Beauvoir publicou O
sangue dos outros, romance sobre a resistência que a crítica tachou de
excessivamente moralista. Depois seguiu-se Todos
os homens são mortais, a história de Fosca, um homem imortal que nasce no
século XIII, vive diversas etapas da história, conhece o esplendor e as
intrigas das cortes italianas do Renascimento, as lutas religiosas que sacodem
a Europa, é conselheiro de Carlos I, explora a costa do novo continente, reaparece
sob a figura de um nobre francês, é conspirador republicano e, quando a autora
o apresenta ao leitor, é um cidadão comum do século XX. Fosca, no século XIII,
escolhe a imortalidade para conseguir a glória do reino de Carmona. Mas, esse
privilégio da imortalidade só o leva à terrível capacidade de ver a destruição
de seu país e o fracasso de todos os esforços que vê aparecer sobre a terra
com a intenção de salvar e melhorar a humanidade, desde quando nasce até o
século XX; tudo sempre termina em guerras, violência e crueldade. A tese
defendida nesse romance se resume na seguinte reflexão: “Os comunistas, depois
de Hegel, falam da Humanidade e do futuro desta como de uma individualidade
monolítica: investi contra essa ilusão encarnando em Fosca o mito da unidade”.
Em 1954,
Simone de Beauvoir obteve o prestigiado Prêmio Goncourt com um de seus romances
mais conhecidos: Os mandarins. Trata-se
de uma narrativa em clave que gira em torno da ideologia e dos problemas políticos
da intelectualidade francesa do pós-guerra. Questões que ocupam boa parte de A força das coisas e que, nesta obra de
ficção, estão representadas e encarnadas pelas figuras dos protagonistas masculinos
Henry Perron e Dubreuil que não deixam de ser Camus e Sartre e a história
alterada de sua amizade desfeita. Perron / Camus é um escritor que dirige um
jornal (Combat na vida real, L’Espoir no romance), lutou na
resistência contra o poder estabelecido a partir de seu diário independente das
esquerdas e, já cansado e sem vocação para a política ativa, recusa qualquer
aliança com o Partido Comunista a fim de conseguir salvar a situação econômica do
seu periódico e também colaborar numa linha de ação mais efetiva. Vive continuamente
tentado a voltar ao exercício da literatura, atividade que considera muito
superior à política. Debreuil / Sartre mantém uma postura contrária: a luta
política não pode ser uma atividade alheia à literatura e, dada a situação, é
preciso colaborar com o Partido Comunista como força mais representativa e
ativa da oposição ao mundo capitalista e burguês.
Apesar de
não estar de acordo com os acontecimentos que estão sucedendo na União
Soviética não deixa de fazer referência à existência dos campos de trabalhos forçados para reformar o pensamento dissidente – uma situação que Sartre e seus
companheiros de Temps modernes tiveram
conhecimento durante os anos 1950 e titubearam entre o fazer político e o
silenciamento. Esta polêmica (que foi dura e longa) é transposta por Simone de
Beauvoir para Os mandarins. Naturalmente,
Henry Perron é partidário de publicar os informes que denunciam a existência de
campos de concentração na URSS, enquanto Dubreuil, que condena esta realidade, não
aceita, a princípio, a exposição para não favorecer ao ataque à União Soviética
e ao Partido Comunista pelas forças da direita e aos interesses ideológicos dos
Estados Unidos.
Em Os mandarins, que se converteu logo em
Best-Seller, aparecem outras situações que escandalizaram a crítica: as personagens
– escritores, pintores, intelectuais, pessoas ligadas ao teatro etc. – movem-se
pelos ambientes noturnos comuns à vida cotidiana de Sartre, Simone e seus
amigos, bebem, embriagam-se, têm amantes que não ocultam de seus
relacionamentos fixos, representam uma nova moralidade que nunca, antes, havia
feito presença nas páginas do romance francês. A própria Simone de Beauvoir
(Anne, no romance, casada com Dubreuil) narra sua relação amorosa com o
escritor estadunidense Nelson Algren (Lewis na ficção).
A obra
literária de Simone de Beauvoir se completa com Uma morte muito suave (1962), esmagadora narrativa da agonia e
morte de sua mãe, As belas imagens
(1966), uma nova investida contra os costumes burgueses, e A mulher desiludida (1967). Ficam à parte os livros de viagens
(sobretudo os dedicados aos Estados Unidos, Rússia e China) e os de ensaio
filosófico e político, como O pensamento
de direita hoje, feminista, como o magistral O segundo sexo, e o esplêndido estudo dedicado à terceira idade, A velhice, dos quais citamos apenas os
títulos por considerá-los objetos de análise para outra ocasião. O tempo nos
aproximará da obra integral desta autora para quem as vozes críticas das
últimas décadas nem sempre foram de um todo justas.
* Este texto é uma tradução de "La obra literaria de Simone de Beauvoir", publicado aqui na revista Turia, n.11.
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