Ossos de eco, de Samuel Beckett ou um inédito que já nasce clássico
Samuel Beckett não teve uma juventude comum e sadia; como observou mais tarde, aqueles anos 1930 foram-lhe os piores em todos os sentidos, porque a falta de dinheiro foi sua principal ameaça e porque, desajeito e tímido, foi sempre motivo de escárnio do público. Nesse época, já havia sido professor na École Normale Supérieure, em Paris, e vagado pela Alemanha e Inglaterra graças a uma pequena herança familiar. Foi quando tentou escrever seu primeiro romance. Dream of fair to middling women fora escrito na França, mas ainda não havia encontrado uma editora interessada em publicá-lo mesmo depois de bater à porta de várias delas: Chatto &Windus, Hogarth Press, Grayson & Grayson. As sucessivas recusas e o fim do dinheiro, obrigou-o que voltasse para casa, em Dublin, onde se dedicou a revisar o manuscrito e daí começou a escrever uma coletânea de contos.
Tal como no romance, Beckett recriou uma diversidade de episódios da vida de Belacqua, um estudante irlandês obcecado por Dante e Agostinho. Ao concluir dez deles, juntou ao manuscrito uma carta e tornou a fazer contato com as editoras. Entre a série de nãos que repetia encontrou Charles Prentice, da Chatto & Windus que se interessou em editar o material desde que alguns ajustes fossem feitos. Um deles, escrever mais um conto para dar mais substância ao livro. Talvez porque as editoras sempre quiseram encontrar em todo escritor um Best-Seller, essa foi uma motivação que levou o incipiente escritor a se dedicar ainda na revisão dos textos por cultivar um estilo de prosa menos obscura. Mas, a influência que lhe pesava de James Joyce, obra havia absorvido com grande força ainda quando estava em Paris, foi mais forte e numa das correspondências ao editor que resolveu lhe dá uma chance de publicar uma obra sua desabafou ser aquela maneira a única na qual estava interessado para escrever.
É nesse contexto que aparece Ossos de eco. O conto foi escrito pelo Prêmio Nobel de Literatura em 1933 a pedido de Prentice e fecharia a antologia More pricks than kicks; o livro que, enfim, viria ser sua primeira incursão pela prosa de ficção. Mas, ao ler o texto, o editor logo desgostou: “É um
pesadelo. Terrível e simplesmente persuasivo demais. Me deu tremeliques”. Com esses
termos – que introduzem uma carta com as palavras que diversos escritores, na
história da literatura, tiveram de digerir e o próprio Beckett já tivera de ouvir reiteradas vezes – Charles Prentice desclassificou Ossos de eco. Obediente ao amigo, ou mesmo a ânsia de um jovem em ter
sua obra publicada, o livro saiu sem trazer o tal texto capaz de fazer as
pessoas “ter arrepios e ficar desnorteadas e confusas”. Eram dez e não onze
contos como preferia o editor. Terá sido necessário esperar oitenta anos para
que enfim o texto vir a lume, graças ao esforço de Mark Nixon, diretor da
Fundação Samuel Beckett na Universidade de Reading.
A carta que
Samuel Beckett recebeu provavelmente o terá deixado muito triste; ao menos é o
que demonstra noutra correspondência de dezembro de 1933 para um amigo assegurando
que a reprovação do escrito havia lhe “desanimado profundamente”, pois era um
conto “em que coloquei tudo o que sabia e muitas coisas ainda melhores das
quais nem sequer era consciente”. Outro elemento capaz de provar sua obsessão
por este texto e seu interesse de não fazê-lo cair no limbo está no título dado
à sua primeira coletânea de poemas publicada dois anos depois do acontecido;
chamava-se “Echo’s bonés and other precipitates”.
O fato de
1933 não foi a primeira vez que o escritor e seu editor não partilharam da
mesma opinião. Um ano antes, Prentice havia sido um dos que reprovaram o primeiro romance de
Beckett, por ser “uma coisa estranha” sobre a qual “não entenderíamos a metade”. Mais
tarde reconheceu que “talvez tenha sido um erro” não publicar o livro, que
finalmente foi publicado postumamente em 1992. Muito de Ossos de eco e das narrativas do livro de contos no qual o texto
estaria incluído foram produtos dos materiais desse romance de 1932.
Ossos de eco sobreviveu, conforme
apresenta a nota que acompanha sua edição, graças a um datiloscrito guardado na
Rauner Library do Dartmouth College, e uma cópia em carbono guardada por A. J.
Leventhal Collection no Harry Ranson Center da Universidade do Texas em Austin;
“os dois textos, assim, são idênticos, mas há diferenças nas correções manuscritas
de Beckett” – um trabalho que exigiu do organizador da edição uma posição
crítica de não desperdiçar as intervenções do escritor.
Agora, a
pergunta que fica é, por que Beckett, mesmo tendo revisto o texto algumas
vezes, terá não se interessado pela sua publicação, sobretudo, tempos mais
tarde quando se tornou um escritor reconhecido? A resposta não existe como
suposição. Mais tarde o escritor terá internalizado a reprovação e pode ter
julgado que Ossos de eco não merecia
ser publicado; ou melhor, não enquanto estivesse vivo. Fez o papel de muitos
outros escritores que depois de terem recusadas suas recusadas preferiu deixar
o texto para a posteridade sabedor que a publicação não poderia vir junto com
seu consentimento numa situação em que o publicado se mostra como um apelo
capital para seu trabalho. Quando o texto veio a lume, Mark Nixon reforça em parte
essa constatação: “Beckett sempre foi muito negativo com sua escrita, e em
particular, passados os anos, com sua obra da década dos anos 1930. Por isso
resistiu que mesmo reeditassem sua obra da época”.
Queria que o
conto ganhasse vida depois de sua morte? Certamente. Beckett destruiu aqueles
textos que não queria que sobrevivessem; dou manuscritos a vários arquivos,
especialmente aos da Universidade de Reading, tendo muito claro que no futuro
serviriam às atenções de seus leitores. Isto é, tal como concordou Edward
Beckett, sobrinho do escritor, no Observer
“Beckett não haveria entregue o manuscrito de Ossos de eco a dois pesquisadores (coisa que vez na ocasião) se não
quisesse que fosse estudado e potencialmente publicado”.
No conto,
Beckett ressuscita Belacqua, um dos protagonistas dos dez contos que já havia escrito;
a personagem após sua morte se torna um fantasma e sentado numa cerca fumando
charutos sem saber bem o que se passa encontra outras figuras habitantes no “pó
do mundo”: a prostituta Zaborovna Privet, o gigante Lorde Gall D’Artemísia e
Mick Doyle, um violador de sepulturas. O esforço criativo do escritor que compõe
a narrativa de Ossos de eco com
partes não aproveitadas de outras histórias prenuncia a construção de um estilo que mais tarde tornaria seu autor reconhecido
– aquele que combina na descontinuidade da narrativa um extenso diálogo com referências
das mais diversas, numa combinação entre o erudito e o popular, além da
diversidade de alusões biográficas e a ousadia formal. Essa apresentação, que
toca no tema da qualidade literária, sempre algo muito questionado quando o
assunto é um inédito póstumo e não diferente com a aparição de Ossos de eco, recobra outra observação
de Nixon que prefere citar o crítico irlandês Seamus Deane, quem resume seu
valor, com esta sentença: “É bom enfim dispormos dessa obra, não genial, mas de
um gênio”.
Mark Nixon,
quem escreve um prefácio para edição de Ossos
de eco reafirma a qualidade do texto com o diálogo que este mantém com a tradição
literária anglo-saxã como quando contrapõe essa narrativa com Hamlet, de Shakespeare: “Com Ossos de eco é um conto sobre pais e filhos
ausentes, sobre a vida após a morte e sobre o estado deplorável do mundo, mal chega
a ser uma surpresa que seu principal diálogo literário seja com Hamlet, de Shakespeare. Tanto no nível
temático quanto no verbal, Hamlet
literalmente assombra todo este Ossos de
eco”.
A leitura
desse livro nos faz então reencontrar com o trabalho magistral de um dos mais
importantes criadores literários do nosso tempo; para os leitores mais atentos
à sua obra, a descoberta de uma peça a mais no amplo mosaico engendrado pelo
escritor desde sua juventude ou um jovem escritor à procura de sua própria voz.
Ossos de eco é um texto cujo o humor
e a substância intelectual são suas matérias de criação – esses dois elementos,
sabe-se, exercem um papel fundamental no desenvolvimento de seu estilo, que
deixa de ser o de um escritor marcado pela presença de um Joyce, por exemplo,
para ser um escritor cujo experimento com a linguagem, tal como reforça Nixon,
se torna no elemento importante para seu lugar no cenário literário dentro e
fora de seu tempo.
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