A efemeridade é também coisa de poeta e de poesia
Por Pedro Fernandes
A reedição
da antologia organizada por Italo Moriconi vem em boa hora. Desde a publicação de
Toda poesia, de Paulo Leminski, em
2013, que um novo olhar tem se levantado para os
nomes de uma geração a bem pouco tempo comuns apenas entre uma parte dos jovens
mas ainda situados na mesma designação de figuras marginais. Não é o caso de,
depois do fenômeno da obra, seguido de outros, como a também reedição da poesia
completa de Ana Cristina Cesar e de Waly Salomão, que essas vozes tenham saído do
coro para o qual a crítica sempre o designou. Mas romperam com a ideia de que o
marginal é necessariamente aquele que figura à margem para abrir-se uma ventilação
no cânone nacional. Isto é, possibilitou-se falar sobre a reavaliação da obra
desses escritores, cumprindo-se, assim, o que anseia o antologista de Destino: poesia, que, seja dada a
abertura ao conhecimento sobre as principais vozes da poesia brasileira das
últimas décadas. Independente se dentro ou fora de círculos e circuitos.
A ocasião é
outra quando assistimos não apenas a reedição da obra de alguns dos que mais
significaram nos anos 1970 e 1980 mas uma série de movimentações culturais e entre os
mais assíduos da comunidade leitora as constantes atividades que tem no seu
núcleo o interesse pela obra dos nomes reunidos na antologia de Moriconi – além
dos três citados, estão acrescentados Cacaso e Torquato Neto – ou os seus
herdeiros mais próximos; digo isso pensando na publicação da obra completa de
Chacal, na aparição de inéditos de Torquato. Ou seja, na presença constante e
contínua que esse reiterado interesse tem assumido forma desde há três anos.
Destino: poesia cumpre ao que veio. Trata-se
de uma antologia que veio para produzir as inquietações que agora se
registram nos sismógrafos do gosto leitor. É mesmo possível que tenha sido
do encontro com esse livro organizado por Moriconi que alguns dos mentores
sobre o retorno a essa importante geração de poetas tenham encontrado o ponto do
qual partiram, numa aventura, talvez, que não apontava uma direção segura, visto
que, lidar com o gosto do leitor é sempre um território movediço e suspeito. Nunca
foi suficiente que apenas o apelo comercial das editoras tenha sido a fórmula para pegar uma moda ou, o que é ainda
mais difícil, fazer um gosto reverberar por longa data – ainda mais numa era de
total flerte com a efemeridade.
E, por falar
em efemeridade, é ela a principal dorsal que une os quatro nomes de cuja obra
se faz uma pequena amostra. Faço com essa afirmativa o trabalho de ampliar os
argumentos utilizados por Moriconi na apresentação de sua antologia e creio que
este viés temático é melhor aceitável até que alguns utilizados por ele. Por
exemplo, o ponto no qual insere Ana C., Cacaso, Leminski, Torquato e Waly
Salomão, de poetas que lidam com o uso coloquial da linguagem e se apropriam na
sua obra de palavras corriqueiras do seu cotidiano – afirmativa que, se se
adéqua ao estatuto do efêmero que aqui destaco, se distancia o suficiente para
ser chamado de contradição do pedido pelo antologista, que o leitor dos poemas
aí reunidos não se apoquente com o contexto ao qual se relaciona o trabalho
das formas linguísticas desses autores.
O trabalho
de preocupação pela desvinculação do datado – daquilo que o próprio Carlos Drummond
de Andrade, um dos nomes que apesar de pertencer aquele eixo central ditado
pela crítica se situa entre os que revolucionaram o gesto poético na literatura
brasileira, isto é, base para o que tem sido trabalhado pelos poetas de depois –
não é uma tarefa que deva ser atribuída ao leitor mas ao poeta, visto que,
convencionalmente são raros os leitores que procuram vincular o conteúdo da
obra a determinado contexto que a rege. Aos leitores mais acurados nunca lhe
restará outra alternativa que a de, no trato de deslindamento da obra, oferecer
a mais diversa sorte de possibilidades de leitura a fim de demonstrar o
trabalho de significação construído, direta ou indiretamente, pelo poeta. Isso significa
dizer que, a depender da maneira como se verifica o contexto pela obra poética,
retomá-lo não é atribuir a ela uma força atrasada e sem valia para o leitor contemporâneo
mas um enriquecimento no processo de leitura dessa obra. Já entre os leitores comuns, em sua grande maioria, não. Agora, entre bons e
maus poemas, todo bom poeta já praticou todos e é graças aos maus que constitui
um substrato para os bons. E maus poemas serão sempre, em parte, aqueles que estão seriamente vinculados ao seu tempo.
parte do manuscrito do poema "Trilha sonora", de Ana Cristina Cesar reproduzido em Destino:poesia |
A
efemeridade que une os poetas de Destino:
poesia assume-se portanto como uma frente de significação diversa: se
manifesta ora na estrutura e forma do poema, quando encontramos a força
epifânica do verso curto, a estrofe breve ou poema-pílula e a linguagem quase
sempre despida do trabalho de garimpo ao qual estão submetidos outros poetas; ora
no tema, nas situações evocadas que se referem ao dia comum, do que vê e
vivencia o poeta; ou na maneira como o poema é apreciado pelo leitor, isto é,
não estamos ante qualquer força que lhe implique uma necessária reflexão porque
o efêmero é revelação e não inspiração.
É por isso
que o renascimento, por assim dizer, da obra desses autores encontra terreno muito fértil na
atualidade. Porque, do tempo deles para o nosso, o efêmero cada vez se
intensificou e cada vez mais perdemos a atitude de reflexão. Estamos definitivamente
na era dos insight – naquilo que, se
para o bem o mal ainda não sabemos, tem se assumido na poesia com grande força expressiva, ainda que o
poema-trocadilho, o poema-piada seja uma alternativa, a meu ver, cada vez mais previsível
e logo um fenômeno que serviu a um tempo mas agora talvez devêssemos usar essa
força para galgar outras expressões poéticas; sei que há mais além delas e em grande
parte os já herdeiros dos nomes reunidos por Moriconi têm ensaiado alternativas
que ampliam aquilo que, em grande parte, não galgou grande extensão porque os
poetas dessa antologia levaram a ideia de efemeridade para a própria vida. Mas
há pelo menos outras duas gerações – avistadas no mapa atual – que a
elas não devia mais ser permitido insistir com o mesmo tom.
Ainda, nesta
última constante, sabemos que o trabalho dos poetas aí reunidos foi sempre o de
desconstruir descontraidamente a sisudez da poesia e de quem faz o verso, também
buscavam romper com um emparedamento que agora novamente se ergue no Brasil. Talvez
por esse cenário temeroso que aqui se instalou os poetas que trotam o mesmo
passo dos da antologia Destino
estejam destinados a permanecer onde estão: é, de toda maneira, uma forma de
resistência ao ódio gratuito, uma maneira de romper com o cerceamento dos
direitos individuais, afinal, liberdade
é mais que uma atitude rebelde é uma maneira de rever a ordem das coisas, de
posicionar-se politicamente.
Foi isso o que praticaram os da geração de Leminski,
mesmo quando não disseram qual lado estavam e alguns aproveitadores depois
tenham feito uso desse ou daquele lado; poesia não tem lado, só a posição de se
firmar contrária ao que é retrógrado, mesquinho e uma atitude a favor da liberdade de ser e isso também une os dessa antologia. Significa dizer que
leitor tem em mãos uma boa maneira de se introduzir ao desvestir-se de certas
formas pela mão de Moriconi. É um livro de muita força expressiva, que obrigará
o leitor sair do seu lugar de conforto e saber mais de perto e melhor quem
foram e ainda são esses nomes para a cultura brasileira recente. É grande o prejuízo
se não conhecê-los e reconhecê-los.
______
Destino: poesia
Italo Moriconi (Org.)
José Olympio, 2010
José Olympio, 2010
160p.
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