O concerto interior – evocações de um poeta, de António Osório (Parte I)
Por Pedro Belo Clara
O
próprio autor esclarece, em antevisão: «O título devia ser “Breve
Autobiografia”». E estamos, de facto, perante uma obra bastante próxima de tal
género. No entanto, devido à compressão dos conteúdos, muitas vezes abordados
sob o condicionamento das súmulas, questionamos se “autobiografia”, ainda que se
diga “breve”, seria um justo epíteto. O autor, sensato, decidiu em bom momento
colocar a hipótese de parte.
Devido
à corrente poética que atravessa o livro, poderíamos também pensar em algo como
“antologia anotada”. Mas a prosa prevalece diante da poesia, e logo a sugestão
perde sentido – «(...) a poesia procurou sempre tornar mais clara a minha vida,
e a prosa revela a verdade dos versos e das pessoas invocadas».
Marcando
estas, as «pessoas invocadas», presença em dezenas de trabalhos anteriores,
compreende-se a resenha que constitui cada capítulo deste livro. Pois, como
admite Osório, as ditas «disseram já muito do que tinham a dizer». Não
obstante, reforça-se o elogio (e gratidão, em muitos casos) que lhes confere,
numa obra também ela impregnada por um certo sentimento de inclinações
sadiamente saudosistas. Afinal, cada personagem (re)evocada acompanhou o autor
através do render de um mistério maior, o das quadro estações, passagem essa
que se revelou vincada, tão revigorante que ainda lateja no mais fundo de si
mesmo, como orquestra que finda uma briosa interpretação.
Temos,
portanto, um “concerto interior”. Entre a autobiografia e o elogio de nomes,
animais, casas e lugares relevantes para António Osório. Pois é disso que se
trata: de traçar um percurso sumário entre a criança nascida em Setúbal durante
a década de trinta e o homem que ao longo da sua existência mais activa se entregou
ao Direito e à Literatura – definido assim, nas palavras do próprio:
«afectuoso, discreto, entregue à busca do essencial, tantas vezes indignado
(com razão), amando a poesia, a pintura e a música, procurando a luz
fraterna...».
«Procurando
a luz fraterna»... Quase que de tão simples frase se extrai o essencial de
António Osório.
Apesar
de se ter iniciado na escrita anos antes, apenas em 1972 se estreia com A Raiz
Afectuosa. Reparemos, agora, como palavras de inclinações semelhantes (afecto,
fraternidade) se repetem de modo óbvio. Tal fenómeno não é seguramente um fruto
do acaso. Na verdade, traduzem fielmente a poesia do autor hoje abordado:
calorosa, fulgurante, generosa de significados e intenções, onde a sintaxe
meticulosamente elegida e o carácter lustroso dos versos sobriamente
trabalhados adensam a madurez das composições. Temos assim uma poesia, em suma,
verdadeiramente humana e profunda, oscilando entre o singelo e o pungente
sentido do adjectivo escolhido.
Nunca
foi um autor de publicação regular, diga-se. Largos anos se contaram entre alguns
originais. Mas esse espaço não se dirá prejudicial. Muito pelo contrário. Funcionou
como um catalisador da reinvenção poética, tornando-a renovada a cada edição,
mas sem se despojar dos elementos que mais a caracterizam – aguçando-os, ao
invés. Contudo, recordemos que o presente livro não se insere no espectro
poético. É antes uma espécie de guia cronológico entre os mais marcantes
acontecimentos da vida do autor, ilustrado pelos poemas que os mesmos lhe
inspiraram.
Inicia-se,
portanto, e de modo bastante previsível, na infância de Osório e nas
respectivas vivências com os seus pais e irmãos. Tendo a sua mãe origem
italiana, desde logo se demarca a educação pluricultural obtida pelo jovem
António, o que amplamente o beneficiou a nível literário. Pois, se por um lado
o pai lhe revelava as valências do eterno Camões («Lia-me Camões meu Pai. / A
tristeza de ambos / se juntava, em mim crescia», “Camões”, 1981), a mãe,
Giuseppina, fê-lo apaixonar por Dante. Entre estes dois vectores ilustríssimos,
contaram-se clássicos como a Odisseia e a Ilíada.
Não
obstante as incertezas constantes vividas em plena II Guerra Mundial, agravadas
pelo facto de possuir uma larga família em Itália, a ameaça de tuberculose
aprisionou-o à cama e a deleitosas leituras bebidas dos lábios de sua mãe. Os
seguintes poemas, de 1978, evocam a época: «A meu lado, doente, lias / a guerra
de Tróia.»; «E volto contigo a Ulisses, a maior / palavra, depois de amor, que
deste.» (“A meu lado, doente” e “E volto a Ulisses”, ambos de A Ignorância da
Morte).
Este
é igualmente o tempo da Quinta da Azedinha e, posteriormente, do Casal das Sete
Olaias, propriedades rurais onde a sua infância se desenrolara. Certas figuras
do primeiro livro de António Osório, antes referido, remontam a estes lugares:
A Sra. Conceição («Com fermento e água / e com as mãos / fecundava a farinha»,
“Louvor da Sra. Conceição”) e o «querido José da Vaca» são disso exemplo («E
que dizer do amor por mim / de um velho, o carroceiro / José, um dente único,
trémulo / de gaguez (...)»). Mas não se
considere que somente o ser de cariz humano teve lugar no coração e na poesia
do poeta. A «uma bondosa vaca», Estrela, dedicou António Osório estas
belíssimas linhas:
Estrela ontem morta de parto
(…)
Não passarei mais a mão
por teus quadris, por essa pele,
um brocado antiquíssimo hindu,
com o afecto que um homem deve ter
por aquilo que o transcende em dádiva (…)
O
amor expresso por Osório reveste-se não apenas de intensa humanidade, como
vimos, mas de um carácter fortemente telúrico, aproximando-o assim um pouco
mais, no que a este capítulo diz respeito, do poeta maior Miguel Torga.
De
igual modo, e com semelhante carinho, os avós João e Rosa são relembrados e
eternizados em íntimos versos de genuíno amor. Ao primeiro, que lhe ofertava
grilos cativos e moedas, deixou a seguinte inscrição em moldes elegíacos:
«Escrivão, contador de vidas e processos, / de mim criança me soube absolver».
À feminina figura, um poema que descortinou o modo «como a amava». Este, não
por motivos de superioridade em detrimento dos restantes, mas por óbvias razões
de natureza cintilante, transcrevemos na íntegra:
Avó Rosa, doçura extinta,
flor
entre duas páginas
subitamente caída, imersa
quase de um século,
sempre de preto e seda,
loura, apaixonada por Deus
no oratório de pau-santo
e mais por seus filhos,
tímida, gentilíssima, linda,
fogo que não consumia, aquentava,
sopro digno de tal nome.
Um
poema de rara beleza, como se constata, onde só o silêncio poderá perdurar,
qual mar etéreo que tudo lustra e eleva, após a respectiva leitura se findar.
***
Pedro Belo Clara é colunista do Letras in.verso e re.verso. Por decisão do editor do blog, nos textos aqui publicados preservamos a grafia original portuguesa. Nascido em Lisboa, Pedro é formado em Gestão Empresarial e pós-graduado em Comunicação de Marketing. Atualmente centrado em sua atividade de formador e de escritor, participou, com seus trabalhos literários, em exposições de pintura e em diversas coletâneas de poesia lusófona, tendo sido igualmente preletor de sessões literárias. Colaborador e membro de portais artísticos, assim como colunista de revistas e blogues literários, tanto portugueses como brasileiros, é autor dos livros A jornada da loucura (2010), Nova era (2011), Palavras de luz (2012) e O velho sábio das montanhas (2013) – sendo os dois primeiros de poesia. Outros trabalhos poderão ser igualmente encontrados no blogue pessoal do autor – Recortes do Real (artigos e crônicas diversas).
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Se já enseja ser
E você deseja."
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