Blue Jasmine, de Woody Allen
A impecável atuação de Cate Blanchett brilha na pele de uma figura que tem predileção pela aparência e pela ostentação, signo da atual situação porque passam os países da crise econômica. |
Não sei dizer se Woody Allen é um dos maiores cineastas na
ativa, como li por aí; teimo em fugir dessas certezas absolutas, principalmente
essas que colocam uma pessoa acima das outras. E, diante de minha pouca experiência
com a filmografia do diretor – devo ter assistido meia dúzia de filmes apenas, principalmente as últimas produções – prefiro contentar-me com a ideia de que
ele é sim, um grande cineasta. Mas é só e já será suficiente. O meu entendimento para uso do epíteto de
grandiosidade repousa numa ideia que tenho vindo perseguindo quando me deparo
com alguns trabalhos cinematográficos (e esta opinião pode até se estender à
produção literária, e os que me leem com frequência já sabem de que falo). Falo
da capacidade do autor em tirar das mínimas situações uma grande história. Coisa
rara. Há os que pecam pelo excesso de pirotecnia e não conseguem sequer fazer fumaça,
já outros... Allen está neste seleto último grupo.
Seu novo filme, Blue
Jasmine é uma tentativa em escapar do padrão do diretor: desde que deixou
sua cidade mais filmada, Nova York por uma estadia na Europa, este é seu trabalho
de retorno não a ela, mas aos Estados Unidos; depois, é comum que as narrativas
do diretor de Meia-noite em Paris
tenham sempre um narrador em off ou
sejam construídas sob o acurado senso de humor, dois pontos fortes, aliás, de
sua técnica cinematográfica. O filme de agora tem até algumas pitadas de humor,
mas o drama o inunda mais vertiginosamente. Algumas obsessões do diretor, estarão preservadas, entretanto.
Em cena, Jasmine, um nome fictício para uma metida a rica
igualmente fictícia. Apenas metida, que a riqueza sua é na verdade do seu marido,
e este, depois de um imbróglio cuja participação de Jasmine tem fundamental importância
para o seu desfecho, chega a conclusão de dar cabo da própria vida depois de
ser preso por pedofilia e lavagem de dinheiro. Tudo, então, na vida cômoda que levava, se desmorona e a personagem é novamente levada para o lugar de onde saiu – de
Paris para San Francisco.
Mesmo assim, morta de pobre, Jasmine hospedada na casa da irmã
que sempre subestimou a vida inteira, não se fará de rogada; não desiste da
vida inventada e lutará com tudo o que lhe resta de forças para manter a redoma
em que está metida. A vida, até será generosa com ela, colocando-lhe à frente
outra possibilidade de rever o mundinho erguido ao lado do falecido marido – ou
talvez ainda melhor, que apesar das aparências sempre enganarem, o rapaz que se
apresenta já em meados da trama parece ser, como se diz, um bom partido. Tudo poderia
até ter aquele final feliz, em que a personagem daria uma reviravolta por cima
e aterrissaria no chão onde devia estar, mas não. Woody Allen é cruel, parece
crer que as pessoas são o que são e pronto! Mudá-las há de ser um longo e
extenso programa cujo fim parece não está em lugar algum e nem interessado em buscá-lo. Portanto, não sobrará
finais felizes para os que esnobam da vida.
Mas, para além do enredo, é necessário dizer que, Blue Jasmine se constrói como uma grande
alegoria; primeiro, do retorno do próprio diretor, depois, da situação histórica
porque passam Estados Unidos e Europa, imersos numa crise sem fim. Não que
Allen tenha voltado de mãos abanando do Velho Continente; pelo contrário trouxe
de lá excelentes produções cinematográficas, mas se formos nos ater ao
palavreado ensaiado da crítica, a pobreza fará algum sentido, porque todos os
filmes lá produzidos se tornaram aos olhos do mundo, em produções medianas. Tanto
que este de 2013 terá recebido uma chuvarada de críticas positivas a ponto de
muitos dizerem ser o seu melhor trabalho dos últimos anos. Mas, deixando
as influências ou marcas pessoais que têm em toda obra e se concentrando na
segunda linha de raciocínio, logo chegaremos a uma visão mais cômoda sobre o
filme que não o coloca nem acima nem abaixo de outras produções do diretor e o
constitui como belo exemplo de enforme do histórico e do social na obra de arte.
Fazendo simples associações, Jasmine é a estadunidense que
mesmo estando à banca rota da grana do companheiro prefere ir viver na Europa
pela aparente condição de superioridade continental em relação ao seu lugar de
origem. Ainda que nascida em Nova York e tenha habitado e transitado pelo
suprassumo da riqueza, tudo lhe é insuficiente; a Europa, mesmo velha tem o que
a América lhe falta, a sofisticação e o glamour, duas peças de fundamental
necessidade ao arranjo de imagem bem acabada de si. A ponto de, aos olhos da irmã
brega, a eterna caipira que não consegue ter aquelas duas peças, Jasmine ser um
exemplo a ser seguido. Pura visão crítica de uns Estados Unidos que mesmo tendo
alcançado o topo do mundo em riqueza nunca conseguiu galgar a fineza europeia;
aos olhos de si, o país sempre se vê como o mais forte, mas no fim de tudo
sobram-lhe gotas de inveja ou mesmo um ranço histórico mal curado de que, por
mais que se esforce, a Europa é a Europa. Talvez a única coisa que une país e
continente seja esta necessidade de estar disposta num pedestal – condição
assumida tanto pela Jasmine quanto pela sua irmã.
Nesse jogo de mimetismos, não há também preferências; por mais que o fim da irmã de Jasmine seja um tanto diferente – as duas entregaram-se à impressão superficial e ao orgulho em excesso. Uma, terá reconhecido o caminho tortuoso em que se metia e recua, mas também não encontra saídas que possa colocá-la em condição melhor ou pior que a outra. No fim de tudo, parece que Woody Allen sugere o lugar onde nos encontramos nesse início de século – o da espera (e o fim da história com Jasmine sentada à espera de não se sabe o quê é emblemático). Sabe-se que, do jeito que está não pode continuar, mas também não temos saídas. Aponta ainda noutra direção para esse calote financeiro em que estamos metidos; não é a falta de dinheiro que nos faz está em crise, é, sobretudo, a falta de moral e de honestidade dos que embaixo do poder o sustém assim enfiado numa casaca de plumas igualmente amoral e desonesta.
Nesse jogo de mimetismos, não há também preferências; por mais que o fim da irmã de Jasmine seja um tanto diferente – as duas entregaram-se à impressão superficial e ao orgulho em excesso. Uma, terá reconhecido o caminho tortuoso em que se metia e recua, mas também não encontra saídas que possa colocá-la em condição melhor ou pior que a outra. No fim de tudo, parece que Woody Allen sugere o lugar onde nos encontramos nesse início de século – o da espera (e o fim da história com Jasmine sentada à espera de não se sabe o quê é emblemático). Sabe-se que, do jeito que está não pode continuar, mas também não temos saídas. Aponta ainda noutra direção para esse calote financeiro em que estamos metidos; não é a falta de dinheiro que nos faz está em crise, é, sobretudo, a falta de moral e de honestidade dos que embaixo do poder o sustém assim enfiado numa casaca de plumas igualmente amoral e desonesta.
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