Estórias gerais, de Jaime Hipólito
Por Lindelillyan Fernandes
Importante
profissional do jornal e escritor de reconhecimento merecido. Como costumavam
dizer a seu respeito: - Caicoense de Mossoró, publicou no ano de 1962 o livro
de conto: O aprendiz de Camelô, hoje metabolizado nessa obra: Estórias
Gerais. A qual merece seus confetes por trazer para ao público, um conjunto de
momentos cotidianos, bem possíveis de realização. Fato que ele se orgulhara de
comentar, por gostar de expor os acontecimentos em seus contos exatamente como
eles aconteciam, fossem verídicos ou existentes somente no seu mundo particular
de idéias. Isso provavelmente influência das rotinas jornalísticas, visto que
ele preferia os bastidores dos jornais à vida literária.
Estórias
Gerais de Jaime Hipólito é uma obra tipicamente nordestina, pois trata
contos como um gênero regional, trabalhando seus temas com a simplicidade da
conversa na janela das vizinhas de um bairro popular. O autor busca , como ele
mesmo afirma, expor assuntos cotidianos e ao mesmo tempo fatos incomuns no meio
social por ele ricamente ilustrado nessa obra. Seus contos sempre trazem
consigo um mistério, algo que nos faz lembrar os Contos Extraordinários de
Edgar Allan Poe, que sempre tinha no suspense e na tragédia seu clímax. Suas
narrativas curtas, assim como as de Jaime Hipólito, não impediam de tratar de
um determinado assunto em sua íntegra, apesar do tamanho da obra. É o que
também vemos aqui. Apesar de em certos contos ter a impressão de que ficaram
incompletos, o que provavelmente era exatamente essa a intenção do autor. A
obra tem em si a mágica da contemporaneidade que envolve o leitor em suas
tramas. Sem esquecer as, embora breves, citações das localidades do Rio Grande
do Norte e suas personalidades, apresentadas sem maquiagem. Os perfis que
ilustram a obra, são os “personagens da vida real” do Estado do RN, são eles
pescadores, que têm suas famílias alojadas a beira mar, e que com isso
enfrentam as dificuldades das privações da distância da cidade e que muitas
vezes passam por situações primitivas como uma mulher dar a luz em casa e
sozinha. Situação não esperada pela sociedade do século XXI, mas que não é tão
rara quanto parece. O retrato do sertanejo potiguar, também é marca forte na
obra do autor. Os crioulos, os mestiços que o estado abraçou tão gentilmente,
apesar de ser de origem indígena, a qual foi extinta por esses mesmos povos que
hoje o habitam, são retratados e caricaturados como norte riograndensesnatos.
E é isso que enriquece a diversidade cultural do estado e da obra e torna-se
identidade, como a presença da mulher potiguar que além de sua força e coragem
é apresentada com carisma, como foram as mulheres que participaram da história
que foi escrita do Estado do Rio Grande do Norte. Ler Estórias Gerais de
Jaime Hipólito é certamente fazer uma viagem pelo estado. É conhecer seus
costumes, seus povos e seus cartões postais. Embora alguns deles, não sejam tão
“queridos” como referência.
“Percebe-se
uma extrema necessidade do autor em matar seus personagens”. Nesse ponto,
questiono-me se seria o excesso de idéias sobre esse assunto e a dúvida de
saber o que fazer com elas ou a verdadeira intenção macabra de celebrar a
morte. Na maioria de seus contos, encontramos uns muitos mortos e outros tantos
abandonados, quando não assassinos, doentes ou depressivos... Seria uma marca
tradicional do autor? – Provavelmente uma forma de caracterizar suas obras com
esse “Q” de absurdo. Por tantas vezes o leitor encontra-se envolvido na estória
e é surpreendido por uma mancha de sangue nas páginas do livro. Quantos
personagens precisaram derramar seu sangue para que o autor se satisfizesse? –
Dos quinze contos, oito deles consumam o ato, os demais quando não deixam
depressivos, incompreendidos, deixam a marca do “não acaba por aqui”.
Jaime tinha
esse misto de mistério e incomum que deixava sempre a marca das interrogações –
Não fossem por dúvida em saber por que determinado personagem tomou uma
atitude, ou por acreditar que as falas mereciam complemento seus contos, seriam
a tradução perfeita do cotidiano potiguar. Se há uma questão específica para
cada caso, isso merece um estudo mais aprofundado, mas que em primeira
instância, há essa observação de incompleto quanto ao desfecho das estórias.
Contando
conto por conto, falemos do menino Sandrinho, do "Conto de ninar", o
qual sobreviveu, mas perdeu seu boi. Observe a morbidez citada anteriormente. "Às
suas ordens, sargento", o Zé Firmino, que de aparência criminosa nada fora
narrado, não morreu de corpo, mas perdera a liberdade; o que de certa forma é
um tipo de morte. Sem comentários para o "Estórias do marido que vai matar",
morre. Basílio de "O regresso", deveria estar feliz por voltar para
casa depois de tanto tempo longe, mas o autor faz questão de enfatizar os seus
medos, só para não fugir as suas características depressivas.
O que dizer
então do "A tragédia do Negro Jesus"? Tão bom e traído pela própria
ira. Onde esteve ela durante todo o desenrolar dos fatos? Por que somente no
último instante resolveu aparecer? Por que essa sandice em um homem de tão boa
índole? Em um instante acaba por ser atropelado pelo destino. Já "Luciana" não...
Essa sim foi uma estória de amor, fracassado, mas amor. Tirando o fato de que a
mocinha foi abandonada e quando o príncipe voltou ela tinha enlouquecido e se
matado, mas tudo bem, isso são coisas de Jaime Hipólito, que disse nas
primeiras linhas desse conto que essa seria uma estória de amor.
"Remorso", é
uma estória de perseverança. A qual levou a mocinha da estória a morrer de fome
por capricho (recorte de Jaime) ou persistência, como queiram. E no fim, o seu
amor ainda some sem deixar vestígios, mesmo depois de trocar palavras,
iniciar uma “ nova amizade”. ( E Joana? Que nem era a protagonista do conto e
mesmo assim morreu de fome... Seu marido, como não podia deixar de ser, sumiu
sem deixar vestígios. Veja-se nesse ponto a morte de um e o sumiço de outro.).
"Mulher com
pés-de-galinha" é hilário. É de certa forma uma crítica a sociedade atual
em que as aparências, a busca pelo belo, pelo perfeito se assemelha a corrida
espacial ou as batalhas pelo ouro: vence quem chegar primeiro e só é aceito
quem participa do meio. A pobre mulher (Nida) teve que se contentar em estragar
mais uma coisa em cima de si, os cotovelos que passaram a encostar na borda da
janela com mais freqüência.
A sandice
está explícita e justificada em "Noite de Eulália", em que a pobre mulher
não se conforma com a morte do pequeno Bepo e sáisem rumo,
fugindo de casa, fugindo da realidade.
Tomando as
dores da pobre "Julia" que concluiu suas páginas sem conseguir entender
o que é o amor e o sexo e sem permitir que a conhecêssemos também. Quem seria
ela? Uma garota com problemas físicos, psicológicos, um ser individualmente
alheio às coisas “prazerosas” da vida, ou apenas uma garota rebelde em fase de
transição de idade?
"O Padre",
o personagem parece retomar a história do livro O seminarista de Bernardo Guimarães,
o qual dividido entre a vocação e o amor, passa por aprovações e acaba por
escolher o que lhe era esperado. O texto fecha o ciclo de idéias quando narra a
saída do Padre Braga, o então protagonista, de sua casa e após despedir-se de
sua esposa sem maiores esclarecimentos. É provavelmente o conto de maior
complexidade e certamente o único que teve um final sem tragédia físicas ou
sumiços sem lógica. Porém é omisso à situação da mulher do padre, a qual não se
manifesta quanto a sua decisão de voltar ao seminário. Uma atitude pacífica
demais, onde o que se esperava era no mínimo dar-se o destino da mesma. Contudo
ela simplesmente some no silêncio de sua aceitação pela decisão do esposo;
ex-esposo e agora padre que escreve suas memórias. Completo e realista,
sem muitos enfeites e com a capacidade de prender o leitor, por ser ele
detentor de um assunto interessante, não desmerecendo os demais, no entanto,
trata-se de um contexto bem provável, e talvez por isso tão atraente.
E o caso da "Noite
de São João", onde mais uma vez o homem traído resolve matar a até então amada.
A pobre Rita nem teve tempo de respirar e caiu morta de um único tiro deferido
por seu amado Cirilo. É uma mistura de sentimentos onde o amor se transforma em
ódio no passar de um parágrafo. Essa estória deixa-nos a dúvida do que pode ter
acontecido com o “pobre corno” do Cirilo.
Patrício,
pode-se dizer que tal conto não merecia outro nome, pois o infeliz, assim como
Joana (do conto "Remorso") escolheu por morrer e acabar com a felicidade de
sua mãe, “Por uma cabrocha”, como disse ela, Honorata. – Essa sim é uma
heroína, resistira a morte do marido, adotara Patrício o qual criara sozinha e
agora o perde sem poder fazer nada, porque ele escolheu assim, e muito embora o
conto narre que ele queria gritar por ela, seu estado já não permitia. E a Honorata só
lhe resta chorar. "Conto de Natal", esse enfim é um conto com final feliz. O
pai volta do mar, muito embora depois de um acidente, a mãe pare sadia , mesmo
tendo sido sozinha e por fim todos estão juntos na noite de natal.
No último
conto, o "Capítulo da seca", recordo-me da estória de Fabiano da obra de
Graciliano Ramos, o qual retrata um cenário bem típico do sertanejo. Luis Cosme
como Fabiano, escolhe por ir embora. Se sua saga será igual a do personagem de
Graciliano isso não se pode provar, mas que é o que se espera por ser ele
apenas mais um dos reflexos do espelho da seca. Mas como o próprio Jaime
Hipólito relatou, é só mais um capítulo.
Estórias
Gerais de uma certa forma é um recolhimento de experiências vivenciadas ou
selecionadas por conversas junto ao povo de sua época.
* Lindelillyan
é aluna do oitavo período do curso de Letras, Língua Portuguesa, da Faculdade de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
** Este texto foi publicado na edição n. 2 do jornal Trabuco, maio-junho de 2008.
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