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Escutando os mortos no meio da natureza em Música de mortos suaves, de Ricardo Guilherme Dicke

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Por Douglas Sacramento  Ricardo Guilherme Dicke. Reprodução A literatura, como uma das muitas formas de arte, está inserida num campo de batalhas discursivas. Autores e obras disputam espaço dentro de um cenário editorial cada vez mais competitivo e produtivo, no qual determinadas produções literárias ganham destaque num período e podem ser esquecidas em outro. Logo, entender essa dinâmica faz parte do campo da crítica literária e, assim, muitos pesquisadores têm se dedicado a recuperar autores que sofreram processos de apagamento para trazê-los mais uma vez aos holofotes.  É o caso do pesquisador Rodrigo Simon de Moraes. Em sua tese de doutorado, defendida em 2021, ele estudou a obra do escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke. O interesse se construiu após a leitura de entrevistas em que Hilda Hilst o apontava como um dos melhores escritores brasileiros. Como os livros do autor estavam esgotados, Moraes entrou em contato com a filha de Dicke e, a partir desse encontro...

Voyeurismo no divã, os contos de Alberto Moravia

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Por Felipe Vieira de Almeida  Alberto Moravia. Foto: Ulf Andersen. Reprodução da Rádio France. Alberto Moravia foi um escritor e jornalista italiano de origem judaica nascido em 1907 cuja obra literária, iniciada ainda quando jovem e publicada às próprias custas, trouxe-lhe, entre outros dissabores, a perseguição do regime fascista em seu país.  Crítico contundente da família tradicional burguesa romana, Moravia precisou usar pseudônimos para continuar trabalhando como jornalista e posteriormente, então casado com a escritora Elsa Morante, chegou a fugir do regime se abrigando entre camponeses no interior da Itália.  Freud, Marx e Sade foram influências importantes na formação da sua trajetória intelectual e transparecem na abordagem irredutível da torpeza de setores da sua sociedade à época do regime fascista e mesmo durante a Guerra Fria. A coisa e outros contos  passou a fazer parte, em 2024, da Coleção Sete Chaves, curada pela crítica literária Eliane Robert Mora...

Boletim Letras 360º #702

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Elena Poniatowska.  Foto: Felipe Haro Poniatowski LANÇAMENTOS Livro da escritora mexicana,  Elena Poniatowska,  Prêmio Cervantes e uma das vozes mais importantes da literatura em língua espanhola, ganha edição no Brasil . Enquanto não te vejo, meu Jesus é um romance extraordinário inspirado na história real de Josefina Bórquez. Jesusa Palancares nunca teve uma vida fácil. Da infância marcada pela pobreza à participação na Revolução Mexicana, passando por décadas de trabalho, violência, perdas e resistência, ela narra sua trajetória com uma voz ...

Fausto e a contemporaneidade

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Por Herasmo Braga Rembrandt,  Fausto , 1650.  Aristóteles na  Poética afirma que o imitar é inerente ao ser humano. Se atentarmos para além das questões biológicas, a atividade que o homem mais realiza em sua jornada é interpretar. Podemos considerar sem sobressaltos ou exageros que a trinca de formação da compreensão do sujeito se dará pelas fontes históricas, filosóficas e literárias. Portanto, se a busca por algo é de muito saber, a vigência destes minadouros deve ter suas presenças marcantes. Fausto, seria, portanto, uma imagem significativa da modernidade tão em voga. A Modernidade, então, formou-se tendo como principal característica a centralidade no Eu. Junto a esse Eu-Centro, ao longo dos séculos, foram inseridas maneiras de ser e de se ver em que foi se evidenciando pari passu o acentuamento do Eu e, consequentemente, o apagamento do outro. Desta forma, o imaginário social do sujeito moderno era integrado apenas por maneiras individuais, soberbas, vaidades, e ...

Uma palavra para o Mal

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Por Davi Lopes Villaça No novo Nosferatu (2024), de Robert Eggers, o advogado Thomas Hutter está atravessando o interior de uma bárbara Transilvânia, a caminho do castelo do Conde Orlok, quando, numa noite, depara-se com uma cena sinistra e inexplicável: um grupo de camponeses, guiados por uma jovem nua montada num cavalo, exuma um cadáver e lhe crava uma estaca no peito. Mais tarde, no castelo, ao tocar no assunto com seu sinistro anfitrião, Thomas escuta-o dizer: “Temo que ainda haja por aqui muitas superstições que podem parecer antiquadas para um jovem com seu alto nível de instrução. Estou ansioso para me mudar para sua cidade de mentalidade moderna, que não conhece nem acredita nesses contos de fadas mórbidos”. Não podemos ver o rosto do vilão, mas é como se ele piscasse para a câmera. A ironia é clara: o poder de Orlok, o grande bruxo vampiro, é maior lá onde nada se sabe nem de vampiros, nem de bruxaria, nem de muitas outras coisas. O filme recupera a velha crítica ao iluminis...

Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz

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Por Pedro Fernandes A obra cinematográfica de Karim Aïnouz é vasta e multifacetada. Inclui títulos como Abril despedaçado (2001), Madame Satã (2002), Cidade baixa (2005), Cinema, aspirinas e urubus (2005), O céu de Suely (2006) e Praia do futuro (2014), para referir os filmes mais conhecidos. É óbvio que existe um estilo próprio, como o interesse por personagens descentradas ou dilemas que as mobilizam individual ou mesmo coletivamente. Em alguns dos casos recorrentes é o horizonte de uma existência plena o que elas procuram entre os seus próprios escombros. Encontramos certa parte desse interesse em Rosebush Pruning (2026), que se beneficia do uso livre das várias expressões possíveis no cinema para construir um ensaio descarnado do hedonismo em tempos de alto capital. Diríamos que é a aposta mais ousada de um cineasta mobilizado por alguns interesses caros a cineastas como o Ruben Östlund de Força maior (2014), ou o de Triângulo da tristeza (2022) ou o Yorgos Lanthimos de O ...