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Sinii Karandach e o poema-blecaute

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Por Rafael Bonavina Os últimos anos foram marcados por duas comemorações importantes para a literatura russa: em 2024, o poeta nacional Aleksandr Púchkin completou 225 anos; e, no ano passado, sua maior obra, o romance em versos Evguêni Onéguin , completou seu bicentenário. Os dois eventos receberam relativamente pouca atenção no Brasil,¹ mas na Rússia foram ambos muito importantes. Foram organizadas diversas palestras, cursos, homenagens e até edições comemorativas das suas obras. Em meio a todas essas homenagens, a editora moscovita Individuum lançou um curioso volume do artista urbano Sinii Karandach, intitulado Blecaute ( Блекаут , 2025). A obra trava um diálogo direto com Evguêni Onéguin , cuja capa é reproduzida logo depois da folha de rosto, como parte integrante do livro. Embora o texto de Púchkin seja a base de Blecaute , a intertextualidade entre os dois é extremamente tensa, senão conflituosa, pois Karandach intervém no texto oitocentista por meio do blecaute, isso é, apaga...

Doze poemas de Wendell Berry

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* Wendell Berry. Foto: Kate Mount CÂNTICO (para Robert Hazel) ( Broken Ground , 1964) Não é isto o que a morte significa — o espírito, triunfante na queda do corpo, louvando a sua ausência, alimentando-se de música. Se a vida não consegue justificar-se e explicar-se, a morte não o poderá fazer. Uma crença e um túmulo nunca igualaram a vida do que quer que seja. Flores amarelas despontam nas fendas de pedras antiquíssimas no começo de abril. Os trajes negros dos sacerdotes voltam-se   contra o frágil amarelo da luz e das pétalas; esperam na sua negritude obter alegria pela morte. Confiam que nada de sagrado é gratuito, e assim pagam pelas suas vidas. Caixas com ranhura no gradeamento do altar são a jukebox do mundo, a mente deixando moedas gastas em troca do conforto da ignorância.  POEMA DUMA NOITE DE INVERNO PARA MARY ( Farming: A Hand Book , 1970) Começava a regressar a casa, depois do anoitecer, olhei para o céu e vi a no...

Boletim Letras 360º #710

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Silviano Santiago. Foto: Nilton Fukuda   LANÇAMENTOS Livro apresenta ao público a história de um encontro iniciado em 1971, quando Hélio Oiticica criou o projeto visual para um conjunto de poemas de Silviano Santiago .  Concebido como livro e mantido inédito por mais de cinco décadas, XXXV reúne literatura e artes visuais em uma experiência em que texto, imagem, página e espaço são inseparáveis. A exposição nasce em torno da publicação do livro e recupera os caminhos dessa colaboração, seus documentos, imagens e processos de criação, aproximando du...

Entre o gesto cotidiano e aquilo que permanece quando tudo passa, está o livro Risque esta palavra, de Ana Martins Marques

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Por Weyna Moreira Macêdo  Estamos todos reunidos na praia da palavra infância (Marques, 2021, p. 19). Ana Martins Marques. Foto: Rodrigo Valente de Noronha Risque esta palavra  (2021) é o sétimo livro de poemas de Ana Martins Marques. Dividido em quatro partes — “A porta de saída”, “Postais de parte alguma”, “Noções de linguística” e “Parar de fumar” —, o volume reúne poemas marcados por diferentes formas de despedida: a morte, o fim de um amor, a passagem da infância, o abandono de um hábito e, também, a própria possibilidade de que um poema chegue ao fim. Assim, a unidade do livro está expressa justamente no modo como experiências tão diversas são submetidas a uma mesma atenção à linguagem. Diante disso, o próprio título anuncia uma dessas tensões: “riscar” pode remeter tanto ao gesto de apagar uma palavra quanto ao movimento de riscar um fósforo e, assim, fazê-la iluminar. Entre o apagamento e a aparição, o livro parece investigar aquilo que permanece quando alguma coisa de...

Comentário ao Carmilla, de Sheridan Le Fanu

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Por Afonso Junior  Joseph Sheridan Le Fanu nasceu em 1814 em Dublin, cidade onde viveu até 1814. Pertenceu a uma família de fé anglicana, com acento calvinista. O pai faleceu endividado e a sua biblioteca precisou ser usada para cobrir as dívidas. Felizmente, pode estudar Direito no Trinity College de Dublin e exerceu o jornalismo. É quando as suas histórias de fantasmas vieram junto de romances históricos e outros estilos.  Mas foi com o sobrenatural que Le Fanu ganhou fama dentro e fora do seu país:  Carmilla  (1871-1872), por exemplo, influenciou a criação de Drácula (1897) por Bram Stoker e, graças a ele, as vampiras fazem parte de qualquer reino do gênero que se preze (até mesmo as fantasias mais toscas da heterossexualidade).  O relatório Visum et Repertum  (Visto e Relatado) do médico austríaco Johann Flückinger (de janeiro de 1732), a partir de uma investigação de vampirismo que exumou vários corpos na atual Sérvia (os quais foram de...

India song: o trabalho mais radical de Duras

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Por Lily Droeven  Ao longo de sua carreira, Marguerite Duras dirigiu dezenove filmes adaptados de seus romances. Estreou em 1967 com La musica , que codirigiu com Paul Séban e para o qual escalou Delphine Seyrig no papel principal. No segundo longa-metragem, Détruire, dit-elle (1969), Duras marcou uma virada na sua linguagem cinematográfica ao construir uma atmosfera íntima e profundamente melancólica com diálogos esparsos, longos silêncios e interações puramente simbólicas entre os personagens. Seu terceiro longa-metragem, India song , tornou-se sua obra mais aclamada após sua estreia na seção Fora de Competição do Festival de Cannes em 1975. Duras constrói a história de uma paixão fadada ao fracasso por um ambiente burguês decadente. Ela explora temas como insatisfação feminina, tédio, desejo, morte e culpa colonial. Filmado em um espaço confinado com um elenco mínimo, o filme de Duras é desafiador: deliberadamente carece de uma narrativa convencional e constrói uma linguagem vis...