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Sanatório sob o signo da clepsidra, de Bruno Schulz

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Por Henrique Ruy S. Santos Sentir tudo excessivamente Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas. — Álvaro de Campos Começando em 2019, a Editora 34 empenhou-se na publicação, em português, com estupenda tradução do professor Henryk Siewierski, da ficção de Bruno Schulz, arquiteto, desenhista, professor e escritor polonês do século XX, há muito esgotado no Brasil. São, ao todo, dois livros de contos, o que não configura exatamente uma vasta obra literária (fala-se, ainda, de um romance inacabado e outras produções perdidas), mas o que, ainda assim, deve atrair os devidos louvores ao esforço editorial, uma vez que se trata de um escritor de primeira monta e em cuja prosa se percebe, como terei a oportunidade de comentar, muito do que de melhor se fez na literatura mundial do século XX, em termos de tendências gerais. No ano de 2019, saiu o pr...

Moscou feliz

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Por Davi Lopes Villaça Foi num orfanato que a menina Moscou Ivánovna Tchestnova ganhou nome, patronímico e sobrenome, conforme lemos nas primeiras páginas de Moscou feliz , romance inacabado do escritor russo-soviético Andrei Platónov (1899-1951). O nome, deram-lhe em homenagem à cidade; o patronímico, em memória de Ivan, “um simples soldado russo do Exército Vermelho, caído em combate” (designação de fato coletiva, pois quantos não foram os Ivans que caíram em combate pela Revolução?); o sobrenome, derivado do russo tchéstnyi (puro, honesto), “como sinal da honestidade de seu coração, que ainda não tivera tempo de se corromper” (p. 19). Assim, por esse segundo batismo, o caminho da menina órfã se confunde com o da recém-criada URSS. Filha de todos e de ninguém, imaculada pelo tempo, desligada da História, Moscou, sonhando tornar-se paraquedista, segue os passos de um país que desejou romper todas as amarras com o passado e dedicar-se à construção de uma sociedade inteiramente nova, d...

Maria do Santíssimo: a arte como imanência

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Por Márcio de Lima Dantas Se alguém fosse escrever uma história das artes plásticas no estado do Rio Grande do Norte teria que obrigatoriamente dar o seu a seu dono, ou seja, outorgar o real valor ocupado por Maria do Santíssimo. Em matéria de arte há de se buscar categorias que são da disciplina conhecida como Antropologia do Imaginário. Assim sendo, a pintora de São Vicente teria de ocupar o lugar que lhe compete, uma vez que uma honesta e não adulatória análise da sua profícua e bela obra sugere passar por categorias daquele domínio do conhecimento. Com efeito, Maria do Santíssimo teria de ser considerada como nossa mais importante artista plástica. Por quê? Porque sua obra emana de uma necessidade individual e coletiva de expressão, uma imanência que por finda a força teria de se plasmar ante qualquer empecilho ou vicissitude.  Um filósofo de tradição aristotélica talvez dissesse que as pinturas aparentemente ingênuas de Maria do Santíssimo resultam de uma energia social, busca...

Aforismos de um imoralista

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Por Thiago Teixeira André Gide. Foto: Laure Albin-Guillot O imoralista é o romance em que a influência de Nietzsche mais se faz presente na obra de André Gide. O protagonista Michel leva às últimas consequências o individualismo, o abandono da moral cristã, o desprezo pela fraqueza e pela doença, e positivamente passa a adotar um amor à vida, aos sentidos, aos prazeres, à força, ao corpo. Os valores cristãos são simplesmente substituídos pelos valores de um novo homem, em sentido de plena positividade perante a vida e a ação. Mas quem realmente conhece Nietzsche percebe a presença dele em outros aspectos do récit (Gide não chamava O imoralista de romance, mas de récit ), sobretudo quando se lembra das considerações que ele fazia a respeito da História. Nietzsche pregava uma História que levasse o homem à ação, uma História que não fosse negação da vida, mas afirmação, uma História que, em vez de domesticar o homem, o levasse à invenção, percebendo que a vida é um quadro em branco so...

Boletim Letras 360º #686

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Reinaldo Moraes. Foto: Leo Martins LANÇAMENTOS Neste aguardado romance, Reinaldo Moraes narra, com seu habitual refinamento literário, o encontro de três pessoas em uma única noite em São Paulo, unindo ironia e erotismo para expor sem pudores as fraturas do Brasil . No banco de trás de um táxi, em meio aos protestos de junho de 2013, Kabeto e sua ex-namorada Mina acabam de sair de um bar no centro de São Paulo e seguem a caminho de Higienópolis. Num apartamento descolado, uma jovem atriz, rica e integrante de um grupo de teatro experimental anarquista, está à...

Eco de Dostoiévski: revelações literárias nos diários de Lúcio Cardoso

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Por Juliano Pedro Siqueira  Van Gogh.  L'église_d'Auvers-sur-Oise , 1890. Ao ler os diários do escritor mineiro Lúcio Cardoso, fui grandiosamente surpreendido. Deparei-me com um conjunto de ideias autênticas que supera muito os tradicionais relatos pessoais e de memórias. O diarista escreveu sobre uma variedade absurda de temas, destacando o seu interesse peculiar pela literatura; que vai desde os clássicos até textos sagrados, como os da Bíblia. Divididos entre relatos íntimos e não íntimos, os diários revelam um homem de espírito inquietante e sagaz inteligência. A leitura permite perscrutar a alma transbordante do homem e do escritor, cuja existência era devotada à escrita e à reflexão de questões de corte universal. Através dos diários, Lúcio exerceu um tipo de crítica despreocupada com o julgamento alheio. Seu espaço é soberano e a criatividade está em consonância com a liberdade e a fecundidade do artista; sempre pronto a dar vazão as vozes internas que o sufocava. A es...