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Edgar Allan Poe e a escrita em tempos de algoritmos

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Por Michel Goulart da Silva Édouard Manet. A sombra que flutua no chão . Ilustração para O corvo , de Edgar Allan Poe  Embora mais conhecido por suas obras sombrias, associadas à literatura gótica do início do XIX, Edgar Allan Poe também escreveu críticas e ensaios sobre escrita, literatura e outros temas. Em sua maior parte, esses textos são comentários, alguns dos quais bastante ácidos, sobre escritores que lhe foram contemporâneos. Esses textos, contudo, incluem também ensaios mais densos, como “A filosofia da composição”, publicado em abril de 1846, e “O princípio poético”, publicado postumamente, em agosto de 1850. O primeiro é um texto mais geral sobre as compreensões de Poe acerca do processo de escrita literária e o segundo é uma detalhada descrição do processo de criação de uma das obras mais famosas do escritor, o poema “O corvo”. Em ambos os textos se vê um autor lúcido para com o seu processo de escrita e comprometido com a qualidade literária dos textos que levava a se...

Franz, de Agnieszka Holland

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Por Pedro Fernandes Numa certa passagem de Franz (2025), da cineasta polonesa Agnieszka Holland, uma guia explica a um grupo de turistas em língua francesa que visita o museu dedicado ao escritor localizado em Praga duas instalações colocadas uma ao lado da outra que explicitam por contraste parte significativa da bibliografia dedicada ao estudo da obra kafkiana e a pequena mala com a qual Max Brod conseguiu transportar os papéis do amigo, salvando-os do interesse de destruição recomendado pelo próprio Kafka e das mãos dos nazistas.  Nessa hiperbólica biblioteca acerca da obra, a seção de imagens é mais tímida. No nicho das cinebiografias, por exemplo, repousam o próprio filme de Holland e o do estadunidense Steven Soderberg, Kafka (1991). Se formos mais generosos com a catalogação, podemos acrescentar a minissérie austríaca de David Schalko, também intitulada Kafka (2024). É possível que, numa era de regresso ao culto do autor, as coisas mudem um pouco. As coisas talvez dependa...

Da comunhão entre espécies em Ilhas suspensas, de Fabiane Secches

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Por Douglas Sacramento Fabiane Secches. Foto: Fabio Audi   Quando era pequeno, existia uma regra muito rígida em minha casa, elaborada por meu pai: eu e meus irmãos não poderíamos ter animais de estimação. Cresci sem saber o que era ter um bichinho ou lidar de perto com animais. Meu irmão, porém, sempre quebrou essa regra — teve hamsters e, posteriormente, gatos. Na fase adulta, minha relação com os animais mudou com o tempo. Meu ex-namorado tinha uma gata que passei a considerar uma filha, e, no terreiro de candomblé, minha mãe de santo é dona de muitos animais — galinhas, galos, pombos, passarinhos e patos. O sonho dela é ter um cavalo. Sua relação com os animais perpassa o litúrgico, pois eles são tratados como filhos, têm nomes e vivem numa simbiose entre ela e os Orixás. As relações entre humanos e não humanos constituem o fio de todo o tecido alinhavado por Fabiane Secches em seu romance de estreia, Ilhas suspensas . Mineira, psicanalista e tradutora, a autora é mestra em Teo...

A Odisseia ainda exige o périplo

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Por Felipe Vieira de Almeida  Cy Twombly.  Fifty Days at Iliam  (detalhe) Quando li as primeiras notícias dando conta de que Hollywood filmaria uma nova adaptação da Odisseia , o principal fator de curiosidade para mim foi a escolha do diretor, por conta dele sabia que acabaria indo ao cinema. Meses depois, fui à primeira sessão do filme na única sala do Rio de Janeiro com a tecnologia apregoada por Christopher Nolan, afinal, na pior das hipóteses sairia falando a frase inescapável que todo leitor já se cansou de repetir quando rolam os créditos de uma adaptação literária para o cinema: “O livro é melhor”. Nesse caso, não foi diferente. E, se não escrevo sobre o filme, também não quero perder a oportunidade de escrever sobre o livro. Entre os lugares-comuns que acompanham os clássicos há o verdadeiro mantra— e também cansado —,  de que esses livros não se esgotam e continuam a oferecer novas possibilidades de interpretação a cada geração. Porém, em geral, há nesses l...

Boletim Letras 360º #700

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .    Marília Garcia. Foto: Renato Parada. LANÇAMENTOS A poesia de Marília Garcia em diálogo com as artes plásticas de Mira Schendel . Neste livro-poema, Marília Garcia encara dois tipos de trabalho: de um lado, o trabalho de luto por sua mãe, Lia, e por uma amiga querida, Maria. De outro lado, monotipias de Mira Schendel: trabalhos gravados um a um pelas mãos da artista na fragilidade do papel de arroz. No corpo a corpo com os objetos, imagens e histórias deixados por essas três mulheres, a poeta faz do luto um trabalho concreto, olhando e rondando os vários mistérios que v...

Notas sobre Porventura: finitude, efemeridade e estética do carpe diem

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Por Igor Araújo Antonio Cicero. Foto: Ana Alexandrino. Reprodução a partir de SESC-SP Antonio Cicero nasceu em 6 de outubro de 1945, na cidade do Rio de Janeiro. Foi poeta, filósofo, compositor, crítico literário e ensaísta. No dia 10 de agosto de 2017, foi eleito para a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. Cicero faleceu no dia 23 de outubro de 2024, em Zurique, na Suíça, devido ao agravamento do seu quadro de Alzheimer; vendo-se impossibilitado de realizar as atividades que mais adorava, optou pelo suicídio assistido, prática legalizada no país.  Considero importante destacar alguns aspectos da biografia de Antonio Cicero que dialogam muito com as características da sua criação poética. Primeiro, a sua formação acadêmica. Tanto a sua graduação quanto a sua pós-graduação é na área da Filosofia e esse aspecto acentua um lirismo de predileção filosófica. E, somado a isso, o filósofo-poeta assumiu um tom cerradamente cético sobre a vida, renunciando a qualquer perspectiva esp...