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O projeto abandonado de Ted Hughes

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Por David Medina Portillo  Ted Hughes. Foto: Noel Chanan É quase desnecessário lembrar que a vida e a obra de Ted Hughes (1930-1998) constituíram, em seu tempo, um verdadeiro fenômeno, não apenas cultural, mas também social. Hughes foi talvez o único poeta inglês do século XX considerado uma celebridade, estampando as capas de importantes revistas e veículos de comunicação, nem sempre voltados para a literatura. A origem dessa celebridade é duvidosa, como sabemos. Duvidosa e lamentável, pois obscureceu a voz formidável que anima sua poesia, particularmente a de Crow , um dos livros mais perturbadores já escritos. A vida de Ted Hughes é marcada pela tragédia, uma fatalidade de proporções sobre-humanas. Sylvia Plath cometeu suicídio e também a sua segunda companheira, Assia Wevill, que, tragicamente, morreu ao lado da filha do casal, a pequena Shura de apenas quatro anos de idade. Esses eventos estão diretamente relacionados à criação de  Crow , que Hughes começou a escrever apó...

Notas sobre Um poeta, de Simón Mesa Soto

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Por Aloma Rodríguez   A noite e você . Óscar Restrepo é um poeta, o poeta protagonista de Um poeta , o segundo longa-metragem do cineasta colombiano Simón Mesa Soto. Possui dois livros publicados há muitos anos e uma filha com quem mantém uma relação bastante irregular. Não tem emprego, dinheiro, carro ou casa; vive com a mãe, de quem pega o carro emprestado — apesar das suas constantes e explícitas proibições, “Não pegue meu carro” — e a quem pede dinheiro. Ele tem a promessa de um negócio milionário que envolve um investimento, mas com um retorno que acrescenta vários zeros, tudo certificado pelo governo do Zimbábue. Como Restrepo afirma no filme, ele lida muito mal com “o problema do álcool”: sua primeira vez bêbado o deixa desmaiado na rua — acordando ao som de “La luna en tu mirada”, de Los Zafiros — depois de proferir veementemente uma palestra para outro bêbado sobre a superioridade do poeta José Asunción Silva em relação a todos os outros, especialmente Gabriel García ...

Areopagítica, de John Milton

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Por Amanda Fievet Marques  Para discorrer sobre Areopagítica (1644), de John Milton, convém recompor a disposição da matéria discursiva. Tal qual proposta pelo próprio Milton, pode-se restituir a Areopagítica em quatro grandes demonstrações: I. Exórdio; II. e III. Narração/Argumentação; IV. Epílogo. Essas quatro demonstrações se organizam a partir dos seguintes problemas: os criadores da censura não possuem qualquer identificação com o Parlamento inglês; o estatuto da leitura e o hipotético leitor dos livros censurados; o fato de que o decreto não suprime a existência dos livros escandalosos, pois é impossível pretender o controle absoluto da informação na vida em sociedade; por último, se e como o decreto desestimula a busca da verdade, e provoca impacto prejudicial na produção do conhecimento. A par de que o discurso é deliberativo e tem como objetivo último a revogação do decreto de censura em vigor à época na Inglaterra, pretendo expor as linhas gerais dos argumentos principa...

Diante da manta do soldado, de Lídia Jorge

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Por Gabriella Kelmer Lídia Jorge. Foto: Ana Baião Nas primeiras páginas de Diante da manta do soldado , romance de Lídia Jorge republicado pela Autêntica Contemporânea no ano que passou, os passos dos moradores da família Dias, na altura ainda desconhecida, rumorejam casa afora, “caminhando sem cessar desde a madrugada” (Jorge, 2025, p. 7). São leves, pesados, hesitantes esses passos, e a variabilidade, a característica e a errância de cada um apontam para elementos do enredo ainda encobertos. Cada andar demarca, nesse primeiro ato, a dimensão, o espaço e a essência das presenças que flagra, manifestando o mistério e a fratura que dividem a casa de Valmares. Estou convencida de que apenas esse fragmento da obra é argumento suficiente para recomendar sua leitura. Em dois parágrafos, está presentificada, para o leitor, a humanidade dos seres ficcionais, assim como a imperfeição e a inefabilidade de quem são. A presença orgânica das personagens e as marcas que relembram sua existência pri...

Boletim Letras 360º #699

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Emmanuel Carrère. Foto: Manuel Braun. Reproduzida a partir de The Observer   LANÇAMENTOS Emmanuel Carrère volta ao terreno da memória familiar para reconstruir a saga de seus antepassados, com destaque para a conturbada relação com a mãe, a historiadora Hélène Carrère d'Encausse .  Entre os Carrère, quando as três crianças se reuniam em torno da mãe, diziam que estavam brincando de colcoz , palavra de origem russa que designa as fazendas coletivas soviéticas. Colcoz é a memória de uma família ao longo de quatro gerações, abarcando mais de um século de história, rus...

A Odisseia de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa

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Por Afonso Junior Seguindo o projeto iniciado com A Ilíada de Homero: guia de leitura , Giuliana Ragusa, professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, nos apresenta este guia de leitura da Odisseia , com o mesmo objetivo de oferecer “um comentário para cada canto da epopeia”. O épico, como nos lembra Frederico Lourenço, da Universidade de Coimbra, de 12.109 versos, escritos provavelmente entre os fins do século VIII e o começo do século VII a. C., é um dos mais importantes (e férteis) da história Ocidental. Sua influência é incalculável: Junito Brandão vê no poema o embrião da ideia de culpa e castigo, a hybris , que será a coluna central da tragédia (Brandão, 1989, p. 134). A Odisseia , apesar de sua viagem pelo mundo invisível, parece muito mais próxima de nós e menos conflituosa que o poema-irmão sobre Troia: para mim, parece a face mais recente do comércio marítimo em face da prévia idade das conquistas. Sua estrutura, complexa, começa com a defesa de Od...