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Foto no privado, de Simon Chevrier

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Por Pedro Fernandes Simon Chevrier. Foto: Dorian Prost/ Reproduzido de Perluete . O nosso tempo é o do vazio marcado pelo excesso. Escravos do presente ou das artimanhas do contemporâneo, estamos submetidos à procura incessante pelo excepcional, capaz de nos retirar, ainda que por um instante, do regime do frugal e encontrar qualquer coisa talvez perdida em alguma curva de suas fímbrias. Isso padecemos os que ainda tiveram contato com o mundo perdido; as novas gerações já encontraram o meio de viver a falta do que não viveram macaqueando usos, hábitos, objetos e cultura, fabricando com esses restos o seu próprio tempo. Os perdidos no excesso de presente, saudosistas ou tapeceiros de uma era até agora de inovações duvidosas estão numa mesma barca. Passada a experiência, caímos todos outra vez no mesmo ciclo de vazio, espera e nova frugalidade. É da natureza do simulacro e a interminável lista de afecções psicológicas demonstra como nunca estivemos tão sós, tão tristes, tão espezinhados,...

O sertão da memória em Depois do trovão

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Por Vinicius de Silva e Souza Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada. Depois de construir uma das obras mais consistentes na literatura brasileira contemporânea com os romances O som do rugido da onça e Caminhando com os mortos , Micheliny Verunschk retorna ao Brasil colonial para iluminar um episódio pouco conhecido — a chamada Guerra dos Bárbaros — e investigar a violência constitutiva da formação nacional. O resultado é um romance de extraordinária densidade estética e histórica, que reafirma o lugar de destaque da autora.  O ponto de partida e de chegada da narrativa de Depois do trovão é Auati. Filho de uma mulher indígena e de um frei jesuíta, é levado ainda jovem para integrar expedições militares financiadas pela Coroa portuguesa. Ao longo da narrativa, torna-se Joaquim Sertão, personagem cuja própria identidade condensa as ambiguidades da colonização: indígena e colonizador, vítima e agente da violência, memória viva de um mundo que desaparece enquanto participa de sua...

Percorrendo outras paragens da nação pelo Rio Negro em Um rio sem fim, de Verenilde S. Pereira

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Por Douglas Sacramento   Verenilde S. Pereira. Foto: Gabriela Biló. I Quando o literário serve de insumo para corroborar ou rasurar determinados discursos dados como verdades universais ganha estatuto de documento de uma memória coletiva, seja de grupos sociais e étnicos, seja do próprio país em que o escritor está inserido. Atento a esse movimento, o teórico indiano Homi K. Bhabha, em O local da cultura , discorre que o discurso de nação sempre emprega em seus atos cívicos e na história oficial a ideia de que “somos todos um”, produzindo um sentimento de pertença coletivo. Contudo, um país de modo unívoco é uma falácia, pois aqueles que ocupam as margens sociais experimentam a nação de modo outro. É nesse contexto que Bhabha propõe o conceito de contranarrativa . Para o teórico, essas são narrativas de rasura, que confrontam o discurso totalizante da nação; ao colocar a ideia de nação num campo de disputas, produzem “deslocamento contínuo da ansiedade do espaço moderno irremediave...

As cartas que sobreviveram: Caio F. pede contato a Hilda Hilst

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Por Felipe Vieira de Almeida  A troca de cartas é uma forma de comunicação que não experimentei e sinto que tenha se perdido, em grande medida. A iniciativa ainda é possível, mas, em outro tempo, o uso da carta trazia consigo uma faceta a mais nos relacionamentos de longa (ou dificultada) distância. Senti mais uma vez esse saudosismo pelo que não tive ao ler sobre as missivas trocadas ao longo de uma vida entre Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst com todas as suas idas e vindas.  Falo de  Numa hora assim escura  editado pela jornalista Paula Dip. Amiga pessoal do escritor, ela recebeu o rico volume de cartas trocadas entre o autor e Hilda, a amiga, mentora, confidente e inspiração. Esse material foi salvo por intervenção do poeta Antonio Nahud Júnior, quando a fúria de Hilda Hilst, conhecida por seu temperamento intempestivo e personalidade forte, desejava incinerar tudo passada uma briga com o amigo.  Os papéis felizmente sobreviveram e aparecerem em livro a...

Boletim Letras 360º #698

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Orides Fontela. Foto: Fritz Nagib LANÇAMENTOS Às portas da Festa Literária Internacional de Paraty, a obra de Orides Fontela, homenageada na edição de 2026 do evento, ganha novos acréscimos com dois livros inéditos editados pela Hedra . 1. Conversas: escritos e entrevistas de Orides Fontela  traz quatro textos da poeta, três deles publicados originalmente em periódicos e um inédito. Nesses ensaios e depoimentos, a autora reflete sobre o fazer poético e a relação entre poesia e filosofia em suas dimensões estética, ética e política. O volume reúne ainda quinze entrevistas...

Onde a palavra erra: leitura do “Livro de erros”, de Maria Lúcia Dal Farra

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Por Eliane Santa Brígida Maria Lúcia Dal Farra. Foto: Portal da UFS “A marca suja da vida”¹, não o arrumado, o produzido, filtrado, o milimetricamente, racionalmente editado, manipulado, mas o que escapa. E escapa porque é potente em si e está alheio ao controle, é vivo, extrapola. E por escapar ao pretenso controle o chamamos erro, não reconhecendo que essa força, que resiste aos nossos cálculos, é a própria vida pulsando para além do humano, e dando a este a sua medida, confrontando-o com sua falência, e convocando-lhe a um novo pensar; renovando, no próprio humano, a sua capacidade inventiva, sua potência vital. O erro é motor de mudança, é potencial inventivo, convoca a uma nova perspectiva, nos impulsiona, quando nos tira do lugar confortável — como a poesia de Maria Lúcia Dal Farra².  A poetisa inicia seu Livro de erros  erigindo um pórtico, onde se coloca avisando aos seus leitores: o que o espera do outro lado é essa poesia maldita, desinquietante, que cai sobre o...