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O cavalo de Turim, de Béla Tarr

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Por Hugo Hernández  Béla Tarr pôs fim à sua carreira do cineasta com O cavalo de Turim (2011), vencedor do prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e do Urso de Prata do Júri no Festival de Berlim. O filme ficou como seu testamento. Ele foi um diretor inclassificável, quase um gênero em si mesmo. Segundo o diretor estadunidense Gus Van Sant, ele era “um dos poucos diretores verdadeiramente visionários”; e a obra do húngaro também representa uma influência significativa para o próprio Van Sant.  O cineasta húngaro geralmente evitou a causalidade e a narrativa em três atos: seus filmes oferecem mais do que histórias; são experiências que “se aproximam dos verdadeiros ritmos da vida”, como também afirma Van Sant. Eles exigem mais do espectador do que simplesmente juntar as peças dos eventos apresentados; convidam-no a assumir uma postura ativa (caso contrário, corre o risco de ficar entediado), a se abrir e se aventurar por caminhos menos conhecidos, onde a emoção...

Legado da forma

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Por Thiago Teixeira  Michel de Montaigne. Escola Francesa. Entender o ensaio, este gênero que tanto nos é caro e que, às duras penas, nos esforçamos para cultivar, talvez seja uma boa maneira de iniciar a sequência de textos que passaremos a publicar neste espaço. Isso significa, claro, revisitar o criador do gênero, Michel de Montaigne. Seus Ensaios , publicados em três volumes durante a vida, são a melhor companhia de leitura para quem ama literatura e filosofia. Montaigne escreve como quem conversa com o leitor, mostrando-se por inteiro, em uma sinceridade e franqueza que não encontramos nem mesmo entre os epistológrafos.  Mais do que a imagem de um homem renascentista, moderno, próximo a nós, Montaigne nos legou uma forma de expressão que concorre com a metodologia, visão ou postura científica. Para a entendermos um pouco, a melhor fonte talvez seja o segundo texto do terceiro volume, intitulado “Do arrependimento”, no qual ele deixa claro não estar pintando o retrato...

Percursos fluviais para chegar ao mar em O rio que me corta por dentro, de Raul Damasceno

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Por Douglas Sacramento Raul Damasceno. Foto: Arquivo do escritor. Existem inúmeros filmes e livros que retratam os períodos de descobertas e primeiros amores de adolescentes, jovens e adultos. Sempre fui muito afetado por esse tipo de estrutura narrativa. Acredito — e, depois de muitos anos de terapia, entendo melhor — que, por não ter vivido essas descobertas no tempo esperado, acabei suprindo a falta e descompasso consumindo enredos juvenis, ora felizes, ora nem sempre bem resolvidos. Quando analisamos obras centradas em questões LGBT+ e recortamos seus enredos — e o leitor que parar para pensar com certeza encontrará — sobram bons exemplos que não apresentam o tão esperado “final feliz” recorrente nas histórias que aqui me refiro.  Essas elucubrações me vieram quando estava imerso nos rios narrativos de Raul Damasceno, escritor cearense formado em História,  que, depois de se aventurar na escrita compondo roteiros, apresenta o seu primeiro romance: O rio que me corta p...

Boletim Letras 360º #682

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  William Blake. Thomas Phillips, 1807. National Portrait Gallery, Londres (detalhe). LANÇAMENTOS O regresso por outras vias à obra de um dos mais singulares poetas da literatura .    William Blake foi um visionário que, em conversas espirituais com filósofos, pintores, profetas e poetas, criou uma obra poética e pictórica vigorosa e única, na qual se destacam poemas como “Songs of Innocence and of Experience”, “The Marriage of Heaven and Hell”, “Milton: A Poem in Two Books” e “Jerusalem: The Emanation of the Giant Albion”.  Em Milton: um po...

A recepção da literatura brasileira na França

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Por Márcio de Lima Dantas  Paulo Coelho. Foto: Niels Ackermann Para nós, estudiosos e professores de literatura brasileira no Brasil, que vivemos e pesquisamos aqui na França, nos é extremamente esquisito o fato de Jorge Amado e Paulo Coelho serem os escritores brasileiros mais conhecidos quando se refere à nossa literatura nacional. Quando se fala em literatura brasileira, são os dois únicos nomes que vêm à memória. Fato que só temos a lamentar, pois somos detentores de uma rica literatura, tanto em ficção quanto em poesia, inclusive os nossos grandes escritores já foram traduzidos para a língua de Montaigne. Inicialmente seria bom separar o joio do trigo. Muito bem, Paulo Coelho não é escritor, nem nunca será. No Brasil, não tem o estatuto de escritor, não é  reconhecido por pessoas com um relativo repertório cultural, nem  muito menos pela crítica especializada, que não o tem em conta — e com razão —, como objeto de estudos. Ninguém perde tempo com a obra deste senhor,...

A palavra-legado de Noemi Jaffe

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Por Gabriella Kelmer Noemi Jaffe. Foto: Zanone Fraissat Em Te dou minha palavra , obra publicada pela Companhia das Letras em 2025, Noemi Jaffe desvela-se, na epígrafe, na figura de um mosquito embevecido pela atração incômoda e perigosa de um vulcão em erupção, do qual consegue se afastar atabalhoadamente. A analogia se torna clara à medida que o texto avança, refigurando-se nos trens, nas menções ao campo de concentração, no cotidiano da família judia e trabalhadora do Bom Retiro, no espraiamento identitário por músicas, filmes e livros da menina filha de sobreviventes do nazismo, para quem a cultura e a rebeldia são réplicas potentes. Remanescente de uma vivência autoficcional reelaborada desde os seis, os oito, os onze, os quatorze anos, funciona o passado de vórtice para uma discussão complexa e refrativa do tempo. O mosquito é ela, autora e narradora, mas também a criança que ela foi; o vulcão é o fascínio exercido simultaneamente pela história da catástrofe que resultou na mudan...