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O bordel e a fazenda

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Por Henrique Ruy S. Santos José Donoso. Foto: Arquivo da revista Santiago  (Reprodução) Partindo de uma leitura que força um pouco certas conexões literárias e extraliterárias, o título O lugar sem limites , do segundo romance do chileno José Donoso, poderia muito bem se referir à própria concepção do Boom latino-americano como fenômeno literário. Uma categoria que já nasce a partir de (e para servir a) interesses mercadológicos e que apenas subsidiariamente serve a fins literários, geralmente com imprecisões semânticas e de fronteiras mal delimitadas. Um roteiro pelo qual o viajante leitor transita sem saber se o próximo passo (a próxima obra) guarda algo de familiar com o passo que o precedeu e assim por diante. E é curioso pensar que o próprio Donoso teve um lugar periférico nesse processo, mas foi quem se dedicou a entendê-lo retrospectivamente e de maneira particular em seu   Historia personal del Boom . Não pretendo, aqui, fazer uma radiografia daquele momento, nem...

Você, vosso criado

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Por Rafael Bonavina  Ilia Repin. Prisão de um propagandista (com intervenção) As traduções são criaturas geniosas e irritadiças, pois, embora tenham uma cara harmônica, de produto bem-acabado, às vezes elas escondem discussões antigas, quando não verdadeiras polêmicas. Muitas delas são verdadeiramente fundamentais, outras acabam chegando à estranha conclusão de que traduzir é impossível. E digo estranha por sabermos que os tradutores estão por aí, vivendo de fazer o impossível todos os dias. Desta vez, gostaria de discutir uma das questões que sempre me pareceu incômoda e que, como de costume aqui, está ligada à língua russa: a tradução do pronome de terceira pessoa do plural “ Вы ” ( Vy ). Houve um tempo em que muitos tradutores — e é possível que o leitor tenha encontrado alguns deles em seu trajeto pela literatura russa — preferiam traduzir de maneira mais direta, por assim dizer, usando o desconfortável vós da língua portuguesa. Isso era mais comum nos textos do século X...

Boletim Letras 360º #692

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .    Katherine Mansfield. Foto: Ida Baker   LANÇAMENTOS Duas publicações recentes reanimam a presença da obra de Katherine Mansfield entre os leitores brasileiros: um livro de contos e um de poemas . 1. Domingos de amêndoa . Esta é a maior seleção de contos da autora neozelandesa já publicada no Brasil. Os trinta contos aqui reunidos fogem da repetição tradicional das histórias mais famosas da autora, mostrando outras facetas da sua literatura. A reunião trouxe textos de cada um dos seus livros, sem deixar de fora nenhum período de sua produção. É claro que também...

A vida como experiência literária em O azul também se revolta, de Paulo Gustavo

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Por Raísa Almeida Feitosa Que se compra comprando Poesia? Que carícia, que gozo, que produto, Que abismo, que impostura — roto fruto... Que dor temível — mar sem maresia — Vem se afogar na teia dos incautos? Poesia, perdão, é sol infausto! — Paulo Gustavo (2018) Paulo Gustavo de Oliveira (Recife, 1957) é um poeta e ensaísta com sete livros de poesia publicados, além de um livro de contos e dois de ensaio dedicados à obra de Marcel Proust. Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, ele é membro da Academia Pernambucana de Letras desde 2015 e publica artigos e crônicas periodicamente na Revista Será? . Tendo como referência seu primeiro livro de poemas, Queda para o alto (1979), neste ano de 2026 totalizam-se quarenta e sete anos devotados à literatura, motivo para celebração e divulgação de sua poesia. O azul também se revolta (2018), assim como os títulos que o antecederam, O poder da noite (2004) e Coisas que se quebram (2015), é um livro que apresent...

As máscaras em Osamu Dazai

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Por Amanda Fievet Marques É notável na obra literária do escritor japonês Osamu Dazai, especialmente em As flores da bufonaria (1935) e Declínio de um homem (1948), o trabalho na construção das máscaras. A primeira revela Yozo Oba como bufão, enquanto a segunda realiza o desnudamento progressivo da personagem, conduzindo-o ao estado de homem em ruínas, cujo rosto já não cabe mais em nenhuma máscara. O percurso de Yozo, da pantomima à animalidade, ressalta a função primordial da comédia como mecanismo de sobrevivência nesse caso, bem como sua insuficiência. Com o gesto derradeiro, a queda da última máscara, Dazai emerge e se esvai. A primeira máscara: o bufão O livro As flores da bufonaria (1935) é a prequela do romance Declínio de um homem (1948). A ficção, em ambos, recolhe sua matéria, seus detritos, nas profundezas das sensações e lembranças do próprio Dazai.  No primeiro, Dazai desenvolve o período da internação de Yozo Oba num sanatório após a tentativa de duplo suicídio com...

Godzilla Minus One: o símbolo revisitado

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Por Davi Lopes Villaça  Antes de assistir a Godzilla Minus One (2023), de Takashi Yamazaki, eu já havia assistido a dois filmes com o monstro, ambos americanos: Godzilla de 1998 e Godzilla de 2014. Um mais esquecível do que o outro (embora o primeiro, assistido aos seis anos de idade, tenha me impressionado bastante). Por um longo tempo imaginei que filmes de Godzilla eram, em essência, bobagem. Nalgum momento alguém me contou que o monstro tinha um significado profundo para os japoneses, que ele era uma metáfora para as armas atômicas, mas isso não me parecia melhorar muito as coisas. Então, depois de escutar vários comentários positivos sobre o novo filme, fui ao cinema com amigos na expectativa de me divertir com uma bobagem muito bem produzida. Saí da sala positivamente surpreso, tendo enfim compreendido que, se Godzilla se tornara um monstro tão icônico, isso tinha a ver com sua grande força simbólica, e não apenas com nosso gosto por ver lagartos gigantes quebrando coisas....