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Algumas palavras sobre Orbital, da Samantha Harvey

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Por Vinícius de Silva e Souza Samantha Harvey não poderia ter encontrado título mais apropriado para o seu mais recente e premiado romance. Orbital , que chegou aos leitores brasileiros pela editora DBA, com tradução de Adriano Scandolara, sintetiza a sua composição: muito mais do que apenas se referir a o que os protagonistas estão vivendo, habitando uma estação espacial a milhares de quilômetros distante da Terra, a palavra também refere os movimentos desenvolvidos pela própria narração de um romance de expressão lenta e contemplativa, sempre girando nos mesmos personagens fazendo as mesmas ações. Como um planeta cumprindo os seus ciclos. Os protagonistas são Roman e Anton, da Rússia; Chie, do Japão; Nell, do Reino Unido; Pietro, da Itália; e Shaun, dos Estados Unidos. Tamanha mistura poderia ser um desafio para qualquer escritor, levando em conta o manejo de figuras de culturas tão diferentes entre si. No entanto, é no deslocamento e na variação que Samantha  Harvey contorna as ...

(Re)imaginação é poder nas lentes de Kleber Mendonça Filho

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Por Luis Fernando Novoa Garzon O cineasta Kleber Mendonça Filho só pode ser plenamente entendido em seu impulso e transbordamento glocal — entendido aqui como intersecção de dinâmicas horizontais e verticais, de fixos e fluxos, do universal e do particular. O tempo-espaço que condiciona seu olhar é uma periferia da periferia, em que grassa um cosmopolitismo revirado, assumido na corrosão do cosmopolitismo raso que o subordina. Por isso, são tantas e tão contraditórias as camadas de identificação entranhadas neste Recife que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem de seus filmes. Nesta cidade cindida, o cineasta recompõe trajetos ruinosos e escapes labirínticos e nos induz a saltos para dentro, trazendo à luz recônditos acervos para fazer frente a uma espiral que não para de dilapidar referentes sociais, culturais e cognitivos. A mensagem liminar é que, nos marcos de imaginários coletivos irredimíveis, nada está definido. Isso, em tempos de sobredeterminação financeira e midiática, ...

Bibelôs ausentes na estante em Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei

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Por Douglas Sacramento  Aline Bei. Foto: Isadora Arruda No  Dicionário Michaelis , uma das definições para o verbete  ausência  é “a falta do que se supunha existir”. A ausência, ao analisarmos e interpretarmos essa definição dicionarizada, pressupõe que algo existiu, mas desapareceu de uma hora para outra. Contudo, a sensação de falta permanece como uma constante, ou seja, a presença fantasmática continua a se manifestar. É essa a temática de  Uma delicada coleção de ausências , livro com que Aline Bei encerra a Trilogia Involuntária. A escritora paulistana foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2022, com segundo volume,  Pequena coreografia do adeus , e venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2018, com o primeiro,  O peso do pássaro morto .  Mas, antes de entrar no romance, não consigo me afastar — enquanto leitor afetado pela obra — da minha própria experiência. A ausência também marcou minha relação com o livro. Durante a leitura, eu...

Nunca rimos tão deliciosamente quanto eles. Mikhail Bakhtin e o riso rabelaisiano

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Por Felipe Vieira de Almeida  Gargântua e Pantagruel. Ilustração de André Derain Estávamos preguiçosamente desperdiçando tempo depois de um almoço de domingo quando meu amigo esparramado no sofá da sala me disse “Olha o que eu te enviei” e eu já tinha aberto a notificação. Era o vídeo infame da chefe do Departamento de Justiça dos Estados Unidos defendendo que o bom desempenho do índice DOW ( Over 50 thousand! ) e da NASDAQ ( Smashing records! ) seria o bastante para evitar investigar o caso Epstein e os bilionários, nobres e famosos implicados direta ou indiretamente nos arquivos publicados. Acima do vídeo, o título “The DOW is now below 50K” e  na tarja preta abaixo lia-se “At least we can finally investigate pedophiles again” . Dei uma risada que foi quase só um sorriso enquanto ele me observava rindo feito menino que brinca com fogo; havia um peso naquela piada: era mais uma das muitas derrotas diárias a que somos expostos online. Rimos e em seguida caímos naquele est...

Boletim Letras 360º #680

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Kurt Vonnegut. Foto: Santi Visalli.    LANÇAMENTOS Em obra impressionante, Vonnegut satiriza o papel maléfico do homem comum na política e na guerra Howard Campbell Jr. é um escritor americano vivendo na Alemanha quando o nazismo chega ao poder .   Recrutado pela inteligência militar dos Estados Unidos, ele começa a trabalhar como espião durante a Segunda Guerra Mundial. Por ser um dramaturgo respeitado e casado com uma popular atriz alemã, conquista facilmente a simpatia dos nazistas e oferece seus serviços para disseminar ideias antissemitas....

La vie en rouge: a Medea de Sêneca por Gabriel Villela

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Por Afonso Júnior Ilustração de Guilherme Crivelaro. Cartaz de Medea. O edifício do teatro estava sem luz, com geradores há três dias. Umas calçadas na quadra próxima pegaram fogo, foram abertas pela empresa privada, ficam à vista pedras e terra. Há pouco, uma mulher desapareceu porque sua casa ficou sem luz. Policiais dão aula (e erram o português) porque os pais têm medo e preferem disciplina. Quem será o próximo Nero? O brasileiro tem um pote até aqui de mágoa.  Os monstros de Sêneca também.   Quebrar o clássico é uma tarefa titânica. Existe algo que Gabriel Villela entende, algo sobre o barro do teatro catastrófico, suas rupturas. Trazer uma peça esquecida assim já demonstra sua seriedade.  Qualquer artista que aceite o desafio de montar um Sêneca merece louvores.  Os textos apresentam muitas dificuldades dentro da mentalidade comum de teatro (uma espécie de aristotelismo realista mediano).  São muitas descrições, muitas falas intermináveis, nunca ...