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Areopagítica, de John Milton

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Por Amanda Fievet Marques  Para discorrer sobre Areopagítica (1644), de John Milton, convém recompor a disposição da matéria discursiva. Tal qual proposta pelo próprio Milton, pode-se restituir a Areopagítica em quatro grandes demonstrações: I. Exórdio; II. e III. Narração/Argumentação; IV. Epílogo. Essas quatro demonstrações se organizam a partir dos seguintes problemas: os criadores da censura não possuem qualquer identificação com o Parlamento inglês; o estatuto da leitura e o hipotético leitor dos livros censurados; o fato de que o decreto não suprime a existência dos livros escandalosos, pois é impossível pretender o controle absoluto da informação na vida em sociedade; por último, se e como o decreto desestimula a busca da verdade, e provoca impacto prejudicial na produção do conhecimento. A par de que o discurso é deliberativo e tem como objetivo último a revogação do decreto de censura em vigor à época na Inglaterra, pretendo expor as linhas gerais dos argumentos principa...

Diante da manta do soldado, de Lídia Jorge

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Por Gabriella Kelmer Lídia Jorge. Foto: Ana Baião Nas primeiras páginas de Diante da manta do soldado , romance de Lídia Jorge republicado pela Autêntica Contemporânea no ano que passou, os passos dos moradores da família Dias, na altura ainda desconhecida, rumorejam casa afora, “caminhando sem cessar desde a madrugada” (Jorge, 2025, p. 7). São leves, pesados, hesitantes esses passos, e a variabilidade, a característica e a errância de cada um apontam para elementos do enredo ainda encobertos. Cada andar demarca, nesse primeiro ato, a dimensão, o espaço e a essência das presenças que flagra, manifestando o mistério e a fratura que dividem a casa de Valmares. Estou convencida de que apenas esse fragmento da obra é argumento suficiente para recomendar sua leitura. Em dois parágrafos, está presentificada, para o leitor, a humanidade dos seres ficcionais, assim como a imperfeição e a inefabilidade de quem são. A presença orgânica das personagens e as marcas que relembram sua existência pri...

Boletim Letras 360º #699

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Emmanuel Carrère. Foto: Manuel Braun. Reproduzida a partir de The Observer   LANÇAMENTOS Emmanuel Carrère volta ao terreno da memória familiar para reconstruir a saga de seus antepassados, com destaque para a conturbada relação com a mãe, a historiadora Hélène Carrère d'Encausse .  Entre os Carrère, quando as três crianças se reuniam em torno da mãe, diziam que estavam brincando de colcoz , palavra de origem russa que designa as fazendas coletivas soviéticas. Colcoz é a memória de uma família ao longo de quatro gerações, abarcando mais de um século de história, rus...

A Odisseia de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa

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Por Afonso Junior Seguindo o projeto iniciado com A Ilíada de Homero: guia de leitura , Giuliana Ragusa, professora do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP, nos apresenta este guia de leitura da Odisseia , com o mesmo objetivo de oferecer “um comentário para cada canto da epopeia”. O épico, como nos lembra Frederico Lourenço, da Universidade de Coimbra, de 12.109 versos, escritos provavelmente entre os fins do século VIII e o começo do século VII a. C., é um dos mais importantes (e férteis) da história Ocidental. Sua influência é incalculável: Junito Brandão vê no poema o embrião da ideia de culpa e castigo, a hybris , que será a coluna central da tragédia (Brandão, 1989, p. 134). A Odisseia , apesar de sua viagem pelo mundo invisível, parece muito mais próxima de nós e menos conflituosa que o poema-irmão sobre Troia: para mim, parece a face mais recente do comércio marítimo em face da prévia idade das conquistas. Sua estrutura, complexa, começa com a defesa de Od...

Foto no privado, de Simon Chevrier

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Por Pedro Fernandes Simon Chevrier. Foto: Dorian Prost/ Reproduzido de Perluete . O nosso tempo é o do vazio marcado pelo excesso. Escravos do presente ou das artimanhas do contemporâneo, estamos submetidos à procura incessante pelo excepcional, capaz de nos retirar, ainda que por um instante, do regime do frugal e encontrar qualquer coisa talvez perdida em alguma curva de suas fímbrias. Isso padecemos os que ainda tiveram contato com o mundo perdido; as novas gerações já encontraram o meio de viver a falta do que não viveram macaqueando usos, hábitos, objetos e cultura, fabricando com esses restos o seu próprio tempo. Os perdidos no excesso de presente, saudosistas ou tapeceiros de uma era até agora de inovações duvidosas estão numa mesma barca. Passada a experiência, caímos todos outra vez no mesmo ciclo de vazio, espera e nova frugalidade. É da natureza do simulacro e a interminável lista de afecções psicológicas demonstra como nunca estivemos tão sós, tão tristes, tão espezinhados,...

O sertão da memória em Depois do trovão

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Por Vinicius de Silva e Souza Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada. Depois de construir uma das obras mais consistentes na literatura brasileira contemporânea com os romances O som do rugido da onça e Caminhando com os mortos , Micheliny Verunschk retorna ao Brasil colonial para iluminar um episódio pouco conhecido — a chamada Guerra dos Bárbaros — e investigar a violência constitutiva da formação nacional. O resultado é um romance de extraordinária densidade estética e histórica, que reafirma o lugar de destaque da autora.  O ponto de partida e de chegada da narrativa de Depois do trovão é Auati. Filho de uma mulher indígena e de um frei jesuíta, é levado ainda jovem para integrar expedições militares financiadas pela Coroa portuguesa. Ao longo da narrativa, torna-se Joaquim Sertão, personagem cuja própria identidade condensa as ambiguidades da colonização: indígena e colonizador, vítima e agente da violência, memória viva de um mundo que desaparece enquanto participa de sua...