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O erotismo onírico que expôs os limites do surrealismo francês

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Por Felipe Vieira de Almeida  Georges Bataille. Foto: Hans Hinz Três jovens: o narrador sem nome, Simone e Marcelle, vivem uma sequência vertiginosa de transgressões e profanações pontuadas repetidamente por “objetos equivocados” que retornam e se multiplicam em cenários variados acompanhando em profundidade semiótica aquilo que se abre narrativamente como erotismo desenfreado. Esse é o esqueleto de História do olho , livro assinado originalmente pela corruptela Lorde Auch e escrito pelo francês Georges Bataille. Atribuímos o surgimento do movimento Surrealista à publicação do Manifesto surrealista de André Breton em 1924, vanguarda tanto estética quanto política que, a grosso modo, explorava meios de liberação do inconsciente para alcançar o maravilhoso através de uma revolução tanto estética quanto política. Dentre os célebres embates e proscrições das vanguardas europeias, chama atenção o racha direto entre Breton e Bataille que publicou seu primeiro livro literário, História do...

Boletim Letras 360º #687

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Joris-Karl Huysmans. Foto: Coleção Taponier LANÇAMENTOS Publicado originalmente em 1880, livro considerado um dos destaques na obra do escritor francês Joris-Karl Huysmans chega ao Brasil pela primeira vez . Entre cabarés, cafés, bailes operários e ruas periféricas, Huysmans constrói um mosaico vibrante da Paris do fim do século XIX, marcada pela desigualdade social, pela pressa e pelas constantes mudanças trazidas pela modernidade e pelo progresso. A edição ressalta ainda o diálogo entre literatura, pintura e história, trazendo imagens de artistas como Degas...

A experiência da escrita na obra Tarde, de Paulo Henriques Britto

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Por Raísa Almeida Feitosa Restará  a palavra que deixarmos no fim da nossa história — Paulo Henriques Britto (2007) Paulo Henriques Britto. Foto: Renato Parada Neste ensaio, busco refletir a respeito do modo pelo qual a experiência da escrita é transfigurada em topos na obra Tarde , de Paulo Henriques Britto; também busco traçar alguns caminhos pelos quais sua poética parece percorrer. Primeiro, apresentarei brevemente o autor. Eleito para a Cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras no dia 22 de maio de 2025, Paulo Henriques Britto tem uma carreira consolidada como tradutor e poeta, com nove livros de poesia publicados: Liturgia da matéria (1982), Mínima lírica (1989), Trovar claro (1997), Macau (2003), Tarde (2007), Formas do nada (2012), Nenhum mistério (2018), Fim de verão (2022) e Embora (2026), além da obra que reúne seus poemas escritos entre 1982 e 2018: Por ora – Poesia reunida (2021). Britto é também ficcionista, professor e pesquisador de literatura e traduçã...

Sanatório sob o signo da clepsidra, de Bruno Schulz

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Por Henrique Ruy S. Santos Sentir tudo excessivamente Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas. — Álvaro de Campos Começando em 2019, a Editora 34 empenhou-se na publicação, em português, com estupenda tradução do professor Henryk Siewierski, da ficção de Bruno Schulz, arquiteto, desenhista, professor e escritor polonês do século XX, há muito esgotado no Brasil. São, ao todo, dois livros de contos, o que não configura exatamente uma vasta obra literária (fala-se, ainda, de um romance inacabado e outras produções perdidas), mas o que, ainda assim, deve atrair os devidos louvores ao esforço editorial, uma vez que se trata de um escritor de primeira monta e em cuja prosa se percebe, como terei a oportunidade de comentar, muito do que de melhor se fez na literatura mundial do século XX, em termos de tendências gerais. No ano de 2019, saiu o pr...

Moscou feliz

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Por Davi Lopes Villaça Foi num orfanato que a menina Moscou Ivánovna Tchestnova ganhou nome, patronímico e sobrenome, conforme lemos nas primeiras páginas de Moscou feliz , romance inacabado do escritor russo-soviético Andrei Platónov (1899-1951). O nome, deram-lhe em homenagem à cidade; o patronímico, em memória de Ivan, “um simples soldado russo do Exército Vermelho, caído em combate” (designação de fato coletiva, pois quantos não foram os Ivans que caíram em combate pela Revolução?); o sobrenome, derivado do russo tchéstnyi (puro, honesto), “como sinal da honestidade de seu coração, que ainda não tivera tempo de se corromper” (p. 19). Assim, por esse segundo batismo, o caminho da menina órfã se confunde com o da recém-criada URSS. Filha de todos e de ninguém, imaculada pelo tempo, desligada da História, Moscou, sonhando tornar-se paraquedista, segue os passos de um país que desejou romper todas as amarras com o passado e dedicar-se à construção de uma sociedade inteiramente nova, d...

Maria do Santíssimo: a arte como imanência

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Por Márcio de Lima Dantas Se alguém fosse escrever uma história das artes plásticas no estado do Rio Grande do Norte teria que obrigatoriamente dar o seu a seu dono, ou seja, outorgar o real valor ocupado por Maria do Santíssimo. Em matéria de arte há de se buscar categorias que são da disciplina conhecida como Antropologia do Imaginário. Assim sendo, a pintora de São Vicente teria de ocupar o lugar que lhe compete, uma vez que uma honesta e não adulatória análise da sua profícua e bela obra sugere passar por categorias daquele domínio do conhecimento. Com efeito, Maria do Santíssimo teria de ser considerada como nossa mais importante artista plástica. Por quê? Porque sua obra emana de uma necessidade individual e coletiva de expressão, uma imanência que por finda a força teria de se plasmar ante qualquer empecilho ou vicissitude.  Um filósofo de tradição aristotélica talvez dissesse que as pinturas aparentemente ingênuas de Maria do Santíssimo resultam de uma energia social, busca...