Postagens

Da comunhão entre espécies em Ilhas suspensas, de Fabiane Secches

Imagem
Por Douglas Sacramento Fabiane Secches. Foto: Fabio Audi   Quando era pequeno, existia uma regra muito rígida em minha casa, elaborada por meu pai: eu e meus irmãos não poderíamos ter animais de estimação. Cresci sem saber o que era ter um bichinho ou lidar de perto com animais. Meu irmão, porém, sempre quebrou essa regra — teve hamsters e, posteriormente, gatos. Na fase adulta, minha relação com os animais mudou com o tempo. Meu ex-namorado tinha uma gata que passei a considerar uma filha, e, no terreiro de candomblé, minha mãe de santo é dona de muitos animais — galinhas, galos, pombos, passarinhos e patos. O sonho dela é ter um cavalo. Sua relação com os animais perpassa o litúrgico, pois eles são tratados como filhos, têm nomes e vivem numa simbiose entre ela e os Orixás. As relações entre humanos e não humanos constituem o fio de todo o tecido alinhavado por Fabiane Secches em seu romance de estreia, Ilhas suspensas . Mineira, psicanalista e tradutora, a autora é mestra em Teo...

A Odisseia ainda exige o périplo

Imagem
Por Felipe Vieira de Almeida  Cy Twombly.  Fifty Days at Iliam  (detalhe) Quando li as primeiras notícias dando conta de que Hollywood filmaria uma nova adaptação da Odisseia , o principal fator de curiosidade para mim foi a escolha do diretor, por conta dele sabia que acabaria indo ao cinema. Meses depois, fui à primeira sessão do filme na única sala do Rio de Janeiro com a tecnologia apregoada por Christopher Nolan, afinal, na pior das hipóteses sairia falando a frase inescapável que todo leitor já se cansou de repetir quando rolam os créditos de uma adaptação literária para o cinema: “O livro é melhor”. Nesse caso, não foi diferente. E, se não escrevo sobre o filme, também não quero perder a oportunidade de escrever sobre o livro. Entre os lugares-comuns que acompanham os clássicos há o verdadeiro mantra— e também cansado —,  de que esses livros não se esgotam e continuam a oferecer novas possibilidades de interpretação a cada geração. Porém, em geral, há nesses l...

Boletim Letras 360º #700

Imagem
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .    Marília Garcia. Foto: Renato Parada. LANÇAMENTOS A poesia de Marília Garcia em diálogo com as artes plásticas de Mira Schendel . Neste livro-poema, Marília Garcia encara dois tipos de trabalho: de um lado, o trabalho de luto por sua mãe, Lia, e por uma amiga querida, Maria. De outro lado, monotipias de Mira Schendel: trabalhos gravados um a um pelas mãos da artista na fragilidade do papel de arroz. No corpo a corpo com os objetos, imagens e histórias deixados por essas três mulheres, a poeta faz do luto um trabalho concreto, olhando e rondando os vários mistérios que v...

Notas sobre Porventura: finitude, efemeridade e estética do carpe diem

Imagem
Por Igor Araújo Antonio Cicero. Foto: Ana Alexandrino. Reprodução a partir de SESC-SP Antonio Cicero nasceu em 6 de outubro de 1945, na cidade do Rio de Janeiro. Foi poeta, filósofo, compositor, crítico literário e ensaísta. No dia 10 de agosto de 2017, foi eleito para a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. Cicero faleceu no dia 23 de outubro de 2024, em Zurique, na Suíça, devido ao agravamento do seu quadro de Alzheimer; vendo-se impossibilitado de realizar as atividades que mais adorava, optou pelo suicídio assistido, prática legalizada no país.  Considero importante destacar alguns aspectos da biografia de Antonio Cicero que dialogam muito com as características da sua criação poética. Primeiro, a sua formação acadêmica. Tanto a sua graduação quanto a sua pós-graduação é na área da Filosofia e esse aspecto acentua um lirismo de predileção filosófica. E, somado a isso, o filósofo-poeta assumiu um tom cerradamente cético sobre a vida, renunciando a qualquer perspectiva esp...

O projeto abandonado de Ted Hughes

Imagem
Por David Medina Portillo  Ted Hughes. Foto: Noel Chanan É quase desnecessário lembrar que a vida e a obra de Ted Hughes (1930-1998) constituíram, em seu tempo, um verdadeiro fenômeno, não apenas cultural, mas também social. Hughes foi talvez o único poeta inglês do século XX considerado uma celebridade, estampando as capas de importantes revistas e veículos de comunicação, nem sempre voltados para a literatura. A origem dessa celebridade é duvidosa, como sabemos. Duvidosa e lamentável, pois obscureceu a voz formidável que anima sua poesia, particularmente a de Crow , um dos livros mais perturbadores já escritos. A vida de Ted Hughes é marcada pela tragédia, uma fatalidade de proporções sobre-humanas. Sylvia Plath cometeu suicídio e também a sua segunda companheira, Assia Wevill, que, tragicamente, morreu ao lado da filha do casal, a pequena Shura de apenas quatro anos de idade. Esses eventos estão diretamente relacionados à criação de  Crow , que Hughes começou a escrever apó...

Notas sobre Um poeta, de Simón Mesa Soto

Imagem
Por Aloma Rodríguez   A noite e você . Óscar Restrepo é um poeta, o poeta protagonista de Um poeta , o segundo longa-metragem do cineasta colombiano Simón Mesa Soto. Possui dois livros publicados há muitos anos e uma filha com quem mantém uma relação bastante irregular. Não tem emprego, dinheiro, carro ou casa; vive com a mãe, de quem pega o carro emprestado — apesar das suas constantes e explícitas proibições, “Não pegue meu carro” — e a quem pede dinheiro. Ele tem a promessa de um negócio milionário que envolve um investimento, mas com um retorno que acrescenta vários zeros, tudo certificado pelo governo do Zimbábue. Como Restrepo afirma no filme, ele lida muito mal com “o problema do álcool”: sua primeira vez bêbado o deixa desmaiado na rua — acordando ao som de “La luna en tu mirada”, de Los Zafiros — depois de proferir veementemente uma palestra para outro bêbado sobre a superioridade do poeta José Asunción Silva em relação a todos os outros, especialmente Gabriel García ...