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Oito poemas dos Diários do exílio (volume II), de Yannis Ritsos

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Por Pedro Belo Clara I. (24 de Novembro, 1948) Dia de pedra, palavras de pedra. Lagartas trepam pela parede. Um caracol, a casa às costas, aparece à tua porta pode ficar ou pode partir. Tudo é como é. É nada. Esse nada não é macio. É feito de pedra. II. (25 de Novembro) Os nossos estão longe. Escasseiam as cartas. As moscas estão a morrer de frio. Vemo-las cair no chão, Mais tarde varremo-las. III.  (14 de Dezembro) Uma Segunda-feira feita de neve Terça-feira a continuação da Segunda  nada começou nada terminou. O remo quebrado o sino que anuncia o temporal um guarda-chuva —  a eterna desconfiança da hipocrisia. As vozes assumem sempre a postura de um cadáver sem sapatos.  * Afinal, aos mortos nada lhes falta. IV. (4 de Janeiro, 1949) E de súbito a lembrança dos pássaros que mergulharam no desconhecido.  V. (22 de Janeiro) Pousou a fronte sobre a mesa onde está o pão calmo como uma estátua entre glória e morte. VI.  (25 de Janeiro) Por um instante a parede ...

Boletim Letras 360º #688

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Mary Oliver. Foto: Kevork Djansezian LANÇAMENTOS Antologia reúne três livros de Mary Oliver. É a primeira vez que a poeta é publicada no Brasil .   Caminhar, sentir, observar, meditar, anotar: esses talvez sejam os verbos que definem a obra de Mary Oliver (1935-2019). No ambiente disputado da poesia estadunidense das últimas décadas, sua lírica forte e clara, talhada no convívio intenso com a natureza nos arredores de sua casa, conseguiu ocupar um lugar de raro destaque, fazendo dela uma das escritoras mais premiadas e de maior popularidade de seu país. ...

A palavra que resta e as simultaneidades dos tempos

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Por Herasmo Braga Stênio Gardel. Foto: Fernanda Oliveira A diversidade de textos aos quais os sujeitos são apresentados no cotidiano gira não mais na ordem do exagero, mas além dela. Ao delimitar uma área mais específica, como a de realizações ficcionais, a quantidade também não será menor. Então, ser seletivo é mais do que uma obrigação, beira a uma sobrevivência para aqueles que exercem a potencialidade de suas inteligências associada ao campo da qualidade estética. Nesse contexto, pode-se evidenciar a obra de Stênio Gardel, A palavra que resta . Seu ponto significativo é o louvável trabalho da configuração dos tempos em meio às suas simultaneidades. É importante lembrar que a qualidade de uma obra literária não reside apenas no bom ou excelente uso da linguagem. De fato, esse é um dos princípios fundamentais, todavia, não o maior. Há outros aspectos que devem ser levados em conta e na tessitura deles é que se poderá destacar a qualidade ou a precarização de uma obra. Pode-se mencion...

Te dei olhos e olhaste as trevas, de Irene Solà

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Por Sérgio Linard Irene Solà. Foto: Pere Virgili O trabalho de quem se propõe a escrever literatura é sempre árduo e arenoso, porque, a conquista, por exemplo, de uma boa obra circunda aquilo que ainda virá sob a mesma rubrica. A comparação com o que já se fez não deixa de ser um caminho possível e viável para a leitura, mas não se pode esquecer que a tocha com a chama olímpica a passar de mão em mão também receberá digitais novas daquele que voluntariosamente a carrega. No papel de críticos literários, precisamos, pois, olhar para trás, porém sem ignorar que o retrovisor é um dos acessórios possíveis para o foco e não o único. Assim como a literatura está sempre neste limiar, a crítica deve, também, saber equilibrar-se nesta corda bamba.  A simples comparação direta entre o primeiro romance de Solà, Canto eu e a montanha dança  e Te dei olhos e olhaste as trevas  que agora resenhamos levar-nos-ia a um veredito: aquele foi melhor desenvolvido do que este. Mas ao olharmos ...

La grazia, de Paolo Sorrentino

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Por Pedro Fernandes É possível que com La grazia (2026), Paolo Sorrentino tenha alcançado um filme capaz de disputar entre os espectadores e a crítica o até agora inatacável lugar de destaque ocupado por A grande beleza (2013) em sua filmografia. É uma obra articulada com temas e interesses caros ao cineasta italiano, sóbria e ao mesmo tempo ousada pela maneira como dispõe de elementos tão diversos em um mesmo espaço, conseguindo o estranhamento, mas nunca a desarmonia, mantendo do início ao fim uma rara elegância, para nos referir a um termo pinçado a certa altura de um diálogo entre o protagonista, o presidente Mariano De Santis, com o seu ministro da justiça Ugo Romani. A personagem de Toni Servillo encontra-se a seis meses do fim do mandato e numa ampla encruzilhada de decisões que começam a aparecer em cena com a necessidade de assinar (ou não) o projeto continuamente adiado da lei de eutanásia na Itália. Em um país situado entre acompanhar a abertura progressista do ocidente e ...

“Sofro mais por ser gorda”: sobre queda, cadeira e corpo gordo em Infinita, de Camila Maccari

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Por Douglas Sacramento Camila Maccari. Foto: Theo Tajes A citação que compõe o título desta resenha é de Preta Gil, falecida em 2025 em decorrência de um câncer, retirada de uma entrevista concedida à Veja Rio em 2017. Ao se afirmar como mulher negra, bissexual e gorda, a cantora conclui que sofre mais por não estar em consonância com o estereótipo feminino imposto pela sociedade — um corpo magro e esbelto, tomado como sinônimo de beleza e reiterado a todo instante, basta abrir a rede social mais próxima. Assim, entre as diversas violências que podem marcar sujeitos definidos por tantas categorias sociais, o fato de um corpo não ser espelho do que é socialmente apropriado traz consigo experiências recorrentes de exclusão.  São essas demandas, apontadas pela cantora há quase dez anos, relacionadas à experiência de ser uma mulher gorda nessa sociedade, que a escritora Camila Maccari, natural do Rio Grande do Sul, toca em seu livro mais recente, Infinita (Autêntica Contemporânea, 202...