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Sobre meninos e o fantástico em A estranha máquina extraviada, de José J. Veiga

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Por Douglas Sacramento No livro O menino na literatura brasileira (Perspectiva, 1988), Vânia Maria Resende dedica um capítulo à presença da criança na obra de José J. Veiga. A autora aponta que a criança, inserida no universo fantástico das narrativas do escritor  goiano, está em contextos opressores, cerceada da liberdade que se espera nesta fase da vida. O realismo fantástico surge como escape, destoando de uma realidade tão crua e, por vezes, violenta. Assim, essas especificidades são caras ao projeto literário de Veiga. Essa relação, além de outros temas, é encontrada na literatura de José J. Veiga, reconhecida três vezes o Prêmio Jabuti (1981, 1983 e 1993). Com uma obra vasta, que transita entre o romance e o conto, ele é considerado um dos principais nomes do realismo mágico no Brasil. Desde 2014, os livros de Veiga, , outrora esgotados nas livrarias do país, têm sido reeditados. A publicação mais recente é A estranha máquina extraviada (2026), que, aliás, já integrava...

Censura por omissão

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Por David Toscana  Ilustração de um cartão-postal antigo mostrando a censura, com um editor russo esmagado pelas novas regras introduzidas durante a Revolução Russa, por volta de 1917. Bob Thomas/Popperfoto via Getty Images Óssip Mandelstam disse que em nenhum país a poesia era tão importante como na Rússia, porque de onde tinha vindo podiam matar por causa de alguns versos. Na verdade, o poeta compôs um poema nada lisonjeiro para Stálin e recitou-o entre amigos, uma vez que nunca teria obtido permissão para o publicar. Acabou exilado na Sibéria, onde morreu de fome, de frio ou das duas coisas, e seu corpo foi jogado sabe-se lá onde. Esse país tem uma longa tradição de censura, desde os czares aos comunistas, e isso continua ainda em nosso tempo, na era Putin. Mas ali, como em quase todos os lugares, já não se procuram censurar os poetas, pois a censura de fato ocorre por falta de leitores. Hoje, os poetas são livres para lançar seus versos ao vento. Por mais que nós, escritor...

Boletim Letras 360º #711

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Vladimir Nabokov. Foto: Horst Tappe   LANÇAMENTOS Um dos romances mais delicados de Vladimir Nabokov, acompanha a formação de um jovem emigrado russo que atravessa a Europa em busca de pertencimento, amor e sentido. Uma narrativa sutil sobre desejo, exílio e as ilusões da juventude, escrita por um dos grandes estilistas da literatura do século XX . Martin Edelweiss é um jovem sem grandes planos ou ambições. Ele vive com a mãe e um tio numa propriedade na Suíça, depois de terem escapado da Revolução Russa. Sensível, reservado e dotado de um espírito poéti...

Doença e genialidade: o espírito trágico de Adrian Leverkühn em Doutor Fausto

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Por Juliano Pedro Siqueira Doutor Fausto , de Thomas Mann, é considerado, tanto pela crítica quanto por ele mesmo, como a obra da velhice. O grande empreendimento romanesco exigiu-lhe esforço hercúleo, custando-lhe sacrifícios físicos e intelectuais. A entrega sem medida culminou na versão mais melódica e filosófica da lenda do Fausto, colocando-a, talvez, em nível de paridade com o clássico poema trágico de Goethe. Em A gênese do Doutor Fausto: romance sobre um romance  — sua obra póstuma e autobiográfica —, Mann relata o percurso intelectual que o conduziu a escrever o romance de 1947. Segundo o romancista, o projeto é fruto do acúmulo de leituras e escritos, os quais reuniu por anos. A ideia de transformar os materiais disponíveis em forma de romance ocorreu-lhe quase que acidentalmente, quando estava finalizando a tetralogia, José e os seus irmãos . Naquela altura, o autor era um septuagenário, e seu vigor físico oscilava continuamente. Além do ofício de escritor, possuía uma v...

O surrealismo pletórico de Marosa di Giorgio

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Por Felipe Vieira de Almeida  Quem já se arriscou na leitura do Marquês de Sade descobre o erotismo do francês como quase alheio ao aspecto pornográfico e sedutor esperado tradicionalmente do erótico no sentido em que usa imagens sexuais, narra toda sorte de perversão sem, no entanto, permitir ao leitor se realizar com o que lê da mesma forma que o faz com escritas mais comerciais com este tema.  No Brasil, Hilda Hilst é outro exemplo nesse sentido. Escritora que flertou com o gênero e encontrou na ironia um veio rico em possibilidades subversivas dos clichês dessa literatura aos quais ela dizia se render, mas que, em realidade, ressignifica-os.  Nessa vertente, que é a da verdadeira criação literária, uma escritora uruguaia publicada na Coleção Sete Chaves — constituída por obras da literatura erótica — apresenta uma linguagem erótica desconcertante, cheia de vida e francamente estranha. A autora é Marosa di Giorgio e o livro Rosa mística . Trata-se de uma coletânea de c...

Passarinho que se debruça — o voo já está pronto! Considerações na biografia de João Guimarães Rosa por Leonencio Nossa (I)

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Por Herasmo Braga Como bem enaltecido por grande parte da crítica e dos leitores, a espera por uma biografia à altura de João Guimarães Rosa chegou ao fim. Possivelmente, não a definitiva, mas, com certeza, entre as melhores. O sertão está em toda parte na prosa de Leonencio Nossa, e no seu interior encontrou e teceu o escritor mineiro. Desmitificou o gênio e humanizou o criador imaginativo que muito viveu e dialogou com tudo que o identificou. Entre as inúmeras possibilidades presentes no livro, delimitam-se algumas considerações sobre o fazer literário em Guimarães Rosa. Neste primeiro momento, destacaremos a memória em três acepções contempladas no livro de Nossa: a memória criadora, a memória regionalista como matéria-prima para as narrativas e a memória como processo de autoconhecimento ficcional e real. O biógrafo apresentou, por meio de pesquisas, imagens, trechos das obras e de outros documentos, os caminhos que levaram o autor de Grande sertão: veredas a ser detentor de ...