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A marquesa de Sade, de Rachilde

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Por Amanda Fievet Marques  Rachilde. Reprodução Franceinfo Do leite, a tradição louvou a inocência. No romance A marquesa de Sade (1887), da escritora francesa Rachilde — pseudônimo de Marguerite Eymery —, rubro, porém, é o leite que ingere diariamente Caroline, a mãe tísica e moribunda da pequena Mary.  O romance se inicia no trajeto feito a pé, na cidade de Clermont-Ferrand, da casa até o abatedouro, pela prima Tulotte, bem mais velha, e a pequena Mary, de sete anos. A prima leva numa mão a menina e, na outra, uma lata branca onde outrora se armazenava o leite. A criança, até aquele momento, entende apenas que naquele estabelecimento, “iam buscar leite toda tarde” (Rachilde, 1996, p. 5, tradução minha). As circunstâncias convergem, todavia, para que Mary comece a suspeitar do que ali se oculta. A mente da pequena, propensa a se indagar, põe-se involuntariamente a escrutinar o significante. O texto instaura, desde as linhas iniciais, uma linguagem de matadouro, que disputa c...

O aniversário, um alerta anti-Trump

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Por Ernesto Diezmartínez  No início de O aniversário  ( Anniversary ,   Estados Unidos, 2025), o oitavo longa-metragem do diretor polonês Jan Komasa, a respeitada professora Ellen Taylor (Diane Lane), catedrática da Universidade de Georgetown, esclarece e declara, diante de um grande grupo de alunos que ouvem atentamente sua aula/ palestra, que não é “nem liberal nem conservadora”, algo como o equivalente estadunidense do “não sou nem de direita nem de esquerda” que vemos nas nossas redes sociais. A verdade é que, quando alguém afirma não ser nem liberal nem conservador, provavelmente está tentando esconder suas verdadeiras inclinações políticas, o que acaba sendo absurdo porque, mais cedo ou mais tarde, essa aparente “neutralidade” será questionada. No caso da professora Taylor, não demora muito para percebermos que, muito além de sua hipócrita posição centrista, a mulher madura, mãe de quatro filhos e esposa de Paul (Kyle Chandler), um chef de sucesso, é uma verdadeira ...

Das elaborações do luto em Vida doçura, de Natércia Pontes

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Por Douglas Sacramento Natércia Pontes. Foto: Renato Parada/ Reprodução a partir de O Povo . I A vida de professor tem dessas: ao final da aula, ficam estudantes tirando dúvidas, enquanto os atrasados querem saber o que foi dito e explicado antes de chegarem. Num certo dia, um desses permaneceu e me fez um pedido: queria que eu escrevesse a introdução para o livro que iria publicar. Disse que aceitaria e pedi que me enviasse via e-mail. No mesmo dia, ao chegar em casa, me deparei com sua mensagem e o arquivo anexado. No meio do mês, quando as coisas estavam menos aceleradas, peguei o texto para ler. Era um livro híbrido entre prosa e poesia, escrito por um estudante estrangeiro, que girava em torno da elaboração do luto pela morte da mãe, falecida às vésperas de sua saída do continente africano rumo ao Brasil. Li e comecei a escrever a introdução. Noutro desses encontros ao fim da aula, perguntei sobre o luto e a figura materna. Ele encerrou a conversa de forma assertiva, dizendo que t...

A mulher de Gilles e a releitura feminista de Bourdouxhe

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Por Felipe Vieira de Almeida  Madeleine Bourdouxhe Élisa é a esposa de um trabalhador da indústria pesada belga, criando duas filhas gêmeas e grávida novamente quando descobre que o marido, Gilles, mantém um caso com a irmã mais nova dela. É a partir desse enredo simples que a escritora belga Madeleine Bourdouxhe constrói a narrativa do livro A mulher de Gilles , título ambíguo cujo duplo sentido do título originial foi mantido pela tradutora Monica Stahel — Élisa é tanto esposa quanto propriedade de Gilles. O livro de Bourdouxhe foi publicado originalmente pela prestigiada editora Gallimard em um momento de valorização da literatura belga no meio literário francês após Charles Plisnier ter sido agraciado com o Prêmio Goncourt em 1937. Apesar da estreia auspiciosa em casa de renome, a obra, que teve recepção positiva com elogios muito direcionados ao estilo, perdeu força sob o rótulo de literatura proletária e chegou a ficar fora de catálogo durante anos.  Bourdouxhe participo...

Boletim Letras 360º #704

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Vinicius de Moraes. Foto: Otto Stupakoff   LANÇAMENTOS Obra recupera os mais de quarenta anos da lírica de Vinicius de Moraes, incluindo publicações de circulação restrita, além de poemas esparsos e inéditos . “O poeta tem o coração claro das aves/ E a sensibilidade das crianças”, escreve Vinicius de Moraes em seu primeiro livro, O caminho para a distância , publicado em 1933. A estreia, marcada pelo tom metafísico e religioso, anuncia uma trajetória única, inteiramente dedicada à poesia e aos seus desdobramentos. Com organização e apresentação de Eucanaã Ferr...

Por que há cada vez menos sexo nos romances?

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Por Javier Pérez Ilustração de A Book of Roxburghe Ballads   Alguns artigos precisam começar com uma fórmula ritualística, como se estivéssemos prestes a invocar nada menos que o próprio diabo. Assim vamos: há um pouco de tudo. Em quase todas as épocas, romances são escritos com mais ou menos sexo, com mais ou menos violência, e como o número de títulos publicados é astronômico, para cada dez exemplos que eu dou em uma direção, você pode encontrar outros dez que contradizem a tese. Há um pouco de tudo, e não se pode generalizar. Fique isso dito, e os cascos do bode já estão aparecendo atrás do teclado. Parece funcionar. Minha tese, no entanto, é que na literatura atual há menos sexo, e um sexo mais contido, do que na das últimas décadas. Minha experiência também indica que os editores estão cada vez mais inclinados a solicitar a remoção de certas cenas ou a torná-las mais “refinadas”, suprimindo alusões genitais explícitas, pedindo que se escreva carícias em botões rosados em vez d...