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As troianas, de Sêneca

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Por Afonso Junior Eurípides encenou As troianas (Troades) em 415 a. C. refletindo sobre acontecimentos da Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), em especial do massacre ateniense da rebelde ilha de Melos (416 a. C.): todos os homens foram mortos e todas as mulheres e crianças escravizadas.  Na era neroniana, coberta de sangue, quatro séculos mais tarde, a guerra era o eixo fundamental da Roma Imperial (a conquista da Gália por César, por exemplo, sempre foi vista como um genocídio), e a escravidão seguia sendo um pilar do sistema; contra os maus tratos com os escravizados, Sêneca mesmo advogou em suas cartas (por exemplo, Epístolas 47 e 95).  Neste tempo todo, outras obras sobre o tema da queda de Troia surgiram e com certeza moldaram o imaginário de Sêneca: a Andrómaca Cativa de Énio e Astíanax de Ácio, desaparecidas, além do impacto das obras de Virgílio e Ovídio. O resultado é uma sensibilidade propriamente romana, onde a dor se expressa fisicamente, a humilhação é exercid...

Memórias em poesia e prosa

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Por Chumbo Pinheiro  Rizolete Fernandes é uma caraubense, socióloga e escritora que traz nas veias o lápis, parafraseando aqui o que diz Clauder Arcanjo, escritor membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. A cronista e poeta com uma obra significativa para a nossa literatura, como Cotidianas (crônicas) e Tecelãs (poesia), entre outras, trouxe a lume Alguidar de memórias pinceladas .  Em História e memória , Jacques Le Goff, ao iniciar sua discussão sobre a memória, apresenta a importância e a significação em diversos campos das ciências deste fenômeno humano. Neste sentido, ao aproximar a memória da escrita refere Pierre Janet, para quem “o ato mnemônico fundamental é o comportamento narrativo ” e este “se caracteriza antes de mais nada pela sua função social, pois que é comunicação a outrem de uma informação, na ausência do acontecimento ou do objeto que constitui o seu motivo”, inteira, com Florès. (p. 367).  O autor de História e memória  ainda complemen...

Caetano Veloso hoje: nos palcos, nos bastidores (parte 1)

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Por Lucas Paolillo Muitos artistas, músicos, cineastas e pensadores compreenderam que estavam em uma situação na qual ideólogos reacionários infamavam — por meio de livros, sites e artigos de jornal — qualquer tentativa de superar a desigualdade, associando políticas socialmente progressistas a um tipo de pesadelo venezuelano, gerando o medo de que os direitos das minorias corroessem princípios religiosos e morais ou simplesmente doutrinando as pessoas na brutalidade através do uso sistemático de linguagens depreciativas. A ascensão do Sr. Bolsonaro como uma figura mítica corresponde às expectativas criadas por esse tipo de ataque intelectual. Não se trata de uma troca de argumentos: aqueles que não acreditam na democracia agem de maneiras insidiosas — Caetano Veloso. em “Dark times are coming for my country” (2018), tradução livre. En la lucha de clases todas las armas son buenas  piedras  noches poemas — Paulo Leminski, Polonaises (1980). Considerando os ecos do meu próprio...

O bordel e a fazenda

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Por Henrique Ruy S. Santos José Donoso. Foto: Arquivo da revista Santiago  (Reprodução) Partindo de uma leitura que força um pouco certas conexões literárias e extraliterárias, o título O lugar sem limites , do segundo romance do chileno José Donoso, poderia muito bem se referir à própria concepção do Boom latino-americano como fenômeno literário. Uma categoria que já nasce a partir de (e para servir a) interesses mercadológicos e que apenas subsidiariamente serve a fins literários, geralmente com imprecisões semânticas e de fronteiras mal delimitadas. Um roteiro pelo qual o viajante leitor transita sem saber se o próximo passo (a próxima obra) guarda algo de familiar com o passo que o precedeu e assim por diante. E é curioso pensar que o próprio Donoso teve um lugar periférico nesse processo, mas foi quem se dedicou a entendê-lo retrospectivamente e de maneira particular em seu   Historia personal del Boom . Não pretendo, aqui, fazer uma radiografia daquele momento, nem...

Você, vosso criado

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Por Rafael Bonavina  Ilia Repin. Prisão de um propagandista (com intervenção) As traduções são criaturas geniosas e irritadiças, pois, embora tenham uma cara harmônica, de produto bem-acabado, às vezes elas escondem discussões antigas, quando não verdadeiras polêmicas. Muitas delas são verdadeiramente fundamentais, outras acabam chegando à estranha conclusão de que traduzir é impossível. E digo estranha por sabermos que os tradutores estão por aí, vivendo de fazer o impossível todos os dias. Desta vez, gostaria de discutir uma das questões que sempre me pareceu incômoda e que, como de costume aqui, está ligada à língua russa: a tradução do pronome de segunda pessoa do plural “ Вы ” ( Vy ). Houve um tempo em que muitos tradutores — e é possível que o leitor tenha encontrado alguns deles em seu trajeto pela literatura russa — preferiam traduzir de maneira mais direta, por assim dizer, usando o desconfortável vós da língua portuguesa. Isso era mais comum nos textos do século XI...

Boletim Letras 360º #692

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .    Katherine Mansfield. Foto: Ida Baker   LANÇAMENTOS Duas publicações recentes reanimam a presença da obra de Katherine Mansfield entre os leitores brasileiros: um livro de contos e um de poemas . 1. Domingos de amêndoa . Esta é a maior seleção de contos da autora neozelandesa já publicada no Brasil. Os trinta contos aqui reunidos fogem da repetição tradicional das histórias mais famosas da autora, mostrando outras facetas da sua literatura. A reunião trouxe textos de cada um dos seus livros, sem deixar de fora nenhum período de sua produção. É claro que também...