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As marcas do vampiro em Virgínia mordida, de Jeovanna Vieira

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Por Vinícius de Silva e Souza Em seu romance de estreia, Jeovanna Vieira consegue algo invejável: pegar o leitor e deixá-lo incapaz de não concluir o livro — algo que, recentemente, me aconteceu apenas com A vegetariana , de Han Kang. Virgínia mordida , à primeira vista, parece um romance nichado, mas é justamente nesse aspecto que reside sua principal qualidade: o ritmo próprio e sua narrativa, que é a história de uma mas também de tantas pessoas ao mesmo tempo.  Como os começos dos feminicídios nesse tempo recordes, o começo da história é quase o mesmo: uma mulher presa em um relacionamento abusivo que escala até os níveis mais extremos. Nos casos midiatizados, quase todas as vezes, fatais. Não é o caso de nossa protagonista. Por mais verossímil que fosse, uma narrativa de abuso e machismo concluir-se com a morte da protagonista, a vítima, com muita facilidade ficaria esvaziada de sentidos para além da denúncia, por isso, sabiamente, Jeovanna escala, sim, o relacionamento qu...

Pai mãe irmã irmão, de Jim Jarmusch: (três) poéticas do cotidiano

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Por Juanma Ruiz  Imagine uma frase rabiscada às pressas em um caderno de anotações: “Dois irmãos se reencontram com os pais”. Com essa simples premissa, qualquer diretor poderia compor uma história. Pelo mesmo preço, em Pai mãe irmã irmão, Jim Jarmusch constrói três. A fórmula narrativa não é nova, e o próprio Jarmusch já a havia utilizado antes, assim como muitos outros cineastas. Um exemplo particularmente revelador: no filme Noutro país (2012), de Hong Sang-soo, uma história se desenrola diante do espectador na forma de um tríptico: três histórias possíveis sobre três personagens femininas diferentes, todas com o mesmo nome (Anne) e interpretadas pela mesma atriz (Isabelle Huppert). Em cada uma das narrativas, uma Anne diferente chega a uma pequena cidade coreana para passar alguns dias, mas sempre com uma motivação diferente. E ao seu redor, diversos elementos se repetem, às vezes com alterações sutis, às vezes mais evidentes. Na música, a variação é uma técnica de composição ...

Julio Cortázar, no princípio foi a poesia

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Por José María Plaza Julio Cortázar, 1972. Foto: Gisèle Freund Se alguém quisesse hoje se aproximar da magnífica obra e figura de Julio Cortázar de forma bastante completa (embora não exaustiva), eu recomendaria três livros: o romance O jogo da amarelinha , uma ampla seleção de seus contos (dispersos por tantos títulos, importantes e menos conhecidos) e sua poesia. Não devemos esquecer que Cortázar começou a escrever poesia aos 12 anos, e a poesia (a sua poesia) está entrelaçada, de uma forma ou de outra, em seus contos e até mesmo em seus romances.  Existem inúmeras edições de O jogo da amarelinha e de seus contos, mas sua poesia durante muitos anos foi escassa de encontrar. O único livro do gênero que sobreviveu foi uma edição ilustrada de Pameos y meopas , da editora Nórdica, que por sua vez era uma reimpressão desse pequeno livro publicado pela coleção Ocnos em 1971 e que nos deu a oportunidade de vislumbrar o poeta Cortázar, já que ele era visto anteriormente apenas como um f...

Shakespeare sob a lupa do século da razão

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Por Teresa Galarza Ballester   “Se não pode vencê-lo, edite-o” poderia ser o lema secreto de um editor, ou de alguém insatisfeito com o que escreve, mas com uma ideia de como escrever bem. E também poderia ter sido o lema não oficial do Iluminismo quando este se deparou com os textos de William Shakespeare. O século XVIII, tão sensato, tão cético — o que poderia fazer com um dramaturgo que desconsiderava as unidades aristotélicas e tinha a audácia de misturar o sublime com o cômico? Editá-lo, é claro. Como Jonathan Bate aponta em The Genius of Shakespeare  (1997), editar Shakespeare não era simplesmente uma questão de restaurar o texto; era uma questão de aprimorá-lo. Para entender o fenômeno das adaptações e revisões do século XVIII, é útil começar com um fato curioso: Shakespeare era celebrado apesar de si mesmo. No auge do racionalismo e da estética neoclássica, os temas abordados por sua obra — a ambição, a paixão, a loucura, o conflito entre dever e desejo — continuavam a...

Boletim Letras 360º #676

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DO EDITOR Uso deste breve espaço para agradecer aos autores que até o dia 25 de janeiro enviaram as suas candidaturas para os novos colunistas no Letras e estendo este obrigado a você, leitor, que de alguma maneira ajudou na divulgação desse chamado.  Desde o dia 26, este espaço regressou ao curso normal das suas atividades: com publicações diárias e este boletim com as seções criadas em algum momento depois de inventada essa coluna.  Uma marca dos 19 anos online é continuar a oferecer possibilidades de ficar mais próximos dos nossos leitores, o maior desafio numa era de bolhas e de dispersões. De todo jeito, tenta-se. Por isso, o Letras foi parar no WhatsApp, depois de alguma solicitação dos que não usam o Telegram. Para seguir basta clicar aqui .  E, finalizo com um lembrete essencial — permanente: na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter o Letras . A sua ajuda continua valiosa p...

A Ilíada de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa

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Por Afonso Junior Os estudos clássicos passam por uma crise. A formulação de Werner Jaeger de que Homero, como “mestre da humanidade inteira”, demonstra o dom especial dos gregos para chegar à “formulação daquilo que une e move todos nós” ( Paideia , 1936), nos mostra como envelheceu o mito do “grego como modelo da cultura”, do qual a Europa bebeu para seus próprios impérios. Se as epopeias sobrevivem, é porque são maiores e mais fortes (também mais multiétnicas) que esse brilho falso.   É um texto central e, ao mesmo tempo, precisamos de um Guia. Uma vez, fiz uma obra teatral com a Ilíada . Um desafio, e não apenas a multiplicidade de enredos dos quais fala Aristóteles. Há algo no poema de distante e estranho. Seus valores são anteriores até mesmo à subjetividade. A Odisseia , provavelmente retrato da era dos comerciantes, é cheia de magia, monstros e gente como a gente, mas a Ilíada é a era das lutas por terras, saque de riquezas e colonização. Ainda falta muito tempo para que S...