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Julian Barnes: o inesgotável diálogo

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Por Mauricio Montiel Figueiras  Julian Barnes. Arquivo Harry Ransom Center Entre as muitas constelações literárias que iluminaram as últimas décadas do século XX, poucas são tão singulares quanto aquela que a revista Granta reuniu em 1983 sob um nome que o tempo transformou em lenda: o dream team das letras britânicas. Esse time incluía nomes destinados a ocupar um lugar central na literatura contemporânea e entre eles se destacava Julian Barnes, dono de uma voz única que navegou pelas águas do romance, do conto e do ensaio com uma elegância que raramente perde de vista sua bússola irônica. A atribuição do Prêmio Princesa das Astúrias em 2026 confirma uma trajetória que, por décadas, tem sido parte essencial do panorama da literatura europeia. A extensa obra de Barnes se ergue sobre a convicção inabalável de que a memória, a história e a arte são territórios sujeitos a um incessante processo de reinterpretação. Seus livros percorrem esses domínios com uma combinação muito particu...

De Tebas às areias de Arrakis: Édipo e Paul Atreides, marionetes do destino

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Por Rafael Pontes Max Ernst, Oedipus Rex   As profecias sempre fizeram parte do imaginário popular das antigas civilizações espalhadas pelo globo. Algumas previam bênçãos e glórias, ao mesmo tempo que anunciavam pragas, guerras, sangue e morte. Assim como as raízes de uma árvore, essas visões proféticas se espalhavam e penetravam na mente dos povos, moldando decisões, alimentando esperanças e despertando medos. Não eram simples palavras proferidas pela boca de um sábio, mas forças capazes de trazer o auge e a queda ao mesmo tempo. Como reflexo das inquietações humanas, a literatura apropriou-se desse imaginário profético por meio de icônicas obras, como a tragédia de Macbeth (1623), de William Shakespeare, na qual a ambição do protagonista é despertada pelas previsões proferidas pelas três bruxas. Suas ações e seus ideais foram simplesmente abandonados ao ouvir o futuro dito por elas. A partir desse momento, o protagonista se transforma em um ser irreconhecível, um homem diferente...

Boletim Letras 360º #703

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .   Selma Lagerlöf LANÇAMENTOS   Há muito sem uma obra inédita entre os leitores brasileiros, chegou a vez de conhecer algo a mais de Selma Lagerlöf, a primeira escritora reconhecida com o Prêmio Nobel de Literatura . Publicado em 1899, A lenda de uma casa senhorial  é um livro sensível e inusitado. A narrativa acompanha a trajetória de Gunnar Hede, um estudante de Uppsala que ama acima de tudo a música. Jovem herdeiro e violinista talentoso, Gunnar é acometido por uma sequência de infortúnios que acaba por conduzi-lo à loucura. Após perder a fortuna d...

A cartografia poética de Micheliny Verunschk

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Por Davy Douglas Fernandes Micheliny Verunschk. Foto: Fabio Seixo O título aqui não é escolhido por puro acaso. Micheliny Verunschk mapeia espaços físicos e líricos em contato com um personagem central que carrega consigo paralelos de dor e desejo, ausência e presença: a noite. Em Cartografia da noite (2010), a ciência cartográfica não é um mero elemento fabulatório, mas um princípio poético tão bem elaborado, dentro de uma obra tão coesa, que a experiência de leitura se assemelha a uma narrativa, desde o uivo da noite até o nascer do sol: “O sol/ devolve/ cada coisa/ que a noite/ furtou” (Verunschk, 2024, p. 163). Tal fato não surpreende, considerando o excelente trabalho que Verunschk apresenta como romancista, sendo oportuno destacar a obra com qual foi reconhecida com o Prêmio Jabuti, O som do rugido da onça (2011), assim como os romances Caminhando com os mortos (2023) e Depois do trovão (2025).  Além disso, a autora pernambucana é mestre em Literatura e Crítica Literária ...

Odisseu e o amor que tudo suporta

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Por Juliano Pedro Siqueira  Marc Chagall, Odisseu e Penélope   A Odisseia , o grande épico de Homero, nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos dias. Isso se deve à extravagante divulgação da adaptação da epopeia para o cinema pelo renomado diretor britânico Christopher Nolan. O longa-metragem tem dividido a opinião do público e da crítica em geral. Muitos o acusam de ter sido desleal ao texto homérico, pois teria fugido em demasia da sua proposta original, da seleção das personagens e até na construção dos cenários. Independentemente das controvérsias — proposital ou não — que cercam o trabalho do diretor, trata-se apenas de uma adaptação e não de uma tradução fidedigna. Distanciando-me das polêmicas de momento — deixo essa enfadonha tarefa aos críticos de cinema e aos formuladores de opinião —, o épico em voga despertou-me à memória um dos cantos mais brilhantes da Odisseia ; quando Odisseu defende sua fidelidade à Penélope diante de Calipso. O Canto V apresenta Odiss...

As outras Odisseias

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Por Ernesto Diezmartínez Cena de L'île de Calypson , de Georges Méliès. Uma curiosidade inevitável: a primeira adaptação cinematográfica da Odisseia , o poema épico situado na fundação da literatura ocidental, foi realizada por Georges Méliès, não apenas verdadeiramente o primeiro diretor de cinema, mas um autêntico taumaturgo cinematográfico: o primeiro a compreender a nascente sétima arte como uma máquina de ilusões, truques e maravilhas. Em L'île de Calypso: Ulysse et le géant Polyphème (1905), realizado apenas dez anos após a invenção do cinema, Méliès funde dois episódios da epopeia de Homero em um filme imaginativo, em plano-sequência, no qual Odisseu — o próprio Méliès — rejeita a ninfa Calipso enquanto enfrenta Polifemo, o monstruoso Ciclope, filho de Poseidon. Desde essa primeira abordagem cinematográfica, houve pouco mais de trinta adaptações diretas de todo tipo e natureza, além de muitas outras abordagens à emblemática jornada do herói concebida pelo poema épico e ...