Moscou feliz
Por Davi Lopes Villaça Foi num orfanato que a menina Moscou Ivánovna Tchestnova ganhou nome, patronímico e sobrenome, conforme lemos nas primeiras páginas de Moscou feliz , romance inacabado do escritor russo-soviético Andrei Platónov (1899-1951). O nome, deram-lhe em homenagem à cidade; o patronímico, em memória de Ivan, “um simples soldado russo do Exército Vermelho, caído em combate” (designação de fato coletiva, pois quantos não foram os Ivans que caíram em combate pela Revolução?); o sobrenome, derivado do russo tchéstnyi (puro, honesto), “como sinal da honestidade de seu coração, que ainda não tivera tempo de se corromper” (p. 19). Assim, por esse segundo batismo, o caminho da menina órfã se confunde com o da recém-criada URSS. Filha de todos e de ninguém, imaculada pelo tempo, desligada da História, Moscou, sonhando tornar-se paraquedista, segue os passos de um país que desejou romper todas as amarras com o passado e dedicar-se à construção de uma sociedade inteiramente nova, d...