Postagens

A montanha, de José Luís Peixoto

Imagem
Por Pedro Fernandes José Luís Peixoto. Foto: Pedro Nunes A montanha é o romance em que José Luís Peixoto regressa a um modelo narrativo explorado a partir de Livro, muito embora os sinais de sua prática possam ser registrados em obras anteriores, como em Cemitério de pianos . Por isso mesmo, quem pelo menos leu os livros até agora referidos, ou ainda Autobiografia , outro título da mesma linhagem, não deixará de se perceber tomado por um certo déjà vu ou apostar e mesmo acreditar em algum momento que o escritor se beneficia de uma chave antiga para acessar o objeto de sempre disfarçando-o como novidade. É necessário, para contornar essas reações, dar a volta ao curso das várias peças até a última entrada desse livro-arquivo para se descobrir simultaneamente diante de uma obra que, sim, acrescenta qualquer coisa a um modelo já conhecido, sem cair, por uma astúcia adquirida da experiência com a escrita, na repetição pura e simples. Embora não seja possível, como é comum a um texto dess...

A Odisseia, ou a única viagem

Imagem
Por Francisco J. Tapiador  Flaxman. A matança dos pretendentes , 1880.  A Odisseia de Homero é importante porque é o nosso relato do mito. Do único mito. Todos os outros são ramificações deste. Mas o mito do retorno de Odisseu à sua terra natal também é importante para nós porque é o nosso. Em outras culturas, em outras tradições, a mesma história é contada de uma forma facilmente compreensível, mas nossos valores e nossa civilização vêm do mundo da Odisseia , e isso importa, porque para entender um mapa, é preciso conhecer uma legenda cujos símbolos são arbitrários. O Mahabharata é uma maravilha, e o relato das viagens de Baiame em um dos Tjukurpa  dos aborígenes australianos é fascinante (perdoem-me, eu queria escrever: “dos povos aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres”, mas o corretor ortográfico inteligente do Vim não me deixou). Contudo, essas histórias praticamente não nos ajudam a alcançar o objetivo da nossa existência mortal como ocidentais que se prezam...

Um lirismo contemporâneo: resenha de “Tudo azul vividamente vermelho”, de Brenda Andujas

Imagem
Por Wesley Sousa De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo Ana Martins Marques, “Açucareiro”. In: Das artes das armadilhas Brenda Andujas. Foto: Arquivo da editora Patuá. A poeta e crítica de arte Marina Tsvetáeva (1892-1941), no conhecido texto intitulado “O poeta e o tempo”, afirma que o poeta é uma figura adstrita à contemporaneidade, não como adesão ao presente histórico de caráter empírico, mas como negatividade interna do tempo que transcorre. Noutros termos, o poeta habita o tempo para resistir à sua absolutização ou uma rigidez cronológica, preservando na linguagem o que excede o histórico. Nas palavras da autora: “A contemporaneidade do poeta não existe porque ele proclama seu tempo como sendo o melhor de todos, nem porque simplesmente lhe agrada” (Tsvetáeva, 2022, p. 64). De fato, um ponto a ser notado é que ser contemporâneo , aqui, não significa escrever “sobre” acontecimentos do presente imediato do mundo. Ainda que a obra esteja vinculada a eles,...

Sobre “Novelário de Donga Novais” e os livros indispensáveis para o leitor de Autran Dourado

Imagem
Por Alfredo Monte ¹   Autran Dourado. Foto: Sophie Bassouls O tear das intrigas: o mundo... Duas Pontes Há alguns anos comentei o reaparecimento de Novelário de Donga Novais , de Autran Dourado, publicado originalmente em 1976 (e depois reeditado pela Guanabara). Porém, a Francisco Alves, a editora que na altura relançava as obras do grande autor mineiro, entrou em falência e sumiu do mercado, e algumas delas nem foram distribuídas às livrarias, ao que parece. Portanto, é agora que outra casa assumiu a reedição da obra inteira de Dourado que o leitor pode ter acesso a um dos textos mais surpreendentes, fascinantes e extraordinários (sei que esses adjetivos são muito usados, mas poucas vezes tão verdadeiramente como neste caso) da literatura brasileira contemporânea.²   Novelário de Donga Novais se passa em Duas Pontes, cidade-universo que é o palco da maior parte das narrativas de  Dourado. Seu Donga é o ancião janeleiro de Duas Pontes, de idade indefinida (“Ele não ...

Seis poemas de Li Bai (Li Po)

Imagem
Por Pedro Belo Clara (Seleção, versões e notas)*  TRÊS COM A LUA E A MINHA SOMBRA Com um jarro de vinho sento-me junto às árvores floridas. Bebo sozinho — onde estão os amigos? Ah, a lua do alto olha para mim; Chamo-a e levo a minha taça à sua luz. Observa: lá vai a minha sombra diante de mim. Hoo! Somos uma festa a três, digo eu; Embora a pobre lua não possa beber, E a sombra só dance em meu redor, Somos todos amigos esta noite, O bebedor, a lua e a minha sombra. Que a nossa festa seja digna da primavera! Eu canto, a lua selvagem vagueia pelo céu. Eu danço, a minha sombra segue aos tropeções. Enquanto despertos, entremos na pândega;  Apenas a doce embriaguez nos poderá separar. Juremos uma amizade que nenhum mortal conhece, E amiúde saudemo-nos ao entardecer, Muito além do vasto e vaporoso espaço!  OS CORVOS AO CAIR DA NOITE¹  Num crepúsculo de nuvens amarelas, Os corvos procuram seus ninhos na muralha da cidade. Os corvos voam para casa, crocitando Uns para os outr...

Boletim Letras 360º #675

Imagem
DO EDITOR Olá, leitores! Desde o dia 11 e até o dia 25 de janeiro estão abertas as inscrições de candidaturas para novos colunistas no  Letras . Se você escreve sobre livros, literatura e áreas afins e quer participar do nosso projeto,  saiba por aqui  todas as informações necessárias de como enviar a sua proposta.   E, para não perder o costume, relembro que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que permaneçamos online. Ah, a nossa programação de encontros diários e as edições completas deste Boletim regressam a partir de 26 de janeiro. E eis outra novidade: o Letras conta agora com um grupo no WhatsApp. Se você quiser aderir para ser um dos primeiros a receber esta e outras publicações, a exemplo do que já acontece no Telegram, então o caminho é por aqui .  Lisa Ridzén. Foto: Gabriel Liljevall LANÇAMENTOS Um romanc...