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Masuaki Kiyota imprimia fotos com a mente e/ou Mutarelli escrevia uma vida com a literatura

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Por Felipe Vieira de Almeida Lourenço Mutarelli. Foto: Karime Xavier Por mais bem estabelecido que Lourenço Mutarelli seja como escritor, quando leio seu nome me vem à cabeça a capa do livro A máquina de fazer espanhóis , de Valter Hugo Mãe, de 2011, editado pela Cosac Naify. Nessa edição, a ficha catalográfica fica no final do livro e, só depois de ter lido tudo e ver por acaso quem assinava a capa, nunca esqueci a pertinência daquele trabalho. Mais de uma década depois, recebo um exemplar cedido por esse site para resenhar o livro mais recente do autor, Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos , editado pela Companhia das Letras. Este é antes de tudo um frenesi de memórias, pesadelos, imagens, sobreposições e... fantasmas, tanto subjetivos quanto propriamente ditos no enredo. O livro começa como termina, logo após atingir uma voltagem altíssima, entretanto, o leitor também aprende a ler ao longo do processo. O início me pareceu lento e confuso, personagens que não são que...

Boletim Letras 360º #691

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .    Paulo Hecker Filho.   LANÇAMENTOS Redescoberta após mais de seis décadas, uma das novelas mais divertidas, inusitadas e originais da literatura brasileira .  Um dos livros cult mais bem-guardados da literatura brasileira, O digno do homem  (1957) retorna em formato de bolso pela Editora Ercolano e confirma Paulo Hecker Filho como um escritor capaz de provocar, divertir e desestabilizar com a mesma intensidade. A novela acompanha Justino, um homem convicto de que possuir o maior do mundo  é condição para se tornar verdadeiramente digno de ser homem. ...

Setembro negro, de Sandro Veronesi

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Por Sérgio Linard  Sandro Veronesi. Foto: Matilde Fieschi No Brasil, o primeiro contato da maior parte dos leitores, inclusive deste que escreve, com a obra de Sandro Veronesi se deu com o excelente O colibri (obra também já resenhada para este blog). Certamente, o romance mais recente alcança o leitor com mais facilidade, pois já traz impresso em sua capa a chancela do prêmio Strega de 2020; um recurso comum do jogo mercadológico. Faz parte. Registro, também, que a ordem de publicação das obras no Brasil ocorreu de forma inversa ao andamento original da obra do escritor. Diante disso, posso dizer que o movimento de se encantar com a narração de O colibri tem conduzido os leitores na busca por mais obras do autor e chegam em Setembro negro .¹ Trata-se do percurso que todo escritor deseja: o de que sua obra sirva como “propaganda” para sua própria obra. Para o caso de autores multifacetados e inventivos como Veronesi, isso pode esbarrar na pouca abertura do leitor justamente para es...

A loucura como topos da literatura e da filosofia

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Por Thiago Teixeira  A imagem resulta escandalosa porque desafia o princípio de contradição  (Octavio Paz) Sean Layh. Tragical Historie of Hamlet, Prince of Denmark. 2025 Estamos lendo Duns Scoto, filósofo escolástico medieval, e ele está enfrentando o maior desafio para um filósofo: responder às provocações céticas. E ele as enfrenta assim:  “Se objetares que, se a imagem sensível pode apresentar-se como um objeto; portanto o intelecto, em virtude deste erro da faculdade da imaginação, pode errar ou pelo menos ser impedido, de tal maneira que não possa operar como acontece nos sonhos e com os loucos; pode-se responder que, embora o intelecto seja impedido quando há tal erro na faculdade da imaginação, no entanto, nesta circunstância, o intelecto não erra porque não exerce nenhum ato.” Ele está respondendo ao argumento do engano dos sentidos, que se desdobra no argumento do sonho, da embriaguez e da loucura. Os céticos (especificamente os acadêmicos) questionam a nossa ca...

Literatura e psicanálise e as narrativas constitutivas

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Por Herasmo Braga Xenia Gray Costuma-se mencionar, mesmo quando não se tem contato com as suas realizações literárias, que Charles Baudelaire foi um dos primeiros grandes artistas a perceber a degradação do homem contemporâneo diante das ações entusiasmadas da modernidade. Essa observação evidencia a capacidade dos textos ficcionais, quando dotados de valores significativos, de verem longe: tanto os processos históricos quanto os caminhos degenerativos das subjetividades dos indivíduos.  Interessante observar quando Arthur Schopenhauer, em O mundo como vontade e representação , ao fazer referência ao véu de Maya, aponta para a dificuldade humana de examinar a realidade com nitidez. Aquilo que se vê não se apresenta com segurança suficiente para afirmações categóricas. Assim, mesmo em um gesto de busca da compreensão, dotado de repertório, reflexões e experiências, tais elementos não se mostram suficientes para afirmações peremptórias, o que dizer quando se está desprovido de tudo i...

Adriano Wintter e a poesia de Sobre a queda de uma pétala

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Adriano Wintter. Foto: Arquivo do escritor A poesia de Adriano Wintter Por Benedito Costa Neto Tenho pesquisado a brevidade na poesia após ter lido Orides Fontela. A brevidade não é uma invenção da poeta ou da pós-modernidade (numa época em que a brevidade poderia ser entendida como uma resposta artística à noção de tempo no Antropoceno) e sim um recurso de longa e complexa história. Dos fragmentos que nos legaram pequenos trechos do período clássico (o que tenho chamado de “óstracons ”), em que a brevidade é involuntária, passando por certa poesia mística do fim do medievo, feita para que monges tenham acesso a uma mística complexa, até as recentes, historicamente falando, leituras e adaptações de textos poéticos extremo-orientais (em particular a poesia chinesa e a japonesa), a brevidade se faz presente como forma e como processo, como método e como discurso. Também ao contrário do que se imagina, a brevidade não é simples. No caso das línguas latinas, há a contagem de sílabas na...