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Teofonia pombalina

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Por Eduardo Galeno Planta do século XVIII na missão de São Miguel Arcanjo, redução jesuíta no Rio Grande do Sul. Domínio público. Ante   Na prática letrada setecentista, Basílio da Gama ocupa um lugar específico. Perseguido juridicamente pelo Estado português assim como Gregório de Matos pelas autoridades da Bahia, isso mesmo o faz ser uma figura muito central para explicarmos as contradições entre um homem formado pelos jesuítas, principal corpo político inimigo de Portugal no meio do século XVIII, e um súdito subordinado às leis divinas da teologia imbricadas nas leis civis pró-Coroa. O que se pode obter, na tarefa de elucidar uma questão que não é só histórica mas igualmente poética, é que seu continente é o conteúdo público, se for para falar assim. A raiz neoclássica poderia fantasiar já com o corte do valor de troca? Possivelmente: no acordo de virada da segunda modernidade e no seu protesto à metafísica aristotélico-tomista, a porteira da novíssima poesia se abriria para os ...

Ler Kadosh e entender Kadosh é ser Kadosh

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Por Felipe Vieira de Almeida Hilda Hilst. Foto: Irmo Celso Na tela do Cinema da Praça em Paraty, Hilda ganhava vida buscando contato com os mortos, vagando pela chácara em Campinas que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst. Uma senhora HH, encarnada pela atriz Luciana Domschke, com microfone, fones de ouvido e gravador tentava detectar alguma frequência de origem incerta. O título do filme de Gabriela Greeb é um acerto: Hilda Hilst pede contato . Lembro de ter conhecido os livros de Hilst poucos meses antes do anúncio da Flip 2018, àquela altura tinha lido com sede tudo que estava facilmente acessível nas livrarias e até garimpado alguns títulos fora de impressão em sebos. Ainda estava sob forte influência dessas leituras quando a a organização do evento de Paraty anunciou HH como homenageada naquele ano e me vi obrigado a ir, Hilda pedia contato. Hilda Hilst ainda é mais conhecida do público geral por sua obra dita despudorada que é, quando lida superficialmente, resumida a algum tipo d...

Boletim Letras 360º #683

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DO EDITOR O leitor que frequenta as nossas redes sociais terá descoberto antes deste boletim, a nossa alegria de anunciar neste Dia Mundial da Poesia uma novidade que acrescentará, certamente, às fronteiras do Letras . Nosso projeto se junta ao Observatório da Poesia Contemporânea, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco. A partir de abril, o leitor terá ao seu dispor uma série de publicações interessadas em responder e discutir uma variedade de questões que marcam isso que temos chamado de poesia contemporânea : resenhas de livros de e sobre poesia, ensaios críticos interessados em problematizar a lançar alguma luz no vasto campo da criação poética em nosso tempo etc.  Reitero o convite. Aproveite para seguir a página do Observatório no Instagram   e esteja atento ao Letras  e também às nossas redes. Continuaremos a dedicar a atenção que sempre demos à força de toda criação literária. Agora, um pouquinho mais, é verdade. Na aquisição de qualquer um dos li...

Casas de cultura, praias e livros

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Por Rafael Bonavina Charles Burchfield, Deserted House , 1918 Aceleração. Essa parece ser a palavra de ordem ao se tratar da cultura, que cada vez mais se assemelha a algo para aliviar rapidamente um desconforto, como um chiclete que se masca, embrulha e joga fora. Cada vez os vídeos estão mais curtos, mais estridentes e dinâmicos (mais danças, músicas, luzes e apupos), porém o conteúdo — produzido pelas chamadas inteligências artificiais —fica para as legendas, que raramente são lidas.  Não é raro ouvir que a literatura está se desenvolvendo também nessa linha: textos cada vez menores (microcontos, micropoesias) divulgados nas redes sociais com vídeos gravados pelos próprios autores. Isso não significa, claro, que uma literatura menos acelerada tenha deixado de existir, e até mesmo de tocar em questões importantes da atualidade. Pelo contrário, são muitos os textos que nos levam à incômoda reflexão sobre as limitações e contradições do nosso tempo. Ainda assim, eles acabam perdido...

O colibri, de Sandro Veronesi

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Por Sérgio Linard  Sandro Veronesi. Foto: Gianni Cipriano “Quantas pessoas estão sepultadas dentro de nós?” (p. 319) Esta pergunta poderia resumir perfeitamente o ótimo romance O colibri , do italiano Sandro Veronesi. Esta história, que se apresenta ao leitor de maneira não linear, garantiu ao autor, o segundo na história do prêmio, a receber por duas vezes o importantíssimo Strega. O título da obra e a justificativa dele, exposta já nas primeiras páginas, não sinalizam que o apanhado deste romance seria o de uma história do luto em vida ou, talvez, de uma vívida morte.  Na literatura contemporânea — com destaque especial para a europeia — a exploração da multiplicidade de formas dentro do gênero romance tem sido bastante comum. A plasticidade do gênero permite manifestações textuais das mais diversas e com o acréscimo rotineiro de textos da era da informação: a carta deu lugar ao e-mail; o bilhete, à mensagem de WhatsApp; e as grandes descrições que definiam algo deram lugar ...

O cavalo de Turim, de Béla Tarr

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Por Hugo Hernández  Béla Tarr pôs fim à sua carreira do cineasta com O cavalo de Turim (2011), vencedor do prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e do Urso de Prata do Júri no Festival de Berlim. O filme ficou como seu testamento. Ele foi um diretor inclassificável, quase um gênero em si mesmo. Segundo o diretor estadunidense Gus Van Sant, ele era “um dos poucos diretores verdadeiramente visionários”; e a obra do húngaro também representa uma influência significativa para o próprio Van Sant.  O cineasta húngaro geralmente evitou a causalidade e a narrativa em três atos: seus filmes oferecem mais do que histórias; são experiências que “se aproximam dos verdadeiros ritmos da vida”, como também afirma Van Sant. Eles exigem mais do espectador do que simplesmente juntar as peças dos eventos apresentados; convidam-no a assumir uma postura ativa (caso contrário, corre o risco de ficar entediado), a se abrir e se aventurar por caminhos menos conhecidos, onde a emoção...