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Uma ressonância de Dostoiévski em Boca de ouro

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Por Rafael Bonavina  O solitário , Oswaldo Goeldi. Seria muito difícil negar a influência que Fiódor Dostoiévski teve sobre Nelson Rodrigues, tão difícil que poderíamos nos eximir da tarefa de apontá-la. Mas, para quem ainda não a conhece, basta nos remetermos à crônica “Uma banana como merenda”, em que ele nos diz: “Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ‘O que é que você leu?’. Respondi: ‘Dostoievski’. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ‘Que mais?’. E eu: ‘Dostoievski’. Teimou: ‘Só?’. Repeti: ‘Dostoievski’. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.” (p. 37-38) A fi...

Sobre Gestos utópicos em labirintos distópicos: uma inquietação

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Por Lucas Paolillo Nos laboratórios da criatividade individual, uma alquimia revolucionária transforma em ouro os metais mais vis da vida cotidiana. Trata-se antes de tudo de dissolver a consciência das coações, ou seja, o sentimento de impotência, por meio do exercício sedutor da criatividade: derretê-los no impulso criador, na afirmação serena do seu gênio. A megalomania, tão estéril no plano da corrida por prestígio do espetáculo, representa neste caso uma fase importante na luta que opõe o eu às forças coligadas do condicionamento. Na noite do niilismo que atualmente nos envolve, a fagulha criadora, que é a centelha da verdadeira vida, brilha com maior fulgor. E enquanto o projeto de uma melhor organização da sobrevivência aborta, existe, na multiplicação dessas fagulhas que pouco a pouco se fundem em uma única luz, a promessa de uma nova organização baseada desta vez na harmonia das vontades individuais. O devir histórico nos conduziu à encruzilhada na qual a subjetividade radical...

Ensaios do desespero, de Antonio Puppin

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Por Gabriella Kelmer Na epígrafe que antecede os contos de Ensaios do desespero , de Antonio Puppin, o poeta cristão San Juan de La Cruz afirma que “lloraré la morte ya/ y lamentaré mi vida”, versos a serem associados a um plano existencial de pecados. A escolha pela citação desdobra-se logo na presença da morte, matizada como irrupção violenta, dispositivo adormecido e fadiga existencial, sendo ela um dos temas a atravessar as nove narrativas curtas que compõem a coletânea, e no lamento incessante pela vida. A menção do título ao desespero é, nesse sentido, vinculada ao modo como cada conto introduz situações que, se não angustiantes em si mesmas, têm a morte e a dor existencial como limiar. O tom ensaístico é presente, por sua vez, em narrativas como “Fortuna”, “O outro” e, em especial, “Desespero e eternidade”, a apresentarem narradores em primeira pessoa cuja permanência no plano das ações é ocasional (sendo aliás inexistente na última narrativa, mais propriamente ensaio). Os conto...

Canto noturno de um pastor errante da Ásia: comentário e tradução

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Por Thiago Teixeira  O homem não passa de um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço pensante.  — Pascal Edvard Munch, Melancolia .  “É preciso saber esquecer”. Esta bela frase é o do Nietzsche da “Segunda consideração extemporânea”: Da utilidade e desvantagem da história para a vida . Ele inicia o texto com uma imagem: o homem no alto de sua superioridade depara-se com um rebanho de animais e os inveja. Inveja-os, pois percebe que eles não se curvam ao peso do tempo, eles não têm uma noção de passado, uma memória, uma lembrança, e, por isso, estão aptos para a felicidade. Os animais são capazes de se esquecer, já o homem, ser histórico, é abatido pelo mal de Funes, el Memorioso e chega mesmo a viver de memórias, acumulá-las como um colecionador. Acontece que, para a felicidade, diz então Nietzsche, é preciso fazer concessões nessa postura excessivamente histórica: é preciso saber esquecer: “Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que ...

Boletim Letras 360º #705

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Cora Coralina. Três livros com inéditos da poeta em fase de publicação. LANÇAMENTOS Em novo livro de poemas, Geraldo Carneiro constrói um percurso em que experiência pessoal, criação e consciência da forma convivem sem hierarquias . Sua poesia não se alimenta de fumaças metafísicas; ao contrário, zomba disso ― ainda que se permita alternar o tom meditativo e o viés irônico, tão característico do autor. O poeta brinca com a passagem do tempo, o envelhecimento e a finitude, amparado quase sempre por uma dicção que evita a solenidade e o sublime, preferindo o humor e...

As sedes de Liana Ferraz

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Por Taynan Iris Liana Ferraz. Foto: Martín Zenorini Sede de me beber inteira (2022), de Liana Ferraz, é uma coletânea de poemas de textura muito leve e com uma certa simplicidade, mas de muita profundidade pelo teor sensível. É justamente por isso que o leitor, ao se achegar apenas na beirinha do rio dessa poesia, logo se vê envolvido por um reconhecimento de si, como se a palavra se fizesse líquido e, em sua superfície, refletisse aquilo que somos. Isto é, a experiência, por trás desses versos de linguagem minimalista, é um encontro consigo mesmo. É uma poesia que nos interpela; a palavra é utilizada, por essa poeta estreante no mercado literário, de modo a abarcar nossa vivência com o mundo e, sobretudo, com o nosso interior.  Antes mesmo de chegar aos versos, o título da coletânea demonstra isso. A sede enunciada poderia, a princípio, aludir a uma necessidade física. Não se trata, porém, da sede de água; revela-se, na verdade, como uma sede de beber-se por inteiro. É o desejo ...