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Boletim Letras 360º #680

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Kurt Vonnegut. Foto: Santi Visalli.    LANÇAMENTOS Em obra impressionante, Vonnegut satiriza o papel maléfico do homem comum na política e na guerra Howard Campbell Jr. é um escritor americano vivendo na Alemanha quando o nazismo chega ao poder .   Recrutado pela inteligência militar dos Estados Unidos, ele começa a trabalhar como espião durante a Segunda Guerra Mundial. Por ser um dramaturgo respeitado e casado com uma popular atriz alemã, conquista facilmente a simpatia dos nazistas e oferece seus serviços para disseminar ideias antissemitas....

La vie en rouge: a Medea de Sêneca por Gabriel Villela

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Por Afonso Júnior Ilustração de Guilherme Crivelaro. Cartaz de Medea. O edifício do teatro estava sem luz, com geradores há três dias. Umas calçadas na quadra próxima pegaram fogo, foram abertas pela empresa privada, ficam à vista pedras e terra. Há pouco, uma mulher desapareceu porque sua casa ficou sem luz. Policiais dão aula (e erram o português) porque os pais têm medo e preferem disciplina. Quem será o próximo Nero? O brasileiro tem um pote até aqui de mágoa.  Os monstros de Sêneca também.   Quebrar o clássico é uma tarefa titânica. Existe algo que Gabriel Villela entende, algo sobre o barro do teatro catastrófico, suas rupturas. Trazer uma peça esquecida assim já demonstra sua seriedade.  Qualquer artista que aceite o desafio de montar um Sêneca merece louvores.  Os textos apresentam muitas dificuldades dentro da mentalidade comum de teatro (uma espécie de aristotelismo realista mediano).  São muitas descrições, muitas falas intermináveis, nunca ...

Herscht 07769, de László Krasznahorkai

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Por Pedro Fernandes Existirmos, a que será que se destina? — Caetano Veloso Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará a tua justiça. — Sl 51:14 László Krasznahorkai. Foto: Matyas Szollosi Todos carregamos em nosso interior a nuvem escura que pode nos insuflar para o irremediável. Com ela ou não também uma voz ininterrupta que nos conta uma história com ramificações tão diversas e nem sempre alcançamos um ponto final; com essa voz dialogamos, e por vezes, ela nos provoca a conversa, reaviva outras vozes ou se deixa interceptar. Esse fio que nos aparece com a formação da parte da nossa consciência responsável pela linguagem e deve nos acompanhar até a morte serviu de maneira muito diversa à elaboração de uma literatura centrada na interioridade, o que, na história do romance, ficou marcado com o início de uma era de renovação da forma narrativa estabilizada com a expressão realista do século XIX. Mais tarde, ao juntar esses procedim...

Valor sentimental: os aperitivos nórdicos não cabem em prato pequeno

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Por Ignacio Ruiz de Gauna  Há um belo diálogo pouco antes do terceiro ato de Valor sentimental , no qual a estrela de Hollywood Rachel Kemp (Elle Fanning), que supostamente interpretará uma sósia da filha do diretor, Nora (Renate Reinsve), em um filme com claras nuances autobiográficas, admite sua incapacidade de compreender a personagem, questionando por que o papel não é interpretado pela própria filha do diretor, também atriz, que o rejeitou como sua primeira opção. “Não consigo alcançá-la”, diz ela. E é exatamente isso que acontece com o diretor, roteirista e criador em todos os sentidos de um filme que o domina e transborda como um punhado de areia por suas mãos. Uma premonição. Ou melhor, uma metalinguagem involuntária, receio. Joachim Trier, o aclamado cineasta norueguês, que já havia provado o sabor do sucesso com seu filme anterior, A pior pessoa do mundo (2021), deve ter matado aula na Escola Nacional de Cinema e Televisão (a mais prestigiosa do mundo) no dia em que expl...

A escrita e o ser em Análise de Vera Iaconelli

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Por Herasmo Braga No âmbito do tempo histórico, o cultivo e desenvolvimento da interação humana através da oralidade é muito maior quando comparado ao da escrita. Muitas tradições e concepções culturais continuam a ser transmitidas em maior número pelos percursos da oralidade, mesmo com toda relevância que a escrita ganhou nos últimos tempos na história humana. Em meio a essa maior compatibilização mediada pela linguagem oral, a escrita, por sua vez, realiza uma interface mais aprofundada dos indivíduos no âmago do seu ser. Aristóteles, como já mencionado em outras oportunidades, em sua Poética , expressa a constituição do homem pela narrativa. Seria, portanto, o homo narratum . Dessa maneira, não é de se estranhar, nas interpretações e inferências do cotidiano, a necessidade do indivíduo de construir sua própria narrativa, ser o protagonista da sua história, entre outras. Todavia, importa diferenciar como essa narrativa será escrita. Será ela tecida por uma escrita que se vive e, port...

Dois romances de Oscar Nakasato

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Por Eduardo Galeno Oscar Nakasato. Foto: Gilvam César Borges No geral, o romance Ojiichan me pareceu dar uma certa continuidade ao aclamado vencedor do Jabuti de 2012. Não quero falar de saga porque cada livro é uma história, mas de buscar conter respostas satisfatórias sobre a escrita de Oscar Nakasato, incluindo na bolsa a sua invenção da arte de contar. Em qual sentido, resumidamente, ele chega? No modo onde a ação passa do exercício social ao existencial. Para não ficarmos no clichê do fato de Satoshi ser idoso, quer dizer, na afirmação de um ídolo narrativo , verifiquei três posições que podem fugir da rotina na interpretação:  A primeira é a sensibilidade com que o protagonista participa do mundo, que antecipa a sua autonomia frente a ele. O saber nasce da percepção imediata do ambiente, do corpo, das marcas sensuais sobre a matéria. Ojiichan apreende a realidade antes de qualquer reflexão, desse modo, pelo viés da presença. O conhecimento surge como impressão acumulad...