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Ler Kadosh e entender Kadosh é ser Kadosh

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Por Felipe Vieira de Almeida Hilda Hilst. Foto: Irmo Celso Na tela do Cinema da Praça em Paraty, Hilda ganhava vida buscando contato com os mortos, vagando pela chácara em Campinas que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst. Uma senhora HH, encarnada pela atriz Luciana Domschke, com microfone, fones de ouvido e gravador tentava detectar alguma frequência de origem incerta. O título do filme de Gabriela Greeb é um acerto: Hilda Hilst pede contato . Lembro de ter conhecido os livros de Hilst poucos meses antes do anúncio da Flip 2018, àquela altura tinha lido com sede tudo que estava facilmente acessível nas livrarias e até garimpado alguns títulos fora de impressão em sebos. Ainda estava sob forte influência dessas leituras quando a a organização do evento de Paraty anunciou HH como homenageada naquele ano e me vi obrigado a ir, Hilda pedia contato. Hilda Hilst ainda é mais conhecida do público geral por sua obra dita despudorada que é, quando lida superficialmente, resumida a algum tipo d...

Boletim Letras 360º #683

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DO EDITOR O leitor que frequenta as nossas redes sociais terá descoberto antes deste boletim, a nossa alegria de anunciar neste Dia Mundial da Poesia uma novidade que acrescentará, certamente, às fronteiras do Letras . Nosso projeto se junta ao Observatório da Poesia Contemporânea, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco. A partir de abril, o leitor terá ao seu dispor uma série de publicações interessadas em responder e discutir uma variedade de questões que marcam isso que temos chamado de poesia contemporânea : resenhas de livros de e sobre poesia, ensaios críticos interessados em problematizar a lançar alguma luz no vasto campo da criação poética em nosso tempo etc.  Reitero o convite. Aproveite para seguir a página do Observatório no Instagram   e esteja atento ao Letras  e também às nossas redes. Continuaremos a dedicar a atenção que sempre demos à força de toda criação literária. Agora, um pouquinho mais, é verdade. Na aquisição de qualquer um dos li...

Casas de cultura, praias e livros

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Por Rafael Bonavina Charles Burchfield, Deserted House , 1918 Aceleração. Essa parece ser a palavra de ordem ao se tratar da cultura, que cada vez mais se assemelha a algo para aliviar rapidamente um desconforto, como um chiclete que se masca, embrulha e joga fora. Cada vez os vídeos estão mais curtos, mais estridentes e dinâmicos (mais danças, músicas, luzes e apupos), porém o conteúdo — produzido pelas chamadas inteligências artificiais —fica para as legendas, que raramente são lidas.  Não é raro ouvir que a literatura está se desenvolvendo também nessa linha: textos cada vez menores (microcontos, micropoesias) divulgados nas redes sociais com vídeos gravados pelos próprios autores. Isso não significa, claro, que uma literatura menos acelerada tenha deixado de existir, e até mesmo de tocar em questões importantes da atualidade. Pelo contrário, são muitos os textos que nos levam à incômoda reflexão sobre as limitações e contradições do nosso tempo. Ainda assim, eles acabam perdido...

O colibri, de Sandro Veronesi

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Por Sérgio Linard  Sandro Veronesi. Foto: Gianni Cipriano “Quantas pessoas estão sepultadas dentro de nós?” (p. 319) Esta pergunta poderia resumir perfeitamente o ótimo romance O colibri , do italiano Sandro Veronesi. Esta história, que se apresenta ao leitor de maneira não linear, garantiu ao autor, o segundo na história do prêmio, a receber por duas vezes o importantíssimo Strega. O título da obra e a justificativa dele, exposta já nas primeiras páginas, não sinalizam que o apanhado deste romance seria o de uma história do luto em vida ou, talvez, de uma vívida morte.  Na literatura contemporânea — com destaque especial para a europeia — a exploração da multiplicidade de formas dentro do gênero romance tem sido bastante comum. A plasticidade do gênero permite manifestações textuais das mais diversas e com o acréscimo rotineiro de textos da era da informação: a carta deu lugar ao e-mail; o bilhete, à mensagem de WhatsApp; e as grandes descrições que definiam algo deram lugar ...

O cavalo de Turim, de Béla Tarr

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Por Hugo Hernández  Béla Tarr pôs fim à sua carreira do cineasta com O cavalo de Turim (2011), vencedor do prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e do Urso de Prata do Júri no Festival de Berlim. O filme ficou como seu testamento. Ele foi um diretor inclassificável, quase um gênero em si mesmo. Segundo o diretor estadunidense Gus Van Sant, ele era “um dos poucos diretores verdadeiramente visionários”; e a obra do húngaro também representa uma influência significativa para o próprio Van Sant.  O cineasta húngaro geralmente evitou a causalidade e a narrativa em três atos: seus filmes oferecem mais do que histórias; são experiências que “se aproximam dos verdadeiros ritmos da vida”, como também afirma Van Sant. Eles exigem mais do espectador do que simplesmente juntar as peças dos eventos apresentados; convidam-no a assumir uma postura ativa (caso contrário, corre o risco de ficar entediado), a se abrir e se aventurar por caminhos menos conhecidos, onde a emoção...

Legado da forma

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Por Thiago Teixeira  Michel de Montaigne. Escola Francesa. Entender o ensaio, este gênero que tanto nos é caro e que, às duras penas, nos esforçamos para cultivar, talvez seja uma boa maneira de iniciar a sequência de textos que passaremos a publicar neste espaço. Isso significa, claro, revisitar o criador do gênero, Michel de Montaigne. Seus Ensaios , publicados em três volumes durante a vida, são a melhor companhia de leitura para quem ama literatura e filosofia. Montaigne escreve como quem conversa com o leitor, mostrando-se por inteiro, em uma sinceridade e franqueza que não encontramos nem mesmo entre os epistológrafos.  Mais do que a imagem de um homem renascentista, moderno, próximo a nós, Montaigne nos legou uma forma de expressão que concorre com a metodologia, visão ou postura científica. Para a entendermos um pouco, a melhor fonte talvez seja o segundo texto do terceiro volume, intitulado “Do arrependimento”, no qual ele deixa claro não estar pintando o retrato...