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Boletim Letras 360º #667

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DO EDITOR Saibam que na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter o Letras. A sua ajuda é essencial para que este projeto permaneça online. Roberto Bolaño. Foto: Basso Cannarsa LANÇAMENTOS Três narrativas póstumas de Roberto Bolaño, em que autobiografia, fabulação alucinada e memórias da ditadura chilena se entrelaçam no inconfundível universo literário do autor . Entre os encantos oferecidos pela leitura de Roberto Bolaño está a sensação de testemunharmos a expansão de um vasto e intrincado processo criativo. Este livro amplia ainda mais esse território ficcional com três textos póstumos, que antecipam ou dialogam com outras obras do escritor chileno. Em “Pátria”, Rigoberto Belano recorda os efeitos do golpe de estado do Chile na vida de sua família e relata as aventuras do poeta revolucionário Juan Cherniakovski, que apareceria depois em Estrela distante. A novela “Sepulcros de caubóis” acompanh...

Eugenia, romance erótico

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Por Pablo Sol Mora  Deparei-me com a primeira edição de Eugenia (Mérida, 1919), o incomum romance de ficção científica iucateque que tanto atraiu a atenção no alvorecer do século XXI (como comprovam as duas reedições em espanhol e a tradução para o inglês pela Universidade de Wisconsin). Seu autor, Eduardo Urzaiz — nascido em 1876 em Cuba, de evidentes origens bascas, mas residente em Mérida desde a infância — era professor e médico, psiquiatra e ginecologista, com interesses muito amplos, incluindo história, religião, literatura, pedagogia, arte e, claro, medicina. Uma espécie de homo universalis renascentista no Yucatán do início do século XX. A Wikipédia também informa que ele foi membro do Partido Socialista do Sudeste, fato que não passa despercebido em seu único romance. Eugenia despertou interesse, em primeiro lugar, por ser uma obra pioneira, senão a primeira, da ficção científica no México, e suponho que em espanhol em geral. A trama se passa no início do século XXIII e...

Copenhagen e as máscaras de uma menina poeta

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Por Henrique Ruy S. Santos Tove Ditlevsen. Foto: Steen Jacobsen Quando se propõe a narrar experiências de infância, sejam elas de caráter autobiográfico ou não, é comum que um escritor recorra, como ferramenta estilística e narrativa, a um certo grau de adesão ao ponto de vista da criança. A preferência pela perspectiva de determinado personagem como recurso de linguagem narrativa não é nenhuma novidade na literatura, ainda mais se considerarmos sua utilização de maneira ampla, isto é, como a simples concatenação de acontecimentos a partir das vivências de cada personagem. Nesse caso, logo se vê que não se trata de uma firula discursiva, mas de um aspecto estruturante da narração, uma condição para sua própria inteligibilidade. Ainda assim, em um sentido um pouco mais restrito, é possível observar o desenvolvimento de técnicas que modificam ou aprofundam essa maneira de “adentrar a mente dos personagens”, muitas delas motivadas seja pelo desejo de inovação, seja por uma certa desconfia...

A infelicidade vintage de A eterna adolescente

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Por Carlos Rodríguez  Nada a discordar de Tolstói: “Todas as famílias felizes são iguais; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Ah, a família, esse grupo de pessoas que se influenciam direta ou indiretamente, para o bem ou para o mal, às vezes sem perceber o quanto prejudicam a vida de seus membros. O cinema mexicano tem sua parcela de famílias famosas. Os García, que, apesar da rivalidade cômica, se respeitam muito; os Nobles — sim, com s no plural — unidos na pobreza inventada pelo pai; ou a família extensa que viaja no Volkswagen amarelo de Os insólitos peixes-gatos (2013). A essa coleção de ilustres famílias cinematográficas, soma-se a de A eterna adolescente (2025), filme do diretor Eduardo Esquivel. A infelicidade dessa família é agridoce, pop e vintage. Composta principalmente por mulheres, a família de A eterna adolescente não se vê há muito tempo. Como costuma acontecer, um evento inesperado e trágico as reúne novamente, trazendo à tona problemas antigos. Quand...

À procura do insólito

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Por Andrea Chapela  No início do filme, um meteorito atravessa a atmosfera da Terra e cai em um farol. Algo começa a se expandir, uma radiação que avança lentamente, cobrindo o terreno ao redor. A área afetada, dentro desse véu que altera a luz e as percepções, é a Área X, onde o DNA dos seres vivos — plantas, animais e humanos — pode se combinar para formar criaturas estranhas. É algo incomum, desconhecido, perigoso, e por isso, como se para compreendê-lo, o governo envia seus melhores cientistas para investigar, mas apenas um deles, uma bióloga chamada Lena, retornou. Essa é a história, pelo menos o começo, de Aniquilação (2018), um filme baseado no livro homônimo de Jeff VanderMeer, um dos mais conhecidos expoentes do gênero New Weird . Ele próprio, juntamente com sua esposa Ann VanderMeer, editou as antologias The New Weird (2007) e The Weird (2012), que deram nome ao gênero e reacenderam a discussão em torno dele. Nesse gênero, o cotidiano se torna estranho e o estranho se ...

Um jardim fiel de materialidades em fé

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Por Tiago D. Oliveira Adélia Prado. Foto: Nana Moraes Respondendo a um de seus seguidores nas redes sociais, Adélia Prado — que aos 89 anos se reinventa lendo poemas, lançando perguntas e dialogando com leitores a partir da sua obra — diz que um de seus salmos favoritos é “Pequei, Senhor, misericórdia”. Em seguida, cita: “livrai-me da memória do pecado em meu espírito”, reafirmando a voz inigualável dessa poética que constrói destinos. “Eu queria ter escrito isso, porque a memória do crime praticado é pior do que o crime. O perdão pleno é esse que nos livra da memória do crime.” A poesia, para essa poeta, se desenha como um campo de reações e experimentos onde a fé se ancora diretamente nas diversas fases da vida. Vencedora dos prêmios Camões e Machado de Assis, a autora reúne reconhecimentos que contemplam “o conjunto da obra”, que, se tratando de Adélia,  nunca deixa de surpreender. A “paciência das tardes” pode sugerir uma boa metáfora para o percurso de leitura do novo livro da...