Postagens

Estamira, insolações contra o descuido — notas sobre o que restou

Imagem
Por Lucas Paolillo eu fedo/ tu fedes/ ele fede/ nós fedemos/ vós fedeis/ elas fedem mas que eu não feda no metrô/ que tu não fedas na aliança francesa/ que ela não feda na sanduicherie/ que nós não fedamos na brasserie/ que vós não fedais nos escritórios/ que eles não fedam na hora do sexo fede tu!/ feda você!/ fedamos nós, porra!/ fedei vós/ fedam vocês! eu já fedi/ tu já fedeste/ ela já fedeu/ nós já fedemos/ vós já fedestes/ eles já federam quando eu feder, irei para Paris/ quando tu federes, poderás ser gerente/ quando ela feder, estará pronta para o serviço/ quando nós federmos, acabaremos com a corrupção/ quando vós federdes, acabareis com a guerra/ quando eles federem, abraçarão uns aos outros eu federa um dia/ tu federas pra caralho!/ ela federa, mas dava para aguentar/ vós federeis como cachorros molhados de rua/ eles federam e continuavam fedendo não fedeu!?/ em algum instante da vida eu federei/ tu federás/ ela federá/ nós federemos/ vós federeis/ eles federão — Manuel V...

Falando com os mortos

Imagem
Por Rafael Bonavina Há alguns anos, li o romance Uma história comum , de Ivan Gontcharóv, e me apaixonei novamente por esse incrível escritor com quem convivi por alguns anos de pesquisa. A trama é, como indica o título, quase cotidiana: um jovem de uma distante província vai para a cidade grande e é transformado pelo contato com a vida da capital. Esse romance ecoa fundo em muitas pessoas que, como eu, veem-se um pouco no protagonista dessa narrativa tão comum quanto impactante. Lembrei-me dessa história justamente por ter percebido a semelhança de um hábito meu com de um dos personagens principais do romance: Piotr Adúiev, um típico homem de ação da literatura russa do século XIX. Figura cativante, porém acabava sendo artificial em alguns pontos da narrativa. Pelas manhãs, Piotr recebia as cartas do dia e as lia antes mesmo de sair da cama, respondendo o que era necessário por meio de um aparato de escrita convenientemente colocado à cama. É claro que eu não tenho nada disso, e apena...

A sintaxe da pedra em Pedras selvagens, de Fernand Pouillon

Imagem
Por Amanda Fievet Marques Fernand Pouillon: Foto: Arquivo PSB Escrito entre 1962 e 1963, durante a prisão, e publicado em 1964 pelas Éditions du Seuil, o livro Pedras selvagens , do arquiteto, urbanista e escritor francês Fernand Pouillon, é um romance histórico: o diário imaginado de um monge e mestre de obras que trabalha na construção da abadia do Thoronet, na Provença do começo do século XII.  A abadia do Thoronet é um marco da arquitetura cisterciense. A ordem cisterciense contribui para difundir um tipo de construção que lhe é própria e cujo maior preconizador foi o abade cisterciense Bernard de Clairvaux. O livro de Pouillon, portanto, conta o dia a dia no canteiro de obras no Thoronet e, ao mesmo tempo em que reflete sobre a criação e a beleza, constrói uma linguagem mineral. Uma meditação sobre a construção, em que o trabalho de erguer o edifício se reflete no trabalho com a palavra. Um livro pedra mais do que um livro sobre a pedra na medida em que Pouillon erige no texto...

Oito poemas dos Diários do exílio (volume II), de Yannis Ritsos

Imagem
Por Pedro Belo Clara I. (24 de Novembro, 1948) Dia de pedra, palavras de pedra. Lagartas trepam pela parede. Um caracol, a casa às costas, aparece à tua porta pode ficar ou pode partir. Tudo é como é. É nada. Esse nada não é macio. É feito de pedra. II. (25 de Novembro) Os nossos estão longe. Escasseiam as cartas. As moscas estão a morrer de frio. Vemo-las cair no chão, Mais tarde varremo-las. III.  (14 de Dezembro) Uma Segunda-feira feita de neve Terça-feira a continuação da Segunda  nada começou nada terminou. O remo quebrado o sino que anuncia o temporal um guarda-chuva —  a eterna desconfiança da hipocrisia. As vozes assumem sempre a postura de um cadáver sem sapatos.  * Afinal, aos mortos nada lhes falta. IV. (4 de Janeiro, 1949) E de súbito a lembrança dos pássaros que mergulharam no desconhecido.  V. (22 de Janeiro) Pousou a fronte sobre a mesa onde está o pão calmo como uma estátua entre glória e morte. VI.  (25 de Janeiro) Por um instante a parede ...

Boletim Letras 360º #688

Imagem
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Mary Oliver. Foto: Kevork Djansezian LANÇAMENTOS Antologia reúne três livros de Mary Oliver. É a primeira vez que a poeta é publicada no Brasil .   Caminhar, sentir, observar, meditar, anotar: esses talvez sejam os verbos que definem a obra de Mary Oliver (1935-2019). No ambiente disputado da poesia estadunidense das últimas décadas, sua lírica forte e clara, talhada no convívio intenso com a natureza nos arredores de sua casa, conseguiu ocupar um lugar de raro destaque, fazendo dela uma das escritoras mais premiadas e de maior popularidade de seu país. ...

A palavra que resta e as simultaneidades dos tempos

Imagem
Por Herasmo Braga Stênio Gardel. Foto: Fernanda Oliveira A diversidade de textos aos quais os sujeitos são apresentados no cotidiano gira não mais na ordem do exagero, mas além dela. Ao delimitar uma área mais específica, como a de realizações ficcionais, a quantidade também não será menor. Então, ser seletivo é mais do que uma obrigação, beira a uma sobrevivência para aqueles que exercem a potencialidade de suas inteligências associada ao campo da qualidade estética. Nesse contexto, pode-se evidenciar a obra de Stênio Gardel, A palavra que resta . Seu ponto significativo é o louvável trabalho da configuração dos tempos em meio às suas simultaneidades. É importante lembrar que a qualidade de uma obra literária não reside apenas no bom ou excelente uso da linguagem. De fato, esse é um dos princípios fundamentais, todavia, não o maior. Há outros aspectos que devem ser levados em conta e na tessitura deles é que se poderá destacar a qualidade ou a precarização de uma obra. Pode-se mencion...