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Os caminhos trôpegos e regados à bebida em Suttree, de Cormac McCarthy

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Por Douglas Sacramento Cormac McCarthy. Foto: Gilles Peress I Rebecca Solnit, no livro A história do caminhar , apresenta um compilado literário e cultural sobre o ato de andar nas suas mais variadas acepções. Num determinado momento, a autora dedica sua escrita às pessoas que andam na rua e aborda como a cidade pode ser um espaço labiríntico, marcado por indivíduos de múltiplas ocupações, caracterizando-se, assim, como um território ambíguo. A cidade ora remete à liberdade de circular pelas ruas, becos e vielas, ora revela seu lado negativo, como um lugar onde se mata e onde constantemente circulam sujeitos de atitudes duvidosas.  Mas algo me chama atenção nesse texto de Solnit: a rua é associada ao sujo e ao baixo. Mesmo quando são mobilizadas representações positivas da urbe, parece haver sempre algo à espreita, capaz de acabar com essa energia. Então, chega-se à conclusão de que, na cidade, tudo pode acontecer, e o sujeito pode se deparar com outros tão diversos quanto ele...

Transgressão, êxtase e sonho: a irrealidade de Max Blecher

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Por Felipe Vieira de Almeida  A literatura é uma arte que, me parece, nunca abandona sua essência; é a arte cuja matéria-prima é a linguagem e ainda que se trate de um ponto de partida coletivo me descubro fascinado com usos dessa linguagem que de tão peculiares parecem nos ensinar uma humanidade diferente de nós. Blecher foi um escritor romeno de origem judaica que passou os últimos dez anos de sua vida (dos 18 aos 28 anos) sofrendo com as limitações do Mal de Pott, a tuberculose vertebral, confinado a um leito pela impossibilidade de sobrecarregar sua coluna vulnerabilizada pela doença. Seria uma indiscrição introduzir um autor junto de sua doença, seria se essa doença não tivesse alterado tanto os rumos de sua vida e, por conseguinte, de sua escrita, mas Blecher escreveu com brilhantismo textos intrigantes a partir da posição ingrata em que se encontrava. Acontecimentos na irrealidade imediata é uma pequena joia da literatura romena publicada no entreguerras e que à época era u...

Boletim Letras 360º #689

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Rosa Montero. Foto: Ivan Giménez LANÇAMENTOS Neste romance profundo, erótico e irresistível, Rosa Montero fala da passagem do tempo, do medo da morte e do fracasso — mas também da esperança. Um hino à necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo . “No fim, tudo acabava desembocando no amor. E no sofrimento.” Soledad contrata um gigolô para acompanhá-la à ópera e provocar ciúmes no amante que a abandonou. Mas, na saída, um acontecimento inesperado e violento vira subitamente o jogo e marca o início de uma relação turva, vulcânica e não desprovida de perig...

Lua na jaula, de Ledusha Spinardi

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Por Luiza Perez Ledusha Spinardi. Foto: Renato Parada Leda Beatriz Spinardi, ou Ledusha Spinardi, nasceu em 1953, em Assis, interior de São Paulo. Após se mudar para o Rio de Janeiro, a poeta se integra à cena literária carioca e publica o marcante projeto Risco no disco (1981) na Coleção Capricho, ao lado de nomes como Ana C. e Francisco Alvim. Mais adiante, lança Finesse & fissura (1984), que compõe a celebrada “Cantadas Literárias” da Editora Brasiliense, que reuniu poetas como Paulo Leminski, Alice Ruiz e Chacal. As obras dialogam com a chamada poesia marginal (à margem editorial), especialmente pela experimentação e teor crítico afiado. Apesar do diálogo, há, já nos primeiros livros, algumas particularidades da poesia de Ledusha que chamam a atenção, como a construção própria da ironia subversiva: Deslavada Meu caro Antônio Não pude ir Pneu furou Não sei trocar (Spinardi, 1984, p. 45)  Para contar uma mentira deslavada , a voz poética se apropria, com cinismo, do discurs...

A noite das barricadas, de H. G. Cancela

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Por Pedro Fernandes H. G. Cancela. Foto: Adriano Miranda O que podem a história e a memória ante a invisível e intragável força do tempo? Pela extensão deste século, quando a civilização ocidental começa a vislumbrar as linhas de travessia capazes de inserirmo-nos outra vez em um conjunto tão amplo e variado de transformações, podemos oferecer duas respostas a esta pergunta, uma contrária a outra.  A primeira é positiva e imprime a certeza de que sem a história e a memória não teríamos chegado até aqui, mesmo com todos os erros e impasses, porque, graças a essas duas matérias, pudemos organizar a complexa realidade e construir perspectivas que nos permitem avançar na consolidação de novos valores na feitura interminável da humanidade. É uma resposta a essa altura até um pouco ingênua, visto que, passível ao esquecimento e à manipulação, a história e a memória podem servir no exato rumo inverso ou de peregrinação circular entre os círculos do mesmo inferno.  Diante disso, a seg...

Estamira, insolações contra o descuido — notas sobre o que restou

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Por Lucas Paolillo eu fedo/ tu fedes/ ele fede/ nós fedemos/ vós fedeis/ elas fedem mas que eu não feda no metrô/ que tu não fedas na aliança francesa/ que ela não feda na sanduicherie/ que nós não fedamos na brasserie/ que vós não fedais nos escritórios/ que eles não fedam na hora do sexo fede tu!/ feda você!/ fedamos nós, porra!/ fedei vós/ fedam vocês! eu já fedi/ tu já fedeste/ ela já fedeu/ nós já fedemos/ vós já fedestes/ eles já federam quando eu feder, irei para Paris/ quando tu federes, poderás ser gerente/ quando ela feder, estará pronta para o serviço/ quando nós federmos, acabaremos com a corrupção/ quando vós federdes, acabareis com a guerra/ quando eles federem, abraçarão uns aos outros eu federa um dia/ tu federas pra caralho!/ ela federa, mas dava para aguentar/ vós federeis como cachorros molhados de rua/ eles federam e continuavam fedendo não fedeu!?/ em algum instante da vida eu federei/ tu federás/ ela federá/ nós federemos/ vós federeis/ eles federão — Manuel V...