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Renato Russo no livro dos dias

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Por Lucas Paolillo “A produção cultural foi reconduzida ao interior da mente, dentro do sujeito monádico; ela não pode mais olhar diretamente com seus próprios olhos para o mundo real em busca de um referente, ao contrário, ela deve, como na caverna de Platão, traçar suas imagens mentais do mundo nas paredes que a confinam. Se ainda sobrou aqui qualquer realismo, é um ‘realismo’ que brota do choque de se compreender esse confinamento e de se perceber que, sejam quais forem os motivos, parecemos condenados a buscar o passado histórico através de nossas próprias imagens pop e estereótipos sobre o passado, que permanece sempre fora de alcance” — Fredric Jameson. In: “Pós-modernidade e sociedade de consumo” (1984) “Lembrei apenas de alguns motivos de pensamento e análise que talvez possam levar a maior dignidade. Há vinte anos atrás, se me perguntassem o que valia mais, se o autor, se a ideia, eu responderia sem hesitar que o autor. Agora já não sei mais, vivo incerto. O homem é coisa subl...

Escrita em movimento, de Noemi Jaffe

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Por Herasmo Braga  Noemi Jaffe. Foto: Renato Parada. Embora não realize uma interpretação escatológica dos tempos atuais, não há como ser indiferente diante das perdas de referencialidade e de credibilidade que têm assolado os discursos propagados, seja em forma de notícias, na exposição de ideias, ou nas elaborações narrativas. Dessa maneira, os vínculos comunicativos, de debates, de aspectos formativos tendem a ser mais agentes que desqualificam os sujeitos do que propriamente colaboram para a vida social e subjetiva dos indivíduos. Em meio a esse contexto, estimular o desenvolvimento e valorizar quem realiza produções discursivas de qualidade não constituirá apenas uma ação significativa para cognição, mas até mesmo algo de sobrevivência para os seres mediante a necessidade interativa. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em uma das suas obras mais recentes denominada A crise da narrativa , destacou os danos vigentes que a perda da capacidade qualitativa vem ocasionando diante...

Sobreviver à obra: O desconhecido da grande arca, de Stéphane Demoustier

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Por Cristina Aparicio  Esta não é a primeira vez que Stéphane Demoustier esclarece logo no início de um filme que se trata de ficção. Em seu filme anterior, Borgo , a cena de abertura (e ponto de virada narrativa da história) foi precedida pela seguinte informação: “Embora inspirado em fatos reais, este filme é ficção. Personagens, situações e lugares são imaginários e não pretendem refletir a realidade nem julgar os eventos ou pessoas que existem ou existiram.” Algo semelhante acontece em O desconhecido da grande arca , em tradução livre), com o aviso de que o filme é vagamente inspirado em acontecimentos reais ocorridos entre 1983 e 1987.  Nos dois casos, Demoustier coloca o espectador no reino da invenção, distanciando-se da realidade e, com isso, separando-se de seu ponto de referência: uma operação com a qual evita comparações, a busca constante pela verdade ou a fidelidade aos fatos. Assim, com um convite à fábula, mas enfatizando sua fonte de inspiração, o diretor franc...

Teofania pombalina

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Por Eduardo Galeno Planta do século XVIII na missão de São Miguel Arcanjo, redução jesuíta no Rio Grande do Sul. Domínio público. Ante   Na prática letrada setecentista, Basílio da Gama ocupa um lugar específico. Perseguido juridicamente pelo Estado português assim como Gregório de Matos pelas autoridades da Bahia, isso mesmo o faz ser uma figura muito central para explicarmos as contradições entre um homem formado pelos jesuítas, principal corpo político inimigo de Portugal no meio do século XVIII, e um súdito subordinado às leis divinas da teologia imbricadas nas leis civis pró-Coroa. O que se pode obter, na tarefa de elucidar uma questão que não é só histórica mas igualmente poética, é que seu continente é o conteúdo público, se for para falar assim. A raiz neoclássica poderia fantasiar já com o corte do valor de troca? Possivelmente: no acordo de virada da segunda modernidade e no seu protesto à metafísica aristotélico-tomista, a porteira da novíssima poesia se abriria para os ...

Ler Kadosh e entender Kadosh é ser Kadosh

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Por Felipe Vieira de Almeida Hilda Hilst. Foto: Irmo Celso Na tela do Cinema da Praça em Paraty, Hilda ganhava vida buscando contato com os mortos, vagando pela chácara em Campinas que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst. Uma senhora HH, encarnada pela atriz Luciana Domschke, com microfone, fones de ouvido e gravador tentava detectar alguma frequência de origem incerta. O título do filme de Gabriela Greeb é um acerto: Hilda Hilst pede contato . Lembro de ter conhecido os livros de Hilst poucos meses antes do anúncio da Flip 2018, àquela altura tinha lido com sede tudo que estava facilmente acessível nas livrarias e até garimpado alguns títulos fora de impressão em sebos. Ainda estava sob forte influência dessas leituras quando a a organização do evento de Paraty anunciou HH como homenageada naquele ano e me vi obrigado a ir, Hilda pedia contato. Hilda Hilst ainda é mais conhecida do público geral por sua obra dita despudorada que é, quando lida superficialmente, resumida a algum tipo d...

Boletim Letras 360º #683

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DO EDITOR O leitor que frequenta as nossas redes sociais terá descoberto antes deste boletim, a nossa alegria de anunciar neste Dia Mundial da Poesia uma novidade que acrescentará, certamente, às fronteiras do Letras . Nosso projeto se junta ao Observatório da Poesia Contemporânea, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco. A partir de abril, o leitor terá ao seu dispor uma série de publicações interessadas em responder e discutir uma variedade de questões que marcam isso que temos chamado de poesia contemporânea : resenhas de livros de e sobre poesia, ensaios críticos interessados em problematizar a lançar alguma luz no vasto campo da criação poética em nosso tempo etc.  Reitero o convite. Aproveite para seguir a página do Observatório no Instagram   e esteja atento ao Letras  e também às nossas redes. Continuaremos a dedicar a atenção que sempre demos à força de toda criação literária. Agora, um pouquinho mais, é verdade. Na aquisição de qualquer um dos li...